Cuba presta homenagem ao "pai de todos os cubanos"

Milhares de pessoas fizeram fila para dizer adeus ao histórico líder da revolução, Fidel Castro, que morreu aos 90 anos. Hoje, vários líderes internacionais participam na cerimónia fúnebre

Em vez de uma urna com as cinzas de Fidel Castro, três fotos do antigo líder no auge da Revolução Cubana, com uniforme, arma ao ombro e mochila às costas. No exterior do memorial a José Martí, em Havana, três filas estenderam-se na Praça da Revolução desde a madrugada, com milhares de cubanos à espera de entrar, passar frente aos retratos rodeados de uma guarda de honra, e prestar a última homenagem. Hoje, a praça deve encher-se novamente, para o ato final de despedida de Havana, para o qual estão convidados líderes internacionais.

"Ele é o pai de todos os cubanos. O meu papá era o meu papá, mas não me deu aquilo que Fidel me deu. Ele deu-me tudo, a liberdade, a dignidade", disse à AFP a reformada Lourdes Rivera, de 66 anos, sentada no passeio com um ramo de gladíolos. "Estou muito triste. Vim prestar homenagem ao nosso pai, amigo, comandante" afirmou à Reuters Belkis Meireles, engenheiro civil de 65 anos. "Ele foi um homem que nos libertou e enviou médicos e professores para todo o mundo", acrescentou.

A abertura estava marcada para as 9.00 (14.00 em Lisboa), mas cinco horas antes já havia pessoas na fila. À mesma hora, ouviram-se 21 salvas de canhão em Havana e Santiago de Cuba. Hoje, o cenário deve repetir-se. Às 19.00 (meia-noite em Lisboa), está prevista uma cerimónia massiva de adeus, com vários líderes internacionais - entre eles o venezuelano Nicolás Maduro, o boliviano Evo Morales, o rei emérito de Espanha Juan Carlos, ou o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras. O governo português estará representado pelo ministro adjunto, Eduardo Cabrita, e o Partido Comunista Português por Albano Nunes, responsável pelas Relações Internacionais do partido.

Contudo, haverá também ausências de peso, como a dos presidentes russo, Vladimir Putin, e norte-americano, Barack Obama, ou o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, criticado pela homenagem que fez a Fidel - que considerou um "líder notável", lembrando que esteve em 2000 no funeral do pai, Pierre Trudeau, ajudando mesmo a carregar o caixão do ex-primeiro-ministro.

Mas a despedida de Fidel, que liderou os destinos da ilha durante quase meio século, não termina aí. As cinzas vão percorrer a ilha, num caminho contrário à marcha da Caravana da Liberdade (após a vitória da revolução, em 1959), até Santiago de Cuba, onde será o funeral privado, no cemitério de Santa Efigénia, onde está o mausoléu de José Martí (o pai da independência) .

Cremado, não embalsamado

Ao contrário de outros líderes comunistas, como Lenine, Mao Tsé-tung ou Ho Chi Minh, que quando morreram foram embalsamados para o seu corpo continuar exposto e perpetuar o culto da personalidade, Fidel Castro optou por ser cremado. A decisão do ex-líder cubano foi revelada por Raúl Castro logo quando fez o anúncio oficial da morte do irmão.

Em vida, Fidel sempre foi contra o culto da personalidade - uma das primeiras leis aprovadas pela revolução proibiu, lembrou num discurso em 1966, "pôr o nome de um dirigente vivo numa rua, cidade ou aldeia, fábrica ou quinta", " fazer estátuas dos dirigentes vivos" e "fotografias oficiais nos gabinetes administrativos". Para o histórico dirigente da Revolução, "os que lideram são homens, não deuses". Mas, desde o seu 90.º aniversário, a 13 de agosto, que havia cartazes com o rosto de Fidel em todo o lado e, agora que está morto, essa lei já não se aplica. Resta saber quanto tempo durará até a homenagem incluir ruas ou praças com o seu nome.

O novo vizinho do norte

Enquanto decorrem as homenagens na ilha, no coração do exílio cubano, frente ao Monumento aos Mortos da Praia Girón em Little Havana, Miami, prepara-se uma manifestação para amanhã, às 17.00 locais (22.00 em Lisboa). Com o objetivo de pedir "liberdade e democracia para Cuba", este será "um ato conciso e poderoso" que quer levar uma mensagem de unidade e "um apelo à ação da resistência cubana", segundo o manifesto lido pelos organizadores.

Ao mesmo tempo, o presidente eleito, Donald Trump, que após a morte de Fidel o apelidou de "brutal ditador", voltou a escrever sobre a ilha no seu Twitter: "Se Cuba não estiver disposta a fazer um acordo melhor para o povo cubano, para os cubanos-americanos e para os Estados Unidos, no seu conjunto, porei fim ao acordo." Já no domingo, o futuro chefe de gabinete de Trump, Reince Priebus, disse que a Administração aguardará "alguns movimentos" do governo cubano. "Precisamos de um acordo melhor", indicou numa entrevista à Fox News.

Já a Casa Branca disse que a morte de Fidel dificilmente travará os esforços norte-americanos para normalizar as relações com Cuba. O porta-voz, Josh Earnest, lembrou que isso seria "um forte golpe" para os cidadãos cubanos, falando nos aspetos económicos que já estão em marcha - como por exemplo os voos comerciais regulares para Havana, que começaram ontem.

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