Dilma descobre o online como arma contra Temer

Antes moderada no uso das redes sociais, a presidente suspensa, privada da máquina de comunicação institucional, recorre à internet para fazer oposição diária ao sucessor.

Nos dias seguintes a ser revelado que o governo provisório liderado por Michel Temer (PMDB) tinha cortado o "cartão de suprimento", verba destinada à alimentação de Dilma Rousseff (PT), um humorista escreveu que a presidente afastada pediu ao ex-vice "por favor, só não me tira a senha do wi-fi". Desde que foi suspensa das suas funções a meio do processo de impeachment, Dilma passa a vida no computador do Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência. E é online que vai discursando, provocando debates e criticando cada passo de Temer.

Com tempo de sobra, a petista recebeu na semana passada Eduardo Suplicy, histórico ex-senador pelo PT, que pedira audiência à presidente em 2013 mas foi tendo o encontro sucessivamente adiado. A "Dilma versão online", além de conversar com Suplicy e pedir desculpa pelo atraso de três anos, publicou nos seus perfis nas redes sociais fotos e vídeos da reunião e promoveu um face to face, ou seja, uma conversa entre ela, o senador e o público para discutir a situação do país.

Quando foi anunciada Fátima Pelaes, uma evangélica contrária ao aborto até mesmo em situações de violação, como secretária de Políticas para Mulheres da gestão Temer, o face to face de Dilma convidou Eleonora Menicucci, que ocupava o cargo sob as suas ordens, para um "papo". "É um retrocesso nos direitos das mulheres", acusou Menicucci, com Dilma ao lado, em gravação efetuada no Palácio da Alvorada. Antes, para responder ao novo ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra (PMDB), que sugerira que o programa social Bolsa Família sofresse cortes, foi Tereza Campello, a antecessora de Terra no cargo, a chamada ao Alvorada para criticar a redução e responder a dúvidas online dos interessados.

Ao lado de Miriam Belchior, ex-presidente da Caixa Federal, Dilma desafiou os seguidores para um "bate-papo" sobre o Minha Casa, Minha Vida, descrito como "o maior programa habitacional da história do país" e bandeira do PT de Lula da Silva e Dilma. Durante conversa online com um ex-ministro colocou o comentário "você já imaginou o que significa impor, de imediato, uma idade mínima de 65 anos para homens e mulheres indistintamente? Quem vai pagar a conta é você, trabalhador! Esse é o verdadeiro pato!!!", numa referência à ave e ao slogan da FIESP, associação dos industriais de São Paulo, quando clamavam pelo impeachment, e à reforma na segurança social prevista por Temer.

Lado pessoal

Mas nem só de política fala a nova e conectada Dilma. Quando chegou aos três milhões de likes agradeceu com um lado informal que não mostrava antes: "Oi, pessoal, muito obrigado pelas três milhões de curtidas!" Também lamentou a morte de Cauby Peixoto, cantor romântico brasileiro, entre comentários a outras situações quotidianas.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, o comportamento de Dilma pós-impeachment contrasta com o da presidente quando exercia o seu mandato. Nas suas páginas virtuais, surgiam apenas discursos oficiais divulgados em segunda mão e sem contacto direto com o público.

Diz a Folha que foi determinação da presidente que se realizassem atualizações constantes, agora que não tem agenda presidencial nem acesso à máquina de comunicação pública e a viagens pelo país - Dilma está impedida, por decisão do governo interino, de usar aviões da Força Aérea brasileira, além do circuito entre Brasília e Porto Alegre, onde mantém residência pessoal.

Em nova frente de batalha na área da comunicação, Temer mandou cortar também as verbas publicitárias que alimentavam jornais online marcadamente pró-governo de Lula e Dilma, como o Diário do Centro do Mundo ou o Brasil247, e blogs de jornalistas simpáticos ao PT. "Esses veículos são instrumento de opinião partidária", justificou. O executivo anterior tinha destinado 11 milhões de reais (cerca de três milhões de euros) em publicidade para esses espaços até ao fim do ano. Mais uma razão para Dilma continuar colada ao computador.

*) São Paulo

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