Depois da Coreia do Norte, Trump repete estratégia com o Irão

Os Estados Unidos aumentam a pressão à República Islâmica do Irão nas vésperas da assembleia geral da ONU e de uma reunião presidida por Donald Trump sobre não-proliferação nuclear. Um dos argumentos a explorar é a relação de Teerão com a Al-Qaeda.

No ano passado, no discurso da assembleia geral da ONU, Donald Trump ameaçou a Coreia do Norte de "destruição total". Seguiram-se meses de ameaças e escaramuças mútuas com Kim Jong-un, mas que terminaram com um encontro a dois em Singapura e reuniões intercoreanas que estão a ter como resultado o fim da retórica belicista e a perspetiva da desnuclearização da península coreana.

Agora é a vez de a administração Trump replicar a estratégia, mas em relação ao Irão. No apertar do cerco devem fazer parte acusações sobre a ligação entre o país de maioria xiita e o grupo terrorista sunita Al-Qaeda.

"O Irão continua sem dar mostras de querer levar à justiça membros seniores da Al-Qaeda (AQ) residentes no Irão e recusou-se a identificar publicamente os membros que tem sob sua custódia. O Irão permitiu que os facilitadores da AQ operassem um canal central de comunicação através do Irão desde pelo menos 2009, permitindo à AQ transferir fundos e combatentes para a Síria e o sul da Ásia." Esta é uma passagem sobre o Irão do relatório anual do Departamento de Estado sobre o terrorismo, publicada nesta semana.

O relatório surge numa altura em que os Estados Unidos têm mostrado um redobrar de esforços no sentido de pressionar Teerão.

Por outro lado, um documento de um grupo de peritos da ONU para o Conselho de Segurança sobre as atividades do Estado Islâmico e da Al-Qaeda, datado de julho, alerta que o grupo terrorista liderado por Aiman al-Zawahiri "tem conseguido exercer influência no noroeste da Síria" em parte graças a operacionais que estão no Irão, Abu Muhammad al-Masri e Sayf al-Adl.

Em maio, quando Trump anunciou que iria cumprir a sua promessa de retirar o país do acordo nuclear com o Irão, acusou o país dos aiatolas de "apoiar grupos terroristas como a al-Qaeda e suas filiais".

Os laços entre a Al-Qaeda e o Irão estão também documentados na papelada apreendida no refúgio de Osama bin Laden. O documento de 19 páginas foi desclassificado em novembro do ano passado, mas não faz prova da preparação conjunta de operações.

"Apesar da sua inimizade, o antagonismo mútuo da Al-Qaeda e do Irão tem sido superado pelo pragmatismo e pela crença de que a cooperação limitada é mais benéfica a longo prazo do que o conflito", escreve Assaf Moghadam, na revista do Combating Terrorism Center.

O antagonismo mútuo da Al-Qaeda e do Irão tem sido superado pelo pragmatismo e pela crença de que a cooperação limitada é mais benéfica a longo prazo do que o conflito

Há dois meses, Trump enviou uma mensagem de uma rara violência ao presidente Hassan Rouhani.

Mais tarde, o presidente norte-americano mostrou abertura para se encontrar em Nova Iorque com o líder iraniano, sem pré-condições. Mas Teerão negou ter solicitado um encontro entre os dirigentes, como foi propalado pela embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Nikki Haley. "Ridículo", reagiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros através do porta-voz.

Há cerca de um mês essa hipótese já tinha sido afastada por Rouhani. "[Os EUA] pegaram fogo à ponte. Agora os EUA estão na outra margem. Se forem honestos, têm de reparar a ponte."

O próprio Donald Trump lembrou no Twitter que vai presidir a uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre o Irão na quarta-feira.

Em rigor, a reunião à qual o presidente dos Estados Unidos vai presidir na próxima semana é sobre não-proliferação nuclear.

Ameaça à estabilidade mundial

O encontro de dirigentes mundiais dá-se numa altura em que Washington está num crescendo de tensões com a Rússia e a China. Os Estados Unidos anunciaram novas taxas aduaneiras aos produtos que importa da China e, facto inédito, sanções pela compra de material de defesa à Rússia, no caso mísseis terra-ar e de aviões Sukhoi Su-35.

Os russos foram também alvo de mais uma ronda de sanções pelo facto de terem feito a operação comercial com os chineses. No total, mais 33 pessoas e entidades dos setores militares e de informações foram incluídas na lista negra dos Estados Unidos. Na lista destaca-se um oligarca próximo de Vladimir Putin: Evgueni Prigogine é responsável pelo grupo de mercenários Wagner, presente na Síria e na Ucrânia. Mas também o diretor do serviço de informações miltares (GRU) Igor Korobov.

Através do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang, Pequim mostrou uma "grande indignação" face às sanções e instou Washington a recuar, sob pena de "pagar as consequências". Já Moscovo afirma que "brincar com o fogo é estúpido porque pode tornar-se perigoso" e que "seria importante lembrarem-se de uma noção como a estabilidade mundial, que é agitada de forma irrefletida", reagiu o vice-ministro da diplomacia, Serguei Riabkov.

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