Dois anos e sete desafios à espera do Brasil de Temer

Na agenda, recuperar investimento, baixar desemprego, gerir base de apoio, reforma ministerial, escapar à Lava-Jato e enfrentar a rua

Não durou 100 minutos o estado de graça do presidente Michel Temer. Uma hora depois de o juiz Ricardo Lewandowski anunciar ao país a perda de mandato da sua antecessora e ex-colega de governo Dilma Rousseff, já Aécio Neves, líder do seu maior parceiro de coligação, ameaçava romper. Minutos depois, a própria Dilma proferia o mais duro discurso contra o sucessor em um ano de conflito. Nas ruas, confrontos entre polícia e manifestantes anti-impeachment. Na bolsa, nada de especialmente promissor, por enquanto, nos mercados. Temer tem dois anos para converter sete pecados do país em sete virtudes.

A área económica é tão destacadamente a mais importante que o constitucionalista de 76 anos do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB) decidiu partir ainda na quarta-feira para a reunião do G20 na China, onde se encontrará com Xi Jinping, líder de uma economia vital para o Brasil, e participará de outras reuniões com autoridades financeiras locais. "A nossa missão é mostrar a empresários e a investidores de todo o mundo a nossa disposição para proporcionar bons negócios que vão trazer empregos ao Brasil", disse Temer, em comunicação ao país gravada antes de partir às pressas para o aeroporto. O governo quer anunciar ainda em setembro um pacote de concessões e privatizações nos setores do petróleo, da infraestrutura, do saneamento, da energia e da mobilidade urbana e precisa de interessados. Outra frente de batalha económica, relacionada com a anterior, são os 12 milhões de desempregados - mais do que a população portuguesa - sem perspetivas.

Em paralelo, Temer, que herdou a maior parte da base de apoio de Dilma, do Partido dos Trabalhadores (PT), no pântano de quase 30 partidos com assento parlamentar, e ainda a aumentou, com a inclusão de forças mais à direita, terá de fazer aprovar o teto de gastos para educação e saúde, a renegociação de dívidas do estado para com o governo federal e a reforma na segurança social. Impopulares, as três medidas devem enfrentar resistências de congressistas pressionados pelas suas bases eleitorais. "Mas sem reforma na previdência, em poucos anos o governo não terá como pagar aos reformados", alertou Temer na quarta-feira.

Ainda na política, a relação com o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) já começou tensa. Aécio irritou-se com o facto de parte dos senadores do PMDB terem votado contra a perda de inelegibilidade de Dilma e ameaçou romper a aliança. "Houve uma divisão inadmissível, quem não quiser que o governo dê certo, declare-se contra o governo e saia", repreendeu Temer. Além disso, o PSDB tem três presidenciáveis - o próprio Aécio, o ministro dos Negócios Estrangeiros José Serra e o governador de São Paulo Geraldo Alckmin - com uma agenda não necessariamente igual à do PMDB. Para gerir o clima de guerrilha, Temer prevê já uma reforma ministerial - com mais ou menos peso do PSDB no governo, fica ao seu critério.

Em paralelo, Temer, que viverá dois anos sob o ónus de não ter a legitimidade do voto, vai debater-se com um PT na oposição - onde normalmente é mais feroz e coeso. E o fantasma de Dilma e a ressurreição do popular Lula da Silva a gritarem "golpe" a cada aparição pública.

Sobram o Tribunal Eleitoral, que ainda investiga as contas da dupla presidencial Dilma-Temer, e a Lava-Jato, que já derrubou três dos seus ministros interinos, ameaça 10 dos 61 senadores que votaram pelo impeachment e promete continuar a fazer vítimas no PMDB, o partido que está, até esta semana apenas como eminência parda, há mais anos no poder no Brasil.

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