Decapitações, sequestros e atentados para expandir o Califado

Estado Islâmico já tinha prometido atingir os "franceses sujos e maus".

Um homem encapuzado, vestido de negro e de faca na mão prepara-se para decapitar um refém ocidental, de fato-macaco cor de laranja, ajoelhado à sua frente. Foi com esta imagem, posta a circular na internet em vídeos que provocaram calafrios por todo o mundo, que o Estado Islâmico se deu a conhecer ao mundo. Estávamos em agosto de 2014 e a morte do jornalista americano James Foley às mãos do carrasco Jihadi John - que os EUA acreditam ter matado há dois dias na Síria - era a primeira de uma série de decapitações que provariam a barbárie do grupo liderado por Abu Bakr al-Baghdadi.

Nos meses seguintes, o Estado Islâmico, que agora reivindicou os atentados em Paris, não mais sairia das notícias. No controlo de um vasto território na Síria e no Iraque, os jihadistas sunitas sequestraram ocidentais, perseguiram e massacraram minorias religiosas como os yazidis. Ao mesmo tempo ia avançando na Síria, fazendo de Raqqa a sua capital e envolvendo-se em combates tanto contra as forças do presidente Bashar al-Assad como contra outros grupos rebeldes.

No comunicado em que reivindica a autoria dos ataques de Paris, o Estado Islâmico deixa bem claro que estes foram uma retaliação contra a intervenção francesa na Síria, onde Paris se juntou à coligação internacional que tem bombardeado os jihadistas no terreno. "França e os que seguem o seu caminho devem saber que são os principais alvos do Estado Islâmico e que continuarão a sentir o odor da morte por terem assumido a liderança da Cruzada", pode ler-se no texto. Já em 2014, um porta-voz do EI "apelava a atacar os ocidentais em todo o lado e sobretudo "os franceses sujos e maus"", lembrava ao Le Monde o professor Gilles Kepel, especialista em islão.

Origens

Para encontrar as raízes do Estado Islâmico é preciso recuar pelo menos a 2002. Nessa altura, o jordano Abu Musab al-Zarqawi funda o grupo radical Tawhid wa al-Jihad. Mas com a invasão dos EUA do Iraque, no ano seguinte, acaba por prestar vassalagem a Osama bin Laden e criar a Al-Qaeda no Iraque - maior força de oposição à ocupação americana. Com a morte de Zarqawi, em 2006, a organização passa a chamar-se Estado Islâmico no Iraque e sofre duras perdas infligidas pelos americanos, além de a brutalidade que usa ser condenada por alguns líderes tribais sunitas.

É preciso esperar até 2010 para Abu Bakr al-Baghdadi assumir a liderança do grupo, reconstruindo-o e realizando múltiplos ataques no Iraque. Três anos depois, funde-se com várias milícias sírias e junta-se à guerra naquele país contra o presidente Bashar al-Assad. Nasce o Estado Islâmico no Iraque e no Levante. Constituído em parte por ex-militares fiéis a Saddam Hussein, furiosos por terem sido afastados pelo novo governo da maioria xiita depois da queda do ditador, o grupo tem os conhecimentos estratégicos que lhe permitem conquistar rapidamente território na Síria e no Iraque. Financiado pelo dinheiro dos poços de petróleo que controla, bem como pelos resgates que recebe dos sequestros que realiza, a organização de Al-Baghdadi volta a mudar de nome para Estado Islâmico.

Em junho de 2014, conquistada Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, Al-Baghdadi declara a criação de um califado. Um "Estado" onde impera a sua interpretação radical da sharia, a lei islâmica, e que se na prática se estende neste momento por um território de dimensão equivalente à Bélgica (e onde vivem oito milhões de pessoas), sonha expandir-se desde o Paquistão a Espanha e Portugal, esse Al-Andaluz que os jihadistas querem reconquistar. Pelo menos a acreditar num mapa posto a circular na net pelo Estado Islâmico.

Ramificações

Se é na Síria e no Iraque que domina territórios, as ramificações do Estado Islâmico estendem-se muito para além disso. Da Nigéria ao Paquistão (ver infografia), vários grupos terroristas, alguns deles anteriormente ligados à Al-Qaeda, prestaram vassalagem a Al-Baghdadi, realizando ataques terroristas em nome do Estado Islâmico. Em muitos casos tendo como alvo ocidentais, como os da Tunísia já neste ano - em março contra o Museu do Bardo e em junho num resort em Sousse.

Apesar dos bombardeamentos da coligação internacional - que nos últimos dois dias terão causado baixas de peso no EI - sexta-feira o carrasco Jihadi John, ontem o líder do grupo na Líbia -, o grupo liderado por Al-Baghdadi parece não perder eficácia nos seus ataques. Depois de ter reivindicado o derrube de um avião comercial russo no Sinai, agora cumpriu a promessa de atingir Paris.

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