Eleições à americana. Votar à terça e às vezes até eleger o perdedor

Sucessor de Obama será o 45.º presidente dos Estados Unidos, seja Hillary ou Trump, Sanders ou Cruz, mas na verdade só 43 homens (e nenhuma mulher) ocuparam até hoje o cargo

Do fundador George Washington a Barack Obama, quantos presidentes teve a América?

São 43 presidentes em pouco mais de dois séculos, mas como Grover Cleveland foi presidente duas vezes, ou seja mandatos não consecutivos, conta por dois, razão por que Obama é considerado o 44.º presidente e o sucessor, eleito a 8 de novembro, será o 45.º.

8 de novembro? É verdade que as presidenciais são sempre no início desse mês?

Sim, e até existe uma regra curiosa: as eleições acontecem sempre na primeira terça-feira a seguir à primeira segunda-feira de novembro. Na prática, significa que a ida às urnas será entre dia 2 e dia 8. O dia 1 é evitado por complicadas razões de calendário processual, mas a explicação costuma ser a necessidade de evitar o voto no Dia de Todos-os-Santos. Já ser sempre a uma terça-feira tem raízes na sociedade agrária que eram os Estados Unidos nos primórdios, calhando não ser dia nem de ir à igreja nem de mercado.

Então essa terça-feira eleitoral é dia feriado?

Não, não é, apesar de haver quem defenda que sim. Mas é um dia de trabalho normal, sendo que se pode votar por antecipação.

É elevada a taxa de abstenção nas presidenciais americanas?

Tradicionalmente sim, mas desde 1996, quando atingiu o recorde de 49%, nota-se uma inflexão. Nas últimas presidenciais, as de 2012 que opuseram o democrata Obama ao republicano Mitt Romney, a abstenção foi de 43%. Ora isso significa que os Estados Unidos estão em linha com a maioria das democracias onde não existe voto obrigatório. Por exemplo, nas recentes presidenciais portuguesas a abstenção rondou 51%.

Costuma dizer-se também que quanto mais dinheiro um candidato americano angaria para a campanha mais hipóteses tem de vencer. Isso é verdade?

É uma simplificação da realidade. Olhemos para os candidatos deste ano, que à partida eram 16 no campo republicano e três no democrata. Os quatro campeões em termos de recolha de apoios monetários foram Hillary Clinton, Jeb Bush, Ted Cruz e Bernie Sanders. Ora, o número dois desta lista fez fraca figura nas primárias e já desistiu da corrida.

Donald Trump, o favorito no campo republicano, não se destaca como angariador de fundos?

Não, mas como tem uma fortuna pessoal de vários milhares de milhões de dólares isso acaba por ser pouco significativo. Se precisar de mais anúncios na TV passa um cheque.

Então, ser magnata é meio caminho andado para a Casa Branca?

Exagero. Os historiadores calculam que o homem mais rico que foi presidente tenha sido Washington, mas isso passa por avaliar as suas terras a preços atuais. Se ser milionário garantisse a presidência, o independente Ross Perot não teria ficado em terceiro, tanto nas eleições de 1992 como nas de 1996.

Quantos votos obteve?

Conseguiu 19% primeiro e 8% depois, entrando para a lista dos mais bem-sucedidos terceiros candidatos.

Porque se fala de terceiros candidatos?

Porque há mais de século e meio que todos os presidentes saem dos partidos democrata ou republicano. E são raros os casos em que uma figura de outro partido se destaca, como aconteceu a Perot, que muitos acusam de em 1992 ter tirado votos ao presidente George Bush, impedindo a sua reeleição e favorecendo Bill Clinton. Os casos mais célebres de terceiro candidato no século XX foram Theodore Roosevelt em 1912, um ex-presidente republicano que quis regressar e não foi apoiado pelo partido, Robert La Folette em 1924, um progressista que obteve 17% , e Strom Thurmond em 1948 e George Wallace em 1968, dois democratas dissidentes por causa do reconhecimento dos direitos civis aos negros.

Nestas eleições há candidatos além dos democratas e republicanos?

Sim, inúmeros, desde os libertários aos ecologistas, mas nenhum com condições para se destacar.

Mas chegou-se a falar de uma candidatura de Michael Bloomberg, antigo mayor de Nova Iorque, não foi?

Foi, mas Bloomberg já recuou. Em tempos foi republicano, mas cada vez se tem tornado mais moderado e a sua prioridade, se avançasse neste ano, era travar Trump. Acontece que chegou à conclusão de que mesmo com toda a sua fortuna a ajudá-lo, e é bem maior do que a de Trump, não só não ganharia como tirando votos a Hillary talvez até facilitasse a vitória do inimigo de estimação, um homem que quer fazer um muro com o México para travar a imigração, quer impedir os muçulmanos de entrarem nos Estados Unidos, critica a NATO e até prevê a saída do Reino Unido da União Europeia.

Trump vai mesmo ser o candidato republicano?

É o mais provável dadas as sucessivas vitórias nas primárias e neste momento é o único candidato à nomeação pelo Partido Republicano que pode chegar à convenção partidária em Cleveland, a 18-21 de julho, com a maioria absoluta de delegados. Mas se não ganhar as primárias na Califórnia arrisca-se a ver tudo posto em causa, com a máquina do partido a favorecer Ted Cruz, um senador conservador do Texas que juntamente com o liberal John Kasich, governador do Ohio, são os outros que se mantêm na corrida.

Como está a correlação de forças democrata?

Hillary, a favorita, está cada vez mais perto de garantir a nomeação em Filadélfia, a 25-28 de julho, mas Sanders tem sido a surpresa, ganhando várias primárias .

Sanders diz ser socialista. Não costuma ser uma etiqueta que assusta os americanos?

Noutros tempos sim, mas nestas primárias não. O senador do Vermont, que costumava ser independente apesar de votar sempre com a bancada democrata, inspira-se na social--democracia europeia e tem atraído muitos jovens. Mas se fosse o candidato democrata teria muita dificuldade em ganhar o centro e chegar à Casa Branca.

Há alguma hipótese de Trump concorrer sozinho se o partido o vetar?

Sim, e Trump tem deixado essa ameaça. Se tal acontecesse, seriam umas presidenciais extraordinárias, talvez com três candidatos a ganhar estados, logo também grandes eleitores, e a tornar possível um presidente que não tivesse a maioria do voto popular.

Isso é possível?

Não só é possível como já aconteceu. No século XIX sucedeu três vezes e em 2000 voltou a acontecer e nem sequer por ter sido uma corrida a três. O vice-presidente Al Gore obteve mais votos populares, mas a forma como foram distribuídos pelos 50 estados deram-lhe menos grandes eleitores do que a George W. Bush. Pode parecer injusto, mas é a regra, e o sistema favorece a influência dos pequenos estados. Assim ganhar por um voto ou um milhão na Califórnia é indiferente, mas ganhar ou perder no Iowa por um voto pode fazer a diferença. Essa é a razão por que os candidatos não centram a campanha só na Califórnia, no Texas ou em Nova Iorque.

O que é um swing state?

O chamado "estado oscilante" é aquele que exibe uma tradição de equilíbrio de voto entre democratas e republicanos, podendo decidir o novo presidente. O Ohio e a Florida são bons exemplos. E em 2000 se Gore tivesse ganho na Florida teria chegado à Casa Branca, por isso a insistência na recontagem dos votos em West Palm Beach.

E o voto das minorias?

Os democratas são os campeões das minorias e ainda bem antes de terem candidatado Obama, o primeiro presidente negro. Em regra, nove em cada dez negros votam democrata. Os asiáticos e os hispânicos também preferem os democratas, o que significa que com a evolução demográfica dos Estados Unidos as perspetivas do Partido Republicano são sombrias.

Obama foi em 2008 o primeiro presidente negro. John Kennedy foi em 1960 o primeiro católico. Que novidade pode sair destas eleições nessa matéria?

Se Hillary chegar à Casa Branca será a primeira mulher. Se for Sanders será o primeiro judeu. E se for Cruz, o primeiro hispânico.

Quando um candidato obtém a designação presidencial pelo partido como costuma escolher o parceiro de candidatura, o futuro vice?

Durante muitas décadas a regra foi a opção por alguém de outra zona do país e de outra geração, como fez Kennedy, do Massachusetts, ao escolher Lyndon Johnson, um texano. Mas Bill Clinton em 1992 escolheu Gore e os dois vinham de estados vizinhos (Arkansas e Tennessee) e até tinham idades próximas, pelo que a velha lógica de complementaridade foi quebrada. Mas imaginemos que Trump era a escolha republicana: um vice-presidente Cruz não só podia unir o partido como favorecer a candidatura, juntando um nova-iorquino com um texano. Mas haverá outras fórmulas. Por exemplo, Obama em 2008 não optou por Hillary, rival partidária derrotada nas primárias, mas escolheu-a para chefe da diplomacia.

Governa mesmo o presidente ou é só um chefe de Estado simbólico?

Manda mesmo. O presidente detém o poder executivo e a sua Administração corresponde ao governo, com os secretários a ser o equivalente aos ministros (assim, secretário de Estado é o ministro dos Negócios Estrangeiros). Não há sequer a figura do primeiro-ministro, como acontece em França, onde o sistema é presidencialista. Ao poder nomear juízes para o Supremo Tribunal, o presidente também molda o país, pois o cargo é vitalício e é a esse órgão que compete interpretar a Constituição, a mais antiga em vigor no mundo.

Como é a relação com o Congresso?

Obama teve neste segundo mandato de lidar com um Congresso claramente hostil, pois desde as últimas eleições intercalares em 2014 os republicanos dominam tanto a Câmara dos Representantes como o Senado. Ora, quando é o partido rival que controla o poder legislativo, o desafio do presidente é construir maiorias que ultrapassem a divisão esquerda/direita. Cada vez é mais difícil, pois os partidos têm perdido as alas moderadas, sobretudo os republicanos, hoje muito conservadores.

O presidente pode dissolver o Congresso?

Não, mas o Congresso pode destituir o presidente. Tentou com Clinton, por causa de obstrução à justiça no escândalo Lewinsky. Em 1974 estava a caminho de destituir Nixon, por causa do Watergate, mas o presidente antecipou-se, demitindo-se.

Obama, se quisesse, poderia candidatar-se a um terceiro mandato?

Não podia. A 22.ª emenda constitucional, de 1951, proíbe-o. George Washington tinha cumprido apenas dois mandatos, criando uma tradição não inscrita na Constituição, mas Franklin Roosevelt, com o pretexto da Segunda Guerra Mundial, foi eleito quatro vezes. Para que não se voltasse a repetir, a lei fundamental foi revista. Assim, seja ele ou ela quem for, Obama terá um sucessor(a) a tomar posse a 20 de janeiro.

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