Dar e receber uma lição em tempos de pandemia

Artigo de opinião de Pedro A. Neto, diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal, sobre os refugiados.


Com a pandemia, voltámos a recordar que os refugiados estão entre os grupos mais vulneráveis. E, em Portugal, pudemos conhecer os esforços daqueles que, depois de terem aqui chegado, também se uniram no apoio a quem mais precisava.

É importante interiorizarmos que para ninguém nada está garantido e que problemas dos outros é coisa que não existe quando enfrentamos uma pandemia. Alguns sinais dessa maior solidariedade vieram de quem tanto já sofreu na vida.

Dar e receber é o contributo dos refugiados no nosso país e a lembrança de que estes tempos - mais do que ruído e polarização dos extremos - pedem-nos humanidade e uma resposta centrada nos direitos humanos.

Ramia Abdalghani e Alan Ghumim sentem-se em casa. Portugal deu-lhes paz e estabilidade para poderem criar os filhos, com 9 e 13 anos, que já falam português e estão perfeitamente integrados. Para trás ficaram os horrores da guerra na Síria, de onde são originários, e passagens pelo Qatar e por Marrocos.

Esta família de refugiados está no nosso país desde 2016. Tal como outras, também foi afetada pelos efeitos da covid-19. O restaurante de que são proprietários, em Lisboa, foi obrigado a fechar portas devido às medidas sanitárias de prevenção implementadas. Mas isso não fez que baixassem os braços. Pelo contrário, arregaçaram as mangas porque era tempo de retribuir o acolhimento.

Desde o dia 13 de março, Ramia Abdalghani e Alan Ghumim servem refeições gratuitas a profissionais de saúde. E já perderam a conta aos "obrigados" que receberam - o que garantem ser o mais gratificante.

O exemplo deste casal sírio repete-se noutras zonas do país, em que refugiados se dedicam a trabalhar para ajudar profissionais médicos e famílias em situação de maior pobreza que, neste tempo particular, necessitam de assistência urgente. Em Braga, serviram milhares de refeições a quem perdeu trabalho, a quem perdeu como se alimentar. Estas pessoas, que já passaram tanto na sua vida, lembram-nos que é necessária uma reflexão.

Hoje, Dia Mundial do Refugiado, fazem-se balanços e contam-se as vidas deslocadas à força, desde as geografias da guerra e outros conflitos às situações sociais de miséria em que muitas pessoas são forçadas a fugir do local ou país onde vivem. Fogem do terror para o incerto. Por não haver rotas legais e seguras enfrentam inúmeros perigos. Sabemos bem o risco de vida que estas pessoas vivem na Líbia, sabemos bem o risco que alguém que vem da América Central corre ao tentar pedir asilo para si e para a sua família na fronteira sul dos Estados Unidos da América. Sabemos bem como vivem os milhares de refugiados Rohinghya no Bangladesh, com especial atenção para as pessoas mais idosas e isoladas, que nem têm acesso a informação cuidada sobre esta pandemia e de como se podem proteger. Sabemos bem como se vive na Venezuela e a história dos milhares de pessoas que fugiram para os países que lhe fazem fronteira para começar do nada, só que impossibilitados de começar devido à covid-19.

A instabilidade política no mundo, assoberbada por um conjunto de líderes que se mostraram transparentes quanto à sua incapacidade de liderar e lidar com uma crise de saúde pública, tornou estas pessoas ainda mais vulneráveis. Os problemas que enfrentavam antes escalaram para um nível ainda mais elevado. Em vez de resolverem problemas, esses líderes - desde Trump, Bolsonaro e Orbán à direita, até Ortega e Maduro à esquerda - fizeram o que sabem melhor: fomentar o conflito, o medo, a desordem. É esse o ambiente em que se movimentam melhor. Causando distrações e sacudindo responsabilidades para que não se note a sua inaptidão.

Neste contexto de instabilidade mundial, os dados revelados pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados mostram que o número de refugiados ascendeu a cerca de 79,5 milhões de pessoas, no ano passado. Mais de metade são deslocados internos, fugindo pela vida, nem chegando a sair do seu país. É 1% da humanidade, é uma pessoa em cada 97 a ter de largar tudo e a fugir por motivos que lhe são alheios.

Neste tempo tão complexo para todas as pessoas, recomeçar a vida noutro local apresenta ainda maiores desafios, mas em Portugal vimos exemplos de heroicidade, de generosidade e solidariedade enormes por parte de quem tanto já sofreu e, mesmo assim, tem tanto para dar ao serviço de outros.

É urgente que os extremos deixem o protagonismo do espaço público e que o imenso ruído que criam dê lugar a estes exemplos de compaixão, partilha e solidariedade; e dê também lugar a um debate que tem de ser honesto e construtivo para implementar políticas públicas reparadoras, conciliadoras e promotoras de justiça social.

Todos beneficiamos uns com os outros numa vida em sociedade e em comunidade. Todos beneficiamos da partilha de conhecimento, de cultura, de respeito, de diversidade.

Num programa social de direitos humanos, todos teremos lugar e todos precisamos de todos. Estarmos sempre uns contra os outros é uma conta de dividir. Para somar, só uns pelos outros.

Diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal

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