Dilma Rousseff: "No Brasil há um clima de quanto pior melhor"

Presidente discursou pela quinta vez numa semana. Número de deputados pró-impeachment sobe. Eduardo Cunha manobra para dificultar vida do governo na votação

Pela quinta vez numa semana, Dilma Rousseff discursou num evento público para defender o seu governo e atacar os promotores do impeachment. Desta vez no Rio de Janeiro, a propósito de uma cerimónia olímpica, a presidente criticou o "ambiente do quanto pior, melhor, criado por alguns", apelou "ao diálogo" e afirmou que "um país capaz de organizar uns Jogos Olímpicos também é capaz de voltar a crescer".

"Hoje no Brasil há um ambiente que eu não chamaria de mau humor mas sim de "quanto pior, melhor" que não interessa à estabilidade do país, se nós somos capazes de fazer uns Jogos Olímpicos (JO), somos também capazes de fazer este país voltar a crescer", disse, ao lado de Eduardo Paes, prefeito do Rio, ouvido em telefonema a Lula da Silva nas escutas da Lava-Jato a dizer que era "um soldado" do ex-presidente e considerado nome forte para as presidenciais de 2018 pelo PMDB.

O discurso foi efetuado no dia seguinte a notícias difíceis para o campo do PT: executivos da construtora Andrade Gutierrez disseram, em delação premiada, que a campanha da presidente (e por consequência do vice-presidente Michel Temer, do PMDB) foi irrigada com dinheiro proveniente de negócios ilícitos com a Petrobras, numa fuga de informação da Operação Lava-Jato que fez a manchete do jornal Folha de S. Paulo.

"Estas fugas de informação são premeditadas", afirmou Dilma, "para criar um ambiente propício para o golpe". "Até à data da votação do impeachment surgirão muitas outras", prognosticou.

Ainda na Lava-Jato, Lula da Silva foi depor pela primeira vez desde o episódio do depoimento coercitivo de 4 de março e ouviu o procurador-geral da República dar parecer contrário à sua posse como ministro da Casa Civil. Nas contas do impeachment, 18 dos 513 deputados deixaram de estar indecisos, sendo que desses, 15 disseram ao jornal O Estado de S. Paulo que votarão a favor da destituição e apenas três contra.

No que depender de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e aliado do vice-presidente Michel Temer no PMDB, o impeachment vai mesmo prosperar. Com o seu patrocínio, as discussões da Comissão do Impeachment começaram ontem e vão continuar durante o fim de semana para que segunda-feira os 65 deputados que a compõem votem de imediato o relatório, favorável à continuidade do processo, do relator Jovair Arantes (PTB).

Os aliados do governo, no entanto, tentam impedir sessões ao fim de semana. Alegam que Cunha quer criar um precedente para poder votar o impeachment em plenário no fim de semana seguinte. Segundo Sílvio Costa, do PT, "o deputado Eduardo Cunha está a tentar incendiar o país, a brincar com a democracia, o que ele quer é votar ao fim de semana para aproveitar para encher com milhares de pessoas a Praça dos Três Poderes no dia da votação do impeachment e pressionar os deputados".

Rogério Rosso (PSD), presidente da comissão e favorável à destituição, contrapôs, dizendo que "o país quer é deixar de estar parado social e economicamente", sublinhando que não é necessário criar precedentes de sessões aos fim de semana, uma vez que eles já existem desde os anos 90.
Eduardo Cunha afirmou ainda que quer familiares dos políticos na Câmara no dia do impeachment para criar ambiente de maior pressão sobre os indecisos. O líder dos deputados já decidiu também que vai começar por pedir os votos dos eleitos pelo estados a sul, maioritariamente contra Dilma, e terminar com os da região nordeste, com tendência pró-governo.

As notícias negativas para o PT traduziram-se numa subida acima de três pontos da Bovespa, bolsa de valores de São Paulo, e numa queda do preço do dólar.

São Paulo

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