Embaixador turco: "não se pode combater terroristas com outros terroristas"

Embaixador da Turquia em Portugal explica ao DN as razões que levaram as forças armadas do seu país a desencadearem a Operação Ramo de Oliveira em solo sírio para neutralizar o que designa como a "ameaça" de grupos terroristas.

O diplomata de Ancara garante que milícias sírias curdas são aliadas e atuam em sintonia com os independentistas do PKK, que pretendem criar um Estado curdo em território turco. Afirma que é um erro dos EUA pensar que se pode combater grupos islamitas, recorrendo a entidades como aquelas milícias curdas.

Quais os objetivos que se propõe concretizar a Operação Ramo de Oliveira, que visa as milícias curdas das Unidades de Proteção do Povo (YPG, em curdo), o braço armado do Partido da União Democrática (PYD), que Ancara considera o ramo sírio do PKK?

A operação não é dirigida contra os curdos, contra qualquer grupo étnico ou religioso. As autoridades do meu país têm dito, repetidas vezes, isto mesmo. No entanto, lamentavelmente, em certos círculos insiste-se no argumento de que a Turquia está a atacar as populações curdas. O que não é verdade. Esta é uma operação contra os grupos e elementos terroristas do outro lado da fronteira, na Síria. Já em 2016, a Turquia viu-se forçada a operação semelhante em território sírio...

Contra o Estado Islâmico (EI)?

Contra os terroristas. E o que se constata agora é que os elementos terroristas continuam ativos nas mesmas regiões devido à ausência de um efetivo controlo governamental da Síria. Esta é aquilo que podemos chamar uma terra de ninguém no que respeita à autoridade do Estado, onde o EI, o PKK e o PYD/YPG estão ativos. E recordo que o PKK está na lista dos grupos terroristas da União Europeia e, quanto ao PYD/YPG, creio que muitos estão agora a reconhecer a ligação que estes mantêm com o primeiro grupo. Para nós, são a mesma coisa.

Como uma mesma organização?

No momento da conquista de Raqqa há fotografias de elementos do YPG a fazerem saudação diante do retrato de [Abdullah] Öcalan [o líder do PKK].

Voltando aos objetivos da operação...

Não sou o responsável pelo planeamento da operação, mas o que posso dizer é que o objetivo último é libertar as nossas fronteiras de todos os elementos terroristas, que continuam a realizar ou a tentarem realizar ataques em solo turco e causando vítimas civis. Não há país algum que possa tolerar uma situação destas.

A questão das vítimas civis é uma das críticas dirigida ao desenrolar da Ramo de Oliveira...

Posso assegurar que tudo está a ser feito para as evitar. O que está a ser atacado são depósitos de munições, túneis, centros de comando e outros alvos de valor militar. Foram tomadas todas as precauções para evitar baixas civis ou a destruição de edifícios ou estruturas não militares.

Mas combater as milícias curdas sírias, que estão contra Damasco e o EI, não é uma forma de reforçar Bashar al-Assad e os islamitas?

Os islamitas estão praticamente derrotados na área em causa. A questão é que os EUA continuam a fornecer armas e equipamentos ao PYD/YPG, mesmo após a derrota do EI, ainda que o presidente Trump tenha afirmado ao presidente Erdogan que esse apoio iria cessar.

Sobre a situação no terreno, o general Joseph Votel, responsável pelo Comando Central dos EUA, disse no domingo que as unidades especiais americanas em Manbij não têm qualquer intenção de se retirar, mesmo se as forças turcas avançarem na região. Isto mostra que há perspetivas distintas em Washington e em Ancara sobre o que está a suceder.

Tem havido declarações contraditórias de responsáveis americanos. Um dia, temos o Comando Central a dizer isso, noutro dia, um porta-voz do Pentágono diz algo diferente e, inclusive, houve esta declaração sobre a criação de uma "guarda fronteiriça" de 30 mil elementos, posteriormente desmentida pelo secretário de Estado Rex Tillerson. E como é possível patrocinar a criação de uma "guarda fronteiriça" na fronteira com a Turquia, que é membro da NATO, quando do outro lado é território sírio e não existe um Estado curdo? Quem vai proteger o quê de quem?

As declarações do general Votel deixam no ar várias incógnitas, inclusive, sugerem uma situação em que as relações EUA-Turquia podem tornar-se mais tensas?

Sem dúvida. É nossa intenção não antagonizar os nossos aliados na NATO e esperamos o mesmo dos nossos amigos americanos. Sei que há contactos constantes ao mais alto nível, incluindo entre chefias militares. Esperamos que os EUA entendam que esta é uma questão de segurança nacional vital para nós e que não se pode combater terroristas com outros terroristas.

Está a dizer que se o PYD/YPG tivesse controlo da área em que decorre a Ramo de Oliveira, esta tornar-se-ia uma retaguarda segura para o PKK?

Para nós, são a mesma entidade, como já disse. Esta é a divergência entre nós e os EUA, ainda que haja responsáveis oficiais que subscrevem a nossa posição. O PYD/YPG não representam os curdos sírios, representam o PKK.

Há um alinhamento estratégico entre ambos?

Basta ler os estatutos. Num dos artigos está escrito que ser membro do PYD/ /YPG implica lealdade a Öcalan.

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