"É justo dizer que Boris é o Pep Guardiola da política britânica"

Ministro Michael Gove, N.º 2 do governo britânico, dominado por brexiteers radicais, afirmou hoje em entrevista à rádio LBC que o primeiro-ministro, Boris Johnson, "é um vencedor nato"

Boris Johnson perdeu seis votações na câmara dos Comuns desde que chegou a primeiro-ministro do Reino Unido, ficou sem maioria de deputados - embora esta já não fosse maioria absoluta - perdeu mais de duas dezenas de deputados conservadores que se rebelaram contra si e viu 11 juízes do Supremo Tribunal decidirem - por unanimidade - que o pedido que fez à Rainha Isabel II, no sentido de suspender o Parlamento, é ilegal. Apesar de tudo isso, o ministro Michael Gove, uma espécie de N.º 2 do governo britânico, dominado por brexiteers radicais, considera que ele é um vencedor nato.

Numa entrevista à rádio LBC, esta quarta-feira, Gove foi questionado pelo jornalista Nick Ferrari sobre qual dos dois derrotados vai ter um fim mais rápido, Boris Johnson, o primeiro-ministro, ou o Tottenham Hotspur, o clube de futebol. "O primeiro-ministro é um vencedor nato", respondeu o ministro, ao que o jornalista perguntou se estava a falar a sério. "Um vencedor nato, sim. Ele foi presidente da Câmara de Londres duas vezes, derrotou Ken Livingstone duas vezes", disse, referindo-se às vitórias do líder conservador sobre o ex-autarca do trabalhista na capital britânica.

Quando o jornalista lhe disse que devia estar a falar então era da equipa que os Spurs tiveram na década de 1960, Gove respondeu que "é justo dizer que Boris é o Pep Guardiola da política britânica", numa referência ao treinador catalão do Manchester City, que, este ano, venceu a Premier League, a Taça da Liga inglesa, a Taça de Inglaterra e a Community Shield (Super-Taça de Inglaterra).

Gove falou esta tarde na câmara dos Comuns, que retomou os seus trabalhos, depois de na véspera o Supremo Tribunal britânico ter considerado ilegal a suspensão do Parlamento pedida por Boris Johnson à Rainha Isabel II. O ministro, que interveio antes de Boris Johnson, regressado à pressa de Nova Iorque, depois de participar na Assembleia Geral da ONU, disse aos deputados que tem "havido movimentações significativas nestas semanas" no que toca às negociações entre Londres e a UE27 sobre o backstop, controverso ponto do acordo do Brexit, destinado a evitar o regresso de uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda depois de o Reino Unido sair da UE.

O ministro, que também esteve no governo de Theresa May, a antecessora de Boris no N.º 10 de Downing Street, garantiu que se antes a UE dizia que o acordo de retirado não podia ser alterado agora está aberta a emendá-lo, que antes dizia que o backstop era inviolável mas que agora os seus líderes dizem que não têm qualquer ligação emocional a ele. Gove garantiu ainda que, como mostraram os documentos da chamada Operação Yellowhammer, o governo está preparado para os piores cenários no que toca ao Brexit. Isto numa altura em que Boris continua a admitir um No Deal Brexit a 31 de outubro. Apesar de, antes da suspensão do Parlamento, ter sido aprovada uma lei para tentar travar um acordo sem saída, forçando o governo a pedir, se preciso for, uma nova extensão do Artigo 50.º à UE27.

Segundo o procurador-geral, Geoffrey Cox, que está a ser criticado por ter dado aval à suspensão do Parlamento, o governo indicou que irá respeitar o que está contido no chamado Benn Act. Segundo o jornalista Robert Peston da ITV News, o chefe do governo e líder do Partido Conservador pode escrever à UE27 uma carta a pedir uma extensão do Artigo 50.º, sim, mas logo ao mesmo tempo uma outra carta a pedir para que se ignore o conteúdo da primeira. Assim sendo, Boris Johnson não poderia ser acusado de não cumprir o que está contido na lei e, em simultâneo, levaria a sua avante. No passado, o primeiro-ministro afirmou que preferia aparecer morto numa vala do que pedir um novo adiamento do Brexit (seria o terceiro).

Na semana passada, depois de um ultimato lançado pela presidência finlandesa do Conselho da UE e o presidente francês, o governo de Boris Johnson enviou à Comissão Europeia três propostas sobre alternativas ao backstop, com a condição de que Bruxelas não as partilhasse, como é habitual, com os representantes dos governos da UE27. Questionado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sombra, o trabalhista Keir Starmer, sobre se é verdade que o governo enviou esta quarta-feira uma quarta proposta à Comissão, Michael Gove foi vago, não respondendo diretamente à questão.

Em simultâneo, na câmara dos Lordes, que também retomou hoje os seus trabalhos, Lord Callanan, secretário de Estado para a saída do Reino Unido da UE, também repetiu que "o governo irá respeitar a lei", mas recusou dizer se o Executivo vai ou não tentar fintar o Benn Act através do enviou de uma segunda carta a contradizer a primeira.

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