Dilma obedece ao partido na escolha para as Finanças

Nelson Barbosa, rival do antecessor Joaquim Levy e bem cotado no PT, passa do Planeamento para a Fazenda. Mercados reagem mal

Dilma Rousseff escolheu na noite de sexta-feira Nelson Barbosa, ex-ministro do Planeamento, para o cargo de ministro das Finanças, deixado vago por Joaquim Levy. A troca, indicação da cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT), sugere que a presidente vai recuar na intenção de cumprir um ajustamento orçamental rígido. Quase de imediato, o dólar subiu, a Bovespa, bolsa de valores de São Paulo, sofreu queda, um conjunto de empresários brasileiros recomendou "prudência" e consultorias de Wall Street classificaram a escolha de "dececionante".

Levy, de 57 anos, era um economista da chamada ala ortodoxa, formado na escola de Chicago, que defende o mercado livre e uma linha de austeridade na condução das contas públicas, e havia sido recrutado à equipa económica do candidato derrotado em 2014 Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de centro-direita.

Barbosa, com perfil menos técnico e mais político, é próximo do presidente do PT, Rui Falcão, e da figura paternal do partido, Lula da Silva. Desenvolvimentista e adepto das teorias de John Maynard Keynes, o economista de 46 anos chocou com Levy ao longo da gestão deste por defender forte atuação do estado como indutor do crescimento.

Valdir Simão, um técnico do núcleo de colaboradores mais próximo a Dilma, assume o Ministério do Planeamento no lugar de Barbosa.

Discurso apaziguador

No entanto, na primeira aparição pública após a nomeação, Barbosa disse que não gosta "de um debate sobre política macroeconómica baseado em rótulos" e que o seu foco continuará a ser "o reequilíbrio orçamental, aprendendo com os erros e os acertos do passado".

E voltou a negar desentendimentos profundos com Levy. Ao longo da turbulenta convivência entre os dois, ficou célebre a sua irónica afirmação "sim, divergimos muito, o ministro Joaquim é do Botafogo e eu torço pelo Vasco".

Levy, em mensagem de fim de ano aos jornalistas, afirmou que "o tempo mostrará o resultado". "Houve falta de disposição do estado brasileiro no esforço orçamental, o que piorou expectativas e inibiu decisões de investimento e consumo com reflexos na atividade económica e na geração de empregos que se poderão estender por 2016."

O economista Marcos Lisboa, que segundo a imprensa chegou a ser equacionado para o cargo por Dilma apesar de ser crítico da política económica do governo, disse ao jornal O Estado de S. Paulo que Barbosa "merece o benefício da dúvida". Dilma trabalhava ainda com outro nome da chamada ala ortodoxa, Otaviano Canuto, quadro do FMI que trabalhara na equipa económica dos governos de Lula, que recusou o convite.

"Mais sensibilidade"

Ganhou então o PT, que defendia alguém capaz de vender um sonho aos brasileiros em vez de focar o discurso no ajustamento orçamental. "Barbosa encarna uma ideia de economia que representa melhor o PT", disse Emídio de Souza, presidente do diretório de São Paulo do partido. "Tem mais sensibilidade para fazer uma política de desenvolvimento e geração de empregos", afirmou Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula.

Em atos públicos contra o impeachment, os manifestantes, recrutados em movimentos sociais próximos aos petistas, vinham tendo como principais palavras de ordem "fora Cunha", aludindo ao presidente da Câmara dos Deputados inimigo de Dilma, e "fora Levy", num sinal evidente de que o economista era um corpo estranho ao partido.

Críticas

A oposição, por seu lado, foi feroz nas críticas. "É um sinal de que Dilma vai continuar a interferir na economia, a política que mergulhou o país nesta crise sem precedentes", disse Carlos Sampaio, líder do PSDB na Câmara dos Deputados. "É Barbosa o mentor das "pedaladas fiscais"", acusou Ronaldo Caiado, o líder no Senado do Democratas, partido mais à direita do Parlamento, a propósito das manobras orçamentais que baseiam o pedido de impeachment.

No mesmo dia do anúncio, a Bovespa teve fortes perdas - uma variação de 2,98 % - e o dólar subiu 1,75 pontos. Os dois maiores fundos de ativos do Brasil na bolsa de Nova Iorque, o iShares MSCI Brazil e o Direxion Daily Brazil Bull Shares, caíram 4% e 12%, respetivamente.

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