Dos 26 réus do Mensalão só um continua na prisão

Quatro anos após a sentença do Supremo Tribunal, só o operador do esquema continua detido. Na quinta-feira, um bancário que fugira do país passou a estar em liberdade condicional

"O que eu vou fazer agora? Sorrir para vocês e ir para casa abraçar a minha mulher", afirmou Henrique Pizzolato aos jornalistas no instante em que saiu, sorridente e aliviado, da prisão da Papuda, em Brasília. O antigo diretor de marketing do Banco do Brasil era um dos 26 condenados do escândalo do Mensalão ainda na prisão. Quatro anos e um mês após a leitura da sentença do Supremo Tribunal Federal (STF), resta apenas Marcos Valério, operador do escândalo, atrás das grades.

Pizzolato foi solto por ordem de um dos juízes do STF, Luiz Roberto Barroso, por já ter cumprido um terço da pena de 12 anos e sete meses a que havia sido condenado em 2013, na sequência do maior julgamento da história dos tribunais brasileiros, por corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. O bancário, à partida uma figura secundária de um caso que mandou para a cadeia três destacados quadros do Partido dos Trabalhadores (PT), então no poder, e dirigentes de outros partidos da base aliada do governo de Lula da Silva e de Dilma Rousseff, tornou-se famoso por ter escapado.

No dia em que a polícia levou para a prisão todos os condenados, em novembro de 2013, notou a falta de um - Pizzolato. O condenado havia fugido uma semana antes para Itália, via Paraguai, Argentina e Espanha, isto apesar de o seu passaporte estar nas mãos das autoridades, servindo-se dos documentos de um seu irmão falecido com dupla nacionalidade brasileira e italiana. Escondido em Maranello, cidade-sede da construtora de automóveis Ferrari, foi descoberto meses depois mas extraditado só em setembro de 2015.

Além de o conseguir fazer sair já, o advogado de Pizzolato tentou ainda que o seu cliente ficasse ilibado de pagar multa de dois milhões de reais (cerca de 530 mil euros) beneficiando-se de um indulto de Natal decretado nos últimos dias pelo presidente Michel Temer. A suspensão de parte desse decreto pela juíza presidente do STF Carmen Lúcia, porém, estragou os planos da defesa do bancário. Nos termos do acordo de liberdade condicional, o antigo diretor do Banco do Brasil tem ainda de se apresentar de dois em dois meses na prisão, não se pode afastar de Brasília sem autorização judicial nem mudar de residência. Deve ainda recolher a casa diariamente às 22 horas.

Além de Pizzolato, estão já fora da prisão Valdemar Costa Neto, homem forte do Partido Republicano, e Roberto Jefferson, presidente do Partido Trabalhista Brasileiro, e um dos principais delatores do Mensalão. Também os mais altos dirigentes do PT condenados, como o presidente e o tesoureiro do partido à época do escândalo, José Genoíno e Delúbio Soares, e o ministro da Casa Civil, José Dirceu, já foram soltos. Dirceu, porém, como foi condenado na Operação Lava-Jato, usa pulseira eletrónica e não pode ausentar-se de Brasília, cidade onde mora.

Compra de deputados

O Mensalão foi um esquema de compra de deputados para votar nos projetos do governo com dinheiro de bancos públicos levado a cabo em 2005 e 2006, ou seja, durante o primeiro dos dois governos de Lula. Foram punidos membros do PT, como Dirceu, assim como dirigentes dos partidos corrompidos, como Jefferson, e funcionários do Banco do Brasil, como Pizzolato. O criador do esquema, de acordo com o STF, foi Marcos Valério, um publicitário condenado a 37 anos e cinco meses e ainda a cumprir pena em Belo Horizonte. No julgamento, que apaixonou o país ao longo de meses por ser transmitido em direto, o juiz relator do processo, Joaquim Barbosa, ganhou forte popularidade, ao ponto de hoje ser considerado presidenciável nas eleições de 2018.

Exclusivos

Premium

EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.