Depois de Síria e Iémen, o regresso do conflito israelo-palestiniano?

Guerra na Síria (que fez mais de 5 milhões de refugiados) e morte do ex-presidente iemenita Ali Saleh têm dominado notícias

Em 1905, Naguib Azoury escrevia: Estes dois movimentos [sionismo e nacionalismo palestiniano] estão condenados à luta constante, até um dominar o outro. O destino do mundo inteiro depende do resultado dessa luta. E a previsão do autor de O Despertar da Nação Árabe pareceu confirmar-se durante muitos anos - guerra de independência em 1948, dos Seis Dias, do Yom Kippur, Primeira Intifada, Segunda Intifada, ataques bombistas em Israel, campanhas em Gaza, esfaqueamentos marcaram a região, com a tensão a alastrar muitas vezes aos países vizinhos e até ao resto do mundo.

Mas nos últimos anos, se por um lado o processo de paz tem estado parado, por outro o conflito israelo-palestiniano tem estado mais afastado das notícias. Talvez porque as atenções estiveram viradas para a guerra na Síria, que começou em 2011 como uma rebelião para derrubar o presidente Bashar al-Assad mas depressa se tornou numa guerra de todos contra todos, com rebeldes de várias fações, grupos apoiados pela Al-Qaeda e o ISIS a controlar parte do país até recentemente. EUA, Rússia, Turquia acabaram por se envolver num conflito que, como quase todos na região, é uma guerra por interposta pessoa entre Irão xiita e Arábia Saudita sunita.

O resultado foi mais de 300 mil mortos e cinco milhões de refugiados, com muitos a arriscarem a vida para chegar à Europa, colocando o continente perante uma crise migratória. Mas com o ISIS praticamente derrotado no terreno e Assad no controlo de grande parte do país, graças ao apoio russo, o conflito parece em vias de resolução - ou pelo menos mais pacificado. E poderá vir a perder destaque nos media.

Mais mediático por estes dias tem sido o Iémen. A guerra que o mundo ignora, como lhe chamava há dias a Economist, passou para as primeiras páginas após a morte do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, dias depois de ter mudado de lado, deixando de apoiar os rebeldes houthis (armados pelo Irão) e virando a lealdade para a Arábia Saudita.

Com a ONU a reconhecer que 28 milhões de pessoas precisam de algum tipo de ajuda humanitária no Iémen, confrontado com um surto de cólera e em risco de fome, o mais recente palco da velha luta entre os interesses de Teerão e Riade arrisca tornar-se um Estado falhado.

Tensões regionais

Em guerra civil entre 1975 e 1990, palco de guerras com Israel em 1982 e 2006, o Líbano não só acolhe 450 mil palestinianos como desde 2011 recebeu mais de um milhão de refugiados sírios. Um número impressionante para um país com seis milhões de habitantes e de difíceis equilíbrios religiosos e políticos. Nas últimas semanas voltou a temer-se uma desestabilização, com o primeiro-ministro Saad Hariri a anunciar a demissão a partir da Arábia Saudita, acusando o Hezbollah (grupo xiita libanês apoiado pelo Irão e parte da sua coligação de governo) de alimentar conflitos no mundo árabe. A demissão levantou questões sobre se estaria prisioneiro de Riade. Hariri voltou entretanto ao Líbano e retirou a demissão.

Mas a tensão não é só entre xiitas e sunitas. Também nos sunitas há divisões. Como as que levaram em junho a Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Egito a boicotar o Qatar, que acusam de apoio ao terrorismo.

Já o Iraque - no centro da atenção noticiosa após a invasão americana de 2003 - parece hoje afastado das notícias e da agenda do presidente Donald Trump. Mas a situação está longe de resolvida. O exército iraquiano recuperou o território ao ISIS mas o governo de Bagdad tem de lidar com os desejos independentistas dos curdos (um problema comum à Turquia) e que ganhou destaque após o referendo separatista de setembro.

Depois do discurso de Trump e parenta as ameaças de violência já feitas, esperamos que o conflito israelo-palestiniano continue também ele fora dos noticiários.

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