Do antigo imperador japonês Hirohito nasceu a mais pequena família imperial

O Japão festeja esta terça-feira o início de uma nova era, mas a sucessão familiar das próximas continua uma preocupação. Uma vez que as mulheres, em maioria na atual família imperial, não podem ascender ao trono, o futuro da monarquia hereditária mais antiga do mundo está condicionado

Naruhito torna-se o novo imperador do Japão a partir desta quarta-feira e dá continuidade à monarquia hereditária mais antiga do mundo, mas as condições legais para a subida ao trono fazem das próximas sucessões uma incógnita.

A família imperial do Japão é a mais pequena de que há registo e deverá diminuir ainda mais nos próximos anos. Entre o antigo imperador Hirohito (que morreu em 1989) e o último possível sucessor ao trono, há apenas 14 membros de linha direta na família, entre as quais oito são mulheres - e não legíveis a ascenderem, pois a lei não permite que o género feminino suba a este cargo. Só os homens podem sonhar sequer ascender, mas na linha abaixo de Naruhito está apenas um rapaz, o pequeno Hisahito, de 12 anos, filho do seu irmão mais velho.

São várias as restrições às mulheres na sociedade japonesa. Aliás, a nova imperatriz, Masako, esposa de 26 anos de Naruhito, não teve permissão para comparecer na cerimónia desta terça-feira. De acordo com a Lei da Casa Imperial, que governa a linha de sucessão, bem como a maioria das questões de protocolo relacionadas à monarquia do Japão, não é permitido as mulheres da família real assistirem ao momento em que o novo imperador recebe a regalia sagrada, que representa a legítima sucessão.

Ao nível monárquico, a questão adensa-se. Há já várias mulheres que deixaram de fazer parte da família imperial por terem escolhido cumprir matrimónio com qualquer cidadão fora da realeza. A filha de Akihito, por exemplo, perdeu o seu estatuto imperial depois de se casar com um funcionário do governo local. Saindo oficialmente da família real, nenhum dos seus filhos pode estar na linha do trono. E a saída de membros nesta família não só reduz possíveis herdeiros ao trono como o número de pessoas disponíveis para a representarem em visitas oficiais pelo Japão e pelo mundo.

Com os homens, o mesmo não acontece. Aliás, o imperador Akihito (que esta terça-feira renunciou ao cargo) foi o primeiro a casar com uma plebeia, aquela que viria a ser a imperatriz Michiko. Uma história de amor que começou há cerca de 60 anos num torneio de ténis ao qual ambos estavam a assistir. Dois anos depois estavam casados e Michiko fez mesmo parte de muitas das mudanças implementadas por Akihito na monarquia japonesa. Desde a decisão de escolher criar os filhos eles mesmo em vez de os deixarem ao cuidado dos funcionários que estão ao serviço da família imperial, rompendo com a tradição, até se terem envolvido de forma muito próxima com a população e os seus problemas.

A verdade é que os limites impostos sobre as mulheres deixaram a família imperial japonesa sem grandes opções para futuros herdeiros. Depois de Naruhito assumir o trono, a linha de sucessão inclui apenas três homens: o seu tio, o príncipe Hitachi, de 83; o irmão mais novo de Naruhito, o príncipe Akishino, 53; e o filho de Akishino, príncipe Hisahito, atualmente com 12 anos. E depois dele? Até agora, não resta ninguém. O atual imperador e a sua esposa, Masako, têm uma filha, a princesa Aiko, de 17 anos, mas que não será legível para o trono, visto ser mulher.

Aos 59 anos, embora herdeiro desde os 28, Naruhito ascende ao Trono do Crisântemo, tornando-se o 126º imperador japonês. O historiador de formação, é o primeiro a estudar no exterior. Substitui o pai, Akihito, que decidiu abdicar do trono ao final de 30 anos, por questões de saúde. Foi o primeiro monarca japonês a abandonar voluntariamente o trono desde 1817.

O Japão assiste agora ao fim da era imperial de "Heisei" (conclusão da paz) e ao início do reinado de Reiwa (Bela harmonia - segunda a tradução oficial portuguesa da embaixada do Japão). Apesar da figura de imperador não ter qualquer poder político no Japão, é um símbolo nacional, naquela que é a monarquia hereditária mais antiga do mundo.