"Dilma fez tudo o que tinha de fazer para cair sozinha"

Andrés Malamud alega que presidente perdeu apoio para governar num país em crise, fragmentado, polarizado e corrupto

A crise económica, a fragmentação política, a polarização da sociedade, a corrupção e os problemas de liderança conjugaram-se no Brasil e é agora "praticamente impossível" que a presidente, Dilma Rousseff, se mantenha no poder, defendeu ontem o investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa Andrés Malamud, num almoço-debate no IDL - Instituto Amaro da Costa. Mas se nos primeiros pontos a presidente pouco podia fazer, no último caso só tem de se culpar a si própria: "Dilma fez tudo o que tinha de fazer para cair sozinha."

Malamud traçou o cenário económico negativo do Brasil, dizendo que a ideia de crescimento nas últimas duas décadas foi "uma ilusão", quando se comparam os números desta que era considerada uma "potência emergente" com os dos EUA. A atual crise, com quedas do PIB de cerca de 4% em 2015 e a previsão de valores iguais neste ano, "não é o fim do Brasil", refere, para lembrar, contudo, que o país "está a emagrecer sem nunca ter sido gordo".

À crise económica soma-se a fragmentação política, num sistema feito de partidos de aluguer. "Até 2008, um terço dos deputados acabavam o mandato num partido diferente do que tinham começado." Deste então, houve uma mudança da lei que em vez de travar as mudanças serviu para criar mais partidos - a própria Dilma criou um para tentar "esvaziar" o seu aliado, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do vice-presidente Michel Temer, que é o de maior representação na Câmara.

Foi precisamente esse tipo de atitudes que custou a Dilma o apoio parlamentar necessário para governar. "[O ex-presidente] Lula era uma pessoa que atraia, seduzia. A Dilma é o contrário", disse Malamud, lembrando que ela destruiu a coligação, "maltratando" os aliados. "Ela ficou sozinha, nem Lula conseguiu recuperar", acrescentou, lembrando que a polarização da sociedade e as denúncias de corrupção contribuíram para o atual cenário.

O futuro? "Vai ser horrível, penoso, instável, mas sem intervenção militar", explica Malamud. "Tudo o que acontecer será a culpa da China", refere, indicando que os brasileiros dependem 18% dos chineses. "Para nós, o Brasil é um gigante, mas para a China é um pigmeu."

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