Diplomacia no feminino

Dos 77 embaixadores residentes em Portugal, só 21 são do sexo feminino. Das 80 embaixadas portuguesas no estrangeiro, só 13 são lideradas por mulheres.

"Diplomacia" é um substantivo feminino, mas o número de mulheres que representam os seus países no exterior é muito inferior ao de homens. Dos 77 embaixadores residentes em Portugal, só 21 são do sexo feminino. Fazem parte da Associação de Mulheres Embaixadoras (AWA, na sigla em inglês), criada em 2015 para promover o interesse das jovens na carreira diplomática, cujas portas só foram abertas em Portugal a partir do 25 de Abril de 1974. Das 80 embaixadas portuguesas no estrangeiro, só 13 são lideradas por mulheres.

"Do ponto de vista da diplomacia não há diferenças entre homens e mulheres, porque todos temos as mesmas capacidades, a mesma formação", conta ao DN a embaixadora da Colômbia em Lisboa, Carmenza Jaramillo, presidente da AWA desde 2017. "Mas do ponto de vista familiar é muito mais fácil para um homem diplomata do que para uma mulher", acrescenta, falando da necessidade de conjugar a sua carreira com a do marido e de pensar nos filhos quando chega a oportunidade de representar o país no exterior.

A AWA, apoiada pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, organizou a sua primeira conferência em outubro de 2016, precisamente sobre "Mulheres na Diplomacia". No ano passado, em julho, o tema foi "Mulheres na Liderança". A próxima conferência já está marcada para 30 de maio, na Universidade Nova de Lisboa. Será dedicada à transformação digital e como esta ajudou ou pode ajudar as mulheres em todo o mundo.

Apesar de o número de mulheres diplomatas ainda ser inferior ao de homens na mesma profissão, não é preciso ser mulher para promover uma política externa feminista. O conceito foi introduzido em outubro de 2014 pela ministra dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Margot Wallström - uma de 31 mulheres à frente da diplomacia (num total de 195 países). Uma política externa feminista significa, por exemplo, lançar esforços para educar as mulheres na Arábia Saudita e no Irão para aumentar o seu poder económico, trabalhar para acabar com a mutilação genital feminina ou financiar projetos na área da saúde sexual e reprodutiva.

Antes de chegar a Portugal, Carmenza Jaramillo foi embaixadora da Colômbia na Índia e na China. "Nunca senti discriminação. Antes estive na China e é certo que lá os homens se sentem melhor com os homens, mas nunca me discriminaram", explica. "Eu represento um país e sou reconhecida como tal, não importa o facto de ser mulher", acrescenta. O único momento em que sentiu que era tratada de forma diferente foi quando, ainda na década de 1990, estava na Índia e viajou com uma delegação de outras embaixadoras junto à fronteira com o Paquistão. "Ali sim falavam connosco através de outro homem", conta. "Mas quando se deram conta de quem éramos, que representávamos outros países, isso mudou. Contra a vontade deles, certamente que sim, não queriam que isso acontecesse, mas respeitaram-nos", diz.

Portuguesas lá fora

Madalena Fischer é a embaixadora de Portugal no Cairo, uma das 13 mulheres que atualmente representam o nosso país lá fora. "Se olharmos, ainda somos poucas em relação ao conjunto [80 embaixadas], mas eu diria que seremos cada vez mais, porque há um crescendo de mulheres nos últimos anos a ascender ao topo da carreira. É uma questão de tempo", diz ao DN numa conversa telefónica.

Não é a primeira vez que está destacada num país muçulmano, já esteve no mais conservador Paquistão, mas conta que em nenhum momento sentiu dificuldades de contacto ou menor abertura por ser mulher. "Estes países também sabem distinguir muito bem as situações e antes de mais sou representante de um país, nós somos a cara de outro país, e é nesses termos que nos veem e foi sempre de uma forma muito profissional que me senti tratada", relata. "Acresce aqui que o facto de ser portuguesa suscita também um grande capital de simpatia", conta.

Falando numa sociedade multicultural que mostra "sinais positivos de abertura", apesar das discrepâncias ainda entre o ambiente urbano e o rural, a embaixadora Madalena Fischer acredita que é muito solicitada para falar nos media porque existe "uma grande vontade de dar mais atenção às mulheres e incentivá-las a participar mais no mercado de trabalho, a ter uma maior participação política". Atualmente há seis mulheres ministras no Egito e 90 deputadas. "Em termos políticos há vontade de dar um sinal de que o desenvolvimento do país tem que passar por uma maior participação das mulheres e das raparigas", refere.

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