Os cenários pós-eleições na Catalunha

Sondagens dão vitória à ERC, mas o Ciudadanos ainda não está fora da corrida. Até à contagem dos votos, estes são os cenários em cima da mesa

Vitória do ex-presidente Carles Puigdemont

Exilado em Bruxelas, Carles Puigdemont tinha prometido cumprir um só mandato como presidente da Generalitat, mas face ao que aconteceu na Catalunha apresentou-se a eleições como cabeça de lista independentista do Junts per Catalunya. A sua vitória será um golpe para o primeiro-ministro Mariano Rajoy, que destituiu o governo catalão ao aplicar o artigo 155.º. Caso ganhe, Puigdemont tentará ser eleito presidente pelo novo Parlamento regional. A ter em conta há o facto de existir um mandado de detenção em Espanha contra o líder catalão, ou seja, este será detido assim que voltar ao país.

Vitória do ex-vice Oriol Junqueras

A ERC, partido independentista liderado pelo ex-vice-presidente Oriol Junqueras, continua à frente das sondagens. Em caso de vitória nas urnas e de o Parlamento catalão o eleger como presidente da Generalitat a grande questão é como assumirá funções, tendo em conta que está em prisão preventiva. A solução poderá passar por Marta Rovira, a secretária-geral da ERC, que poderá ficar encarregue da gestão corrente do governo catalão.

Um pacto entre os independentistas

Quase todas as sondagens apontam os independentistas à beira, ou mesmo conseguindo, uma maioria absoluta. Se ERC, Junts per Catalunya e CUP voltassem a somar os deputados necessários, como aconteceu após as eleições de 2015, a Catalunha teria outra vez um governo pró-independência. Mas esta aliança parece ser mais complicada agora, pois a CUP mantém a sua intenção de uma declaração independentista unilateral, enquanto que os outros dois ainda não decidiram se estão dispostos a desafiar Madrid sem um claro apoio popular e têm de lidar com os processos judiciais de vários dos seus líderes e militantes, como Puigdemont e Junqueras.

Um resultado histórico para o Ciudadanos

O partido constitucionalista liderado na Catalunha por Inés Arrimadas está em segundo lugar nas sondagens, mas com intenções de voto próximas da ERC. Uma vitória do Ciudadanos seria um feito histórico, sendo que Arrimadas já prometeu, caso saia vencedora, "dialogar" para ultrapassar as divisões na sociedade catalã, mas também manter uma política de diálogo com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy.

Uma aliança entre os constitucionalistas

A matemática eleitoral abre também a possibilidade de um acordo de governabilidade - uma aliança de governo parece ser mais complicada - entre Ciudadanos, PSC, PP, mas também com o CEC-Podem. No entanto, as diferenças entre estas forças políticas tornam este cenário altamente improvável. De referir ainda que o CEC-Podem, que se encontra no cenário político entre independentistas e constitucionalistas e tem as sondagens a dar-lhe entre 10 e 11 preciosos deputados (que poderá dar uma maioria a qualquer um dos lados), poderá aliar-se aos primeiros.

Catalães obrigados a ir outra vez às urnas

Os cenários anteriores partem da premissa de que um dos três favoritos - ERC, Junts per Catalunya ou Ciudadanos - consiga ver a sua investidura aprovada pelo Parlamento catalão e forme governo. Caso contrário, a Catalunha poderá entrar num período de impasse político - como aconteceu em Espanha em 2016, quando Mariano Rajoy teve de esperar dez meses para ver o seu nome aprovado - que poderá levar à convocação de novas eleições.

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