Da "perna com gangrena" ao "cadáver insepulto", os pontos altos da sessão do Senado

Uma senadora compara Michel Temer ao protagonista de House of Cards e o ex-presidente impugnado Collor relembra que "avisou" Dilma

A sessão do Senado que confirmou o afastamento de Dilma Rousseff para ser julgada durou 20 horas. Presidida por Renan Calheiros, a sessão contou com discursos de 71 senadores e ainda com intervenções do Advogado-Geral da União, que constitui a defesa do governo, e do relator da comissão especial do Senado que redigiu o parecer favorável à continuação do processo do impeachment. Pelo meio, não faltaram argumentos a favor e contra Dilma Rousseff e o seu governo, intervenções improváveis e mesmo o parecer do ex-presidente impugnado, atual senador, Francisco Collor, que afirma ter previsto tudo.

Renan Calheiros e o "relógio da história"

O presidente do Senado não poupou referências à característica "histórica" da sessão do Senado desta quarta-feira, que se prolongou madrugada adentro. Em parte, o alongamento da sessão deveu-se a atrasos do próprio presidente, que só deu início aos trabalhos uma hora após o previsto e que, após uma pausa para o almoço que se previa de uma hora, chegou quase uma hora atrasado. Criticado pelos senadores, respondeu jocosamente: "Não podemos apressar a história".

Mais tarde, à medida que as intervenções dos mais de 70 senadores inscritos para discursar adiavam cada vez mais a fase de votação do relatório do impeachment, Calheiros rejeitou apelos de senadores que pediam que as intervenções fossem encurtadas para menos do que os 15 minutos por senador que estavam regulamentados. "Não cabe a mim adiantar ou atrasar o relógio da história", afirmou.

"Só faltou o voto pelo direito da cachorrinha comer ração importada"

As declarações dos senadores foram, no geral, muito mais sóbrias do que as da Câmara dos Deputados, onde os representantes votavam pela família, por Deus, ou mesmo em nome de um torturador de Dilma Rousseff na altura em que esta esteve presa por "subversão". Desta feita, Renan Calheiros apelou aos senadores que evitassem "votar por passionalidade".

A senadora Regina Souza, do PT, que votou contra o processo de impeachment de Dilma, fez questão de criticar as declarações de voto dos deputados. "Na Câmara, só faltou o voto pelo direito da cachorrinha comer ração importada dos Estados Unidos", afirmou.

"Brasil é corpo com diabetes, com uma perna cheia de gangrena"

Apesar do conselho de Renan Calheiros, o senador Magno Malta aproveitou para dedicar o seu discurso à sua neta que ainda não nasceu. E fez uma das afirmações mais memoráveis da noite ao comparar Dilma Rousseff a uma perna gangrenosa prestes a ser amputada. "O Brasil é hoje um corpo com diabetes, com uma perna cheia de gangrena. E a lógica é esta: se amputarmos a perna, salvaremos o corpo". Para justificar a metáfora, ainda acrescentou ter familiares com diabetes que tinham sofrido amputações bem-sucedidas.

Voto é pela "admissibilidade do processo" e não pelo impeachment

O relator do processo de impeachment, Antônio Anastasia, cuja declaração foi a última a ser pronunciada, já em altas horas da madrugada, fez questão de destacar que o seu relatório a favor do afastamento temporário de Dilma para ser julgada não é um relatório a favor da impugnação da presidente. "Temos (...) indícios suficientes para a abertura de processo", disse.

Tanto o senador Cristovam Buarque como o senador Edison Lobão afirmaram o mesmo ao dizer que votavam a favor da admissibilidade do processo. "Não vim aqui para tripudiar sobre uma gladiadora ferida, vim para o cumprimento do dever a que me obriga a Constituição. O voto que darei não é pelo impeachment, mas pela admissibilidade do processo", disse Lobão.

"Coveiros da democracia"

A senadora do PT Fátima Bezerra não poupou críticas à oposição. Votou contra a continuação do processo - uma dos 22 a fazê-lo - e afirmou ainda: "O que está em curso é um golpe de estado, travestido de impeachment. Vão tomar o poder de assalto. O PSDB e Aécio Neves entram para a história como coveiros da democracia".

Senadora fã de House of Cards compara Temer a Frank Underwood

A senadora Lídice da Mata também não se afastou do discurso de que o impeachment se trata de um "golpe" disfarçado, mas foi mais criativa na execução: acusou o vice-presidente Michel Temer, que assumirá o lugar de Dilma pelo menos durante 180 dias e quiçá até ao final do mandato em 2018, de intrigas "que fariam corar Frank Underwood", personagem principal da série House of Cards. Não é a primeira a fazer a comparação, mas é certamente a primeira a dizê-lo no púlpito do Senado Federal.

Aspeto jurídico "não me interessa muito". Impeachment é "cadáver insepulto"

O senador Blairo Maggi assumiu estar desinteressado da "discussão política" e da "discussão jurídica" à volta do impeachment. Vota a favor da continuação do processo, que defende há "um longo tempo", por outros motivos: "Entendi que nós tínhamos um cadáver insepulto que não deixava o país andar, o país pensar".

Maggi está a ser indicado como o possível ministro da agricultura de Michel Temer.

Presidente do Senado brinca com jornalista de "voz vibrante"

Logo no princípio da sessão, Renan Calheiros viu-se obrigado a pedir a uma jornalista da Rádio Itatiaia, Aparecida Ferreira, a falar mais baixo. "Sua voz é tão vibrante que está ecoando mais aqui no plenário do Congresso do que a minha voz", afirmou. Mais tarde, continuou a brincar afirmando ter descoberto que a "voz vibrante" era uma marca do trabalho de Aparecida Ferreira. "Vamos fazer os possíveis para compatibilizar o cumprimento do seu dever com o nosso papel".

Histórico do PT emociona-se: "Sem a democracia, nada!"

Paulo Paim, senador do PT, falou durante os seus 15 minutos com a voz embargada pela emoção. " Estou há 30 anos no Parlamento e confesso que nunca vivi um momento tão constrangedor", afirmou, aconselhando a Temer: "Não entre pela porta dos fundos. Se submeta ao voto popular. Com a democracia, tudo. Sem a democracia, nada!"

Collor, impugnado em 1992, "avisou" Dilma

O senador Fernando Collor, ex-presidente que foi ele próprio afastado por impeachment em 1992 e está agora indiciado na Operação Lava Jato por corrupção, afirmou: "A História me reservou este momento". A sua intervenção, aplaudida pelo presidente do Senado Renan Calheiros, culminou com Collor a afirmar que tinha "avisado" o governo de Dilma que este desfecho estaria para vir.

"Desde o início deste governo, fui ao longo dos anos, a diversos interlocutores da presidente para mostrar os problemas que eu antevia e que desembocaram nesta crise sem precedentes", disse Fernando Collor.

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