Dilma volta a afirmar: "Este impeachment em concreto é golpe, sim!"

Presidente usa cerimónia como comício em país cada vez mais extremado. Após rutura do PMDB, PT oferece lugares no governo.

No dia seguinte à rutura do PMDB com o PT, a cerca de duas semanas do início da votação do impeachment da presidente e com a Operação Lava-Jato a funcionar como arma apontada à cabeça de meia Brasília, o país ferve. Ontem, uma cerimónia, como tantas outras, com a presença de Dilma Rousseff tornou-se um ato de apoio, com claque, aplausos, cânticos e palavras de ordem. "Este impeachment em concreto é golpe, sim!", disse a chefe de estado perante plateia em ebulição, após juízes do Supremo sublinharem nos últimos dias a constitucionalidade da figura do impeachment.

"É absolutamente má-fé dizer que todo o impeachment está correto. Não adianta fingir que estamos discutindo o impeachment em tese, estamos discutindo um impeachment muito concreto, este, onde não há crime de responsabilidade, e nesse caso o nome não é impeachment, é golpe", disse a presidente que continua com aprovação de apenas 10 % e rejeição de 69%, segundo sondagem do instituto Ibope efetuada no auge da crise da nomeação de Lula da Silva e das escutas divulgadas pelo juiz da Lava Jato Sérgio Moro, que terça-feira pediu desculpas por essa ação.

Ao fundo do discurso de Dilma, ouvia-se cânticos como "não vai ter golpe", "nesse país eu boto fé porque é governado por mulher", "pode chorar, a Dilma fica e o Lula vai voltar" e "golpistas e fascistas não passarão".

Para hoje estão previstas manifestações favoráveis ao governo, organizados por movimentos sociais, como o Movimento dos Sem Terra, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e centrais sindicais.

O "Muro da Vergonha"

Do lado da oposição, o "Vem Pra Rua", um dos grupos que organizou manifestações contra a presidente ao longo do último ano, vai afixar o "Muro da Vergonha" na Avenida Paulista, em São Paulo, com os nomes de todos os deputados que votarão contra o impeachment e os que ainda estão indecisos. A ideia de Rogério Chequer, líder do movimento, é fazer circular o muro por outras capitais do país, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

O "Movimento Brasil Livre", grupo semelhante ao "Vem Pra Rua", lançou entretanto cartazes com fotos das manifestações pro-impeachment e a frase "a gente não fez tudo isso para agora você ir lá e votar na Marina Silva em 2018", a propósito da ecologista que lidera sondagens para as próximas eleições.

E a FIESP, a federação de industriais paulistas que adotou o pato amarelo insuflável como símbolo anti-Dilma, colocou um exemplar gigantesco em frente ao Planalto que só retirará em caso de destituição da presidente.

Num ambiente cada vez mais áspero pelo país, foi ontem notícia também o caso da pediatra que se recusou a atender uma criança de ano e meio que acompanhava desde o nascimento porque a mãe é militante do PT, em Porto Alegre.

PP a leilão

No plano político, depois do PMDB, desta vez foi o Partido Progressista (PP), que tem 48 deputados, a reunir-se para discutir se continua ou abandona a coligação governamental liderada pelo PT. Do encontro não saíram conclusões, até porque o partido, que tal como o PMDB é assumidamente sem ideologia, prefere decidir-se mais perto da votação do impeachment quando os seus votos serão ainda mais cobiçados pelos blocos governista e oposicionista. Entretanto, a Folha de S. Paulo noticiou que o PT teria oferecido ao PP a pasta da Saúde, uma das que dispõe de maior orçamento e que está em mãos peemedebistas.

A escassas centenas de metros, a Comissão do Impeachment recebeu dois dos subscritores do pedido, os advogados Miguel Reale e Janaína Paschoal - o terceiro signatário é Hélio Bicudo, fundador do PT. Hoje será a vez dos defensores de Dilma serem ouvidos.

Entretanto, Michel Temer, vice-presidente e sucessor de Dilma em caso de impeachment, planeia viagens pelo país, sob o nome "caravana da vitória", supostamente para lançar as bases das candidaturas às municipais do fim do ano do PMDB mas que, segundo observadores, funcionará mais como espécie de campanha presidencial informal.

São Paulo

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