Destruir furacões com bombas nucleares? Uma ideia (inviável) com 60 anos

Trump veio desmentir que tenha defendido o uso de bombas nucleares para destruir ou enfraquecer furacões. Mas a verdade é que desde 1959 que há quem defenda esta ideia

Desta vez Donald Trump usou o Twitter para desmentir que tivesse defendido o uso de armas nucleares para travar os furacões - um fenómeno da natureza que tanta destruição tem causado nos Estados Unidos e noutros países da América Central.

O presidente norte-americano recorreu à rede social para repor a verdade e gritar "fake news!" poucas horas depois de o site de notícias Axios ter dito que "em múltiplas ocasiões" Trump sugeriu a elementos da equipa de segurança nacional que estudassem a possibilidade de usar bombas atómicas para desativar os furacões, antes que atingissem terra - noticia o El Mundo .

"Entendi. Entendi. Por que não damos cabo deles? Eles começam a formar-se ao largo da costa de África e enquanto estiverem a mover-se através do Atlântico, soltamos uma bomba dentro do olho do furacão. Por que não podemos fazer isso?", terá dito Trump durante um briefing na Casa Branca para acompanhamento de uma tempestade tropical, segundo uma fonte do Conselho de Segurança Nacional.

"Ridículo. Nunca disse isso. Mais fake news (notícias falsas)!", foram algumas das palavras que Trump usou esta segunda-feira usou para desmentir a notícia.

Uma ideia com 60 anos

A ideia não é nova e foi lançada pela primeira vez em 1959 por Jack W. Reed. E o que defendia este meteorologista? Que um submarino poderia ser colocado sob o olho de um furacão e aí denotar um ou mais mísseis nucleares. A ideia de Reed não ganhou adeptos na área das ciências, embora ele sustentasse que a explosão daria origem a que o ar quente concentrado no olho do furacão fosse expelido para a estratosfera.

Por sua vez, o ar mais frio ao redor ocuparia o lugar onde tinha estado o ar quente - este processo, em teoria, reduziria a velocidade dos ventos e enfraqueceria a tempestade tropical.

Não é, pois, a primeira vez que se fala na possibilidade de usar armas nucleares para evitar que os furacões cheguem a terra ou então para torná-los menos destrutivos. O Instituto Oceânico e da Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) tem uma explicação no seu site, em que cientistas dão as "razões para nunca se ter tentado acabar com os ciclos tropicais bombardeando-os".

E vai mais longe: "A cada temporada de furacões surge sempre a ideia de que bastava simplesmente utilizar armas nucleares para destruir as tempestades. Para além de nem sequer alterar a tempestade, esta proposta torna evidente o problema de que a radioatividade libertada se moveria rapidamente com correntes de ar para áreas terrestres, causando problemas ambientais devastadores."

Como saber que será um furacão?

Por outro lado, o NOAA refere que outra questão que torna inviável o uso de energia nuclear para enfraquecer um furacão é a grande quantidade de energia exigida. Porque - explica - um furacão já desenvolvido é capaz de libertar a energia térmica equivalente à gerada por uma bomba nuclear de 10 megatons (megatoneladas) a explodir a cada 20 minutos, convertendo menos de 10% desse calor em energia eólica mecânica.

O El Mundo cita o Almanaque Mundial de 1993, segundo o qual toda a humanidade terá usado durante o ano de 1990 menos de 20% da energia libertada por um furacão.

A NOAA também tem resposta para quem defende que esse processo deveria ser realizado antes de uma depressão ou tempestade ganhar a forma de furacão. Argumento: "Não há como saber de antemão que fenómenos acabarão por se transformar num furacão" - dos cerca de 80 que se formam a cada ano no Atlântico, em média apenas cinco acabam por ganhar a forma de furacões.

Como se não bastasse a questão científica, há ainda a questão política e os tratados internacionais com vista a pôr fim ao uso de armas de destruição maciça. A saber: em 1968, foi assinado o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e, em 1996, o Tratado de Proibição Completa de Ensaios Nucleares. Foi o primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru quem, em 1954, propôs que todos os testes de explosões nucleares no planeta fossem eliminados, recorda o diário espanhol.

A temporada dos furacões começou oficialmente em junho e estende-se até 30 de novembro. Mas desde maio que as tempestades começaram o seu rasto de destruição : primeiro foi a tempestade tropical Andreia, depois o furacão Barry.

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