Encenação? Foto de Boris Johnson com a namorada só aumenta polémica

O candidato à liderança dos conservadores continua a não dar respostas sobre o incidente com a namorada, mas agora também sobre a foto em cenário romântico que chegou às redações e fez capa em vários jornais.

Depois de ter sido notícia por uma discussão doméstica com a namorada, à qual foi chamada a polícia, e de ter faltado ao debate na Sky News com o seu adversário, o que lhe valeu de Jeremy Hunt o epíteto de "cobarde", a campanha de Boris Johnson reagiu com uma fotografia que fez chegar às redações. Ao ar livre, em ambiente campestre, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Theresa May está sentado à mesa com a namorada, Carrie Symonds. Uma imagem idílica que terá sido tirada no domingo, no campo, apareceu nas manchetes de vários diários britânicos, mas que estará a trazer ainda mais críticas e escrutínio a Boris Johnson do que antes.

O Daily Mail, por exemplo, deu destaque ao tema, mas não se absteve de comentá-lo no título da manchete: "Boris e a cena Mills & Boon [editora de romances de cordel] que nos toma por tolos", e em antetítulo lê-se no tabloide: "Enquanto continua a recusar pronunciar-se sobre a discussão com a amante".

O Metro e o Daily Mirror também fazem do tema a manchete e com títulos semelhantes, em alusão ao nome da namorada. O primeiro com "Keep calm and Carrie on", um trocadilho com a famosa frase a apelar à calma e à perseverança dos britânicos durante a Segunda Guerra, e o segundo com "What a Carrie on", algo como "Que espetáculo".

Mesmo o Daily Telegraph -- no qual Boris Johnson escreve uma coluna semanal que lhe rende mais de 25 mil euros mensais - não se limitou a transmitir a imagem. Se o título da manchete é "Boris tenta manter a campanha em andamento", o título que acompanha a fotografia é "A imagem vale mil palavras, mas levanta muitas mais perguntas".

Uma delas é sobre a data da fotografia. A questão foi de pronto trazida a público nas redes sociais, até porque o corte de cabelo não condiz com o atual. Mas Boris Johnson, alegando que não quer arrastar os "entes queridos" para o domínio público, continua a não responder às perguntas dos jornalistas, apesar de nas últimas horas ter dado várias entrevistas.

Debaixo de fogo

À LBC, o antigo autarca de Londres recusou responder sobre a data da fotografia 26 vezes. "Não tenho o poder de decidir o que vem nos jornais", repetiu, à insistência de Nick Ferrari. Acabou por aceder que sabia da existência da fotografia, mas disse não saber quando foi tirada. "É um segredo de Estado?", perguntou o entrevistador. "Não é um segredo de Estado mas não é algo de que queira falar", disse Johnson enquanto se remexia na cadeira e não escondia o desagrado, tendo sugerido que também não sabia quando tinha ido pela última vez cortar o cabelo.

Sem surpresa, a fotografia foi alvo de crítica nas redes sociais, porque ao mostrar uma imagem da sua vida privada, ainda que encenada, está em contradição com a defesa da privacidade dos seus próximos. Foi também alvo de humor, com as mais variadas montagens a colocarem na imagem pessoas tão diversas como o ditador Kim Jong-un, o populista Steve Bannon, o homem que todos os dias protesta em Westminster contra o Brexit, ou o candidato derrotado e ministro do Desenvolvimento Internacional, Rory Stewart, que reagiu com fair-play a uma montagem com a sua imagem.

Noutra fotomontagem, Boris Johnson tem um ataque de raiva e parte a mesa.

Autocarros de cartão

Numa entrevista à Talk Radio Boris Johnson é questionado se fica zangado com facilidade. "Sou uma pessoa bastante equilibrada. Eu não me irrito facilmente", respondeu. Mas o tema com mais repercussão da entrevista foi sobre o que faz para se descontrair. "Gosto de pintar, faço coisas" começou por dizer, para depois revelar que faz modelos de autocarros em cartão e que pinta "passageiros a divertirem-se". "Ótimo", respondeu o jornalista.

Boris Johnson iniciou a ronda de entrevistas na BBC. Reafirmou que o Reino Unido sairá no dia 31 de outubro da UE, com ou sem acordo, embora admita que precisaria da cooperação europeia para evitar uma fronteira irlandesa ou taxas aduaneiras devastadoras. "Não depende apenas de nós."

Quanto ao cheque a endossar a Bruxelas de 39 mil milhões de libras, comentou: "Acho que deveria haver uma ambiguidade criativa sobre quando e como isso será pago."

Aptidão de Boris para PM em discussão

A discussão de Boris Johnson com a namorada não tem qualquer influência para mais de metade dos britânicos. Numa sondagem da Sky Data para a Sky News, 51% crê que as notícias sobre a altercação não são relevantes quanto à sua aptidão para primeiro-ministro. Opinião contrária tem 39% dos inquiridos.

Um dos britânicos que levantaram a voz contra o comportamento de Boris Johnson é John Griffin, um dos principais doadores do Partido Conservador. "Precisamos de saber se podemos confiar nele, porque vai receber ainda mais atenção das mulheres se se tornar primeiro-ministro. Eu ficaria preocupado se ele andasse a vadiar por aí, aproveitando-se da posição que ocupa junto das mulheres. Não seria de todo correto", disse Griffin ao Daily Mail.

Para Griffin também seria importante se Boris Johnson clarificasse em público quanto filhos tem. Soube-se há pouco que o ex-mayor reconheceu dois filhos de casos extraconjugais. "Cada uma das suas crianças necessitam do seu amor e atenção. Mas ele precisa de mostrá-lo. Não pode dizer que é irrelevante. É extremamente relevante. É uma das formas de avaliar uma pessoa", disse o milionário.

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?