Dilma apresenta defesa hoje. Cunha já está ao ataque

Guerra do impeachment entra na fase decisiva. Enquanto a presidente recolhe argumentos e Lula negoceia apoios, líder da Câmara adapta regras do processo ao seu interesse.

A guerra do impeachment tem hoje batalha decisiva com a apresentação da defesa formal da presidente Dilma Rousseff à acusação de que cometeu "pedaladas fiscais" na comissão de 65 deputados que analisa o processo. Enquanto a chefe de Estado se defende, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos Deputados e oposição ao governo, prepara um plano de ataque para tornar a vida de Dilma mais difícil no dia da votação, prevista para 17 de abril.

De acordo com a tradição, o presidente da Câmara costuma declarar-se neutro nas votações mas, neste caso, o deputado do PMDB, que é réu na Lava-Jato e sofre processo de destituição no Conselho de Ética da casa a que preside por falta de decoro, já afirmou que tem lado e que esse lado é o da aprovação do pedido de impeachment. Cunha também não tenciona votar no final, como fez Ibsen Pinheiro, que ocupava o cargo em 1991, na destituição de Fernando Collor de Mello, e sim quando chegar a sua vez.

E a sua vez chegará de acordo com o seu próprio entendimento e não, novamente, segundo a tradição: ao contrário do que fez Pinheiro, que optou pela votação por ordem alfabética, por ser aleatória e imune a interpretações de interferência, Cunha pretende ouvir primeiro os deputados dos estados mais a sul, à partida mais hostis a Dilma, e deixar os do Nordeste, supostamente a favor do governo, para o fim, de modo a condicionar os indecisos que votem no meio. Quem não estiver presente - a abstenção conta como voto a favor do governo - terá o seu nome, partido e estado repetido para tentar constranger parlamentares que tenham acordado com o PT faltar à sessão.

O jornal O Estado de S. Paulo resolveu atualizar contas: ouviu 442 dos 513 deputados e concluiu que 261 votam pelo impeachment e 117 por Dilma. Falta pois à oposição convencer mais 81, entre os indecisos e os que não responderam, para chegar aos 342 necessários para prosseguir com o processo de destituição para o Senado.

Além de sete partidos que votarão em bloco pelo impeachment, entre os quais estão contabilizados os 50 deputados do PSDB, principal força da oposição, e os três que defendem, sem dissidências, a presidente, como os 57 do PT, há 16 forças políticas divididas. No PMDB, maior partido na Câmara e cujo abandono da coligação governamental marcou a última semana, por agora 34 votarão contra Dilma, cinco a favor e 11 estão em fase de consulta à sua base eleitoral regional. No PSB, PP, PR e PSD, partidos que vêm a seguir aos três grandes em número de votos, a divisão é ainda maior. São esses partidos que negoceiam com o governo a herança do espólio dos quase 600 cargos de que o PMDB dispunha.

Esse leilão é feito em duas sedes: no Planalto, pelo ministro Ricardo Berzoini, e a 7 km dali numa suite do hotel Golden Tulip, onde Lula da Silva, ministro sem pasta, se multiplica em reuniões com deputados à escuta de propostas. Lula já desistiu de tentar convencer Michel Temer, o vice de Dilma e presidente do PMDB, a repensar a sua atitude. Ao longo do fim de semana, um e outro atacaram-se: Lula disse que Temer, "sendo um constitucionalista", sabe que o que está a fazer "é golpe"; o vice respondeu que, "precisamente por ser professor de direito constitucional, tem ciência de que não há golpe".

Por sentir que nem a continuidade de Dilma nem a substituição dela por Temer são soluções, a Folha de S. Paulo publicou editorial ontem na primeira página - situação incomum - a pedir a renúncia de ambos e eleições em 90 dias. Mas, para tal, defende o jornal, é "imprescindível" que o Supremo Tribunal ou o Conselho de Ética da Câmara afastem de vez "a nefasta figura de Eduardo Cunha - o próximo na linha de sucessão -, que jamais poderia dirigir o Brasil nesse intervalo".

São Paulo

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