Cuba entre Trump e a sucessão de Raúl um ano após a morte de Fidel

Este mês entraram em vigor as novas medidas restritivas impostas pelos EUA. Amanhã, elegem-se assembleias municipais

Os cubanos assinalam hoje o primeiro aniversário da morte do líder da revolução, Fidel Castro, num momento em que os EUA endureceram a posição em relação a Cuba e a ilha se prepara para o início do processo eleitoral que culminará na saída do presidente Raúl Castro. Mudanças que nada têm a ver com o adeus a Fidel, que continua a ser referência na ilha, com o seu nome espalhado por muros e cartazes.

O anúncio da morte de Fidel às 22.29 de 25 de novembro de 2016 em Havana (03.29 de dia 26 em Lisboa) foi feito por Raúl na televisão cubana. O líder histórico tinha 90 anos e há dez que não estava à frente dos destinos da ilha, tendo passado o poder ao irmão por motivos de saúde (primeiro de forma provisória e, em 2008, permanente).

Quando Fidel morreu, já os norte-americanos tinham elegido Donald Trump para ser o próximo presidente. O milionário republicano tinha feito campanha prometendo reverter as políticas de abertura de Barack Obama, que reatara as relações diplomáticas cortadas há mais de meio século mesmo não conseguindo que o Congresso levantasse o embargo económico. E ganhou na Florida, onde vivem dois terços dos 1,2 milhões de cubano-americanos que têm direito de voto, com o apoio de 54% deles.

Em junho, num discurso em Miami, o presidente dos EUA anunciou a nova política para Cuba, prometendo restringir as viagens para a ilha e as trocas financeiras com empresas geridas pelos serviços de segurança e militares cubanos (o GAESA, Grupo de Administração Empresarial). Trump alegou que Obama tinha feito demasiadas concessões a Raúl Castro, indicando que os EUA não iriam levantar as restrições a Cuba enquanto o governo não cumprir uma série de requisitos, como a libertação dos presos políticos, eleições livres e a legalização dos partidos políticos.

Apesar dos recuos em relação à abertura de Obama, Trump manteve as embaixadas abertas. Contudo, procedeu a uma redução radical do número de funcionários em Havana (obrigando Cuba a fazer o mesmo em Washington). Tudo por causa dos chamados “ataques sónicos”, que continuam por explicar. Em agosto, foi revelado que vários diplomatas norte-americanos sofreram problemas de audição e cognitivos após os tais alegados ataques. Cuba negou qualquer envolvimento e convidou o FBI para investigar.

Entretanto, as mudanças anunciadas em junho por Trump foram concretizadas este mês. O Departamento do Comércio e do Tesouro dos EUA identificou 180 empresas com as quais os norte-americanos estão proibidos de fazer negócios, incluindo hotéis e lojas. As restrições não afetam acordos já alcançados, mas vão atingir em força a zona de desenvolvimento especial do porto de Mariel - vista como símbolo do futuro económico da ilha.

“Isto é um enorme retrocesso”, disse à Reuters o ex-secretário do Comércio dos EUA, Carlos Gutierrez, que nasceu em Cuba e está à frente do Conselho Empresarial EUA-Cuba. Em 2016, 33 empresas norte-americanas participaram na feira de comércio na ilha. Este ano, só apareceram 13 - comparando com mais de 150 espanholas - mostrando que a política de Trump já está a ter impacto.

No setor do turismo, que continua a ser proibido para os norte-americanos em Cuba, a Administração Trump acabou com uma das categorias de viagens autorizadas que era mais utilizada, a que permitia viagens individuais por motivos educacionais. Agora, os norte-americanos só podem viajar em grupo por esse motivo. E as ligações aéreas são para continuar, com os viajantes a continuar a poder trazer a quantidade de rum e tabaco que quiserem.

Entretanto, em Cuba, realizam-se amanhã as eleições dos delegados para as assembleias municipais (após um adiamento por causa da passagem do furacão Irma, que fez 10 mortos em setembro). É o primeiro passo no processo eleitoral que culminará na eleição de uma nova Assembleia Nacional em fevereiro, que irá eleger o sucessor de Raúl. O presidente, de 86 anos, tem repetido a intenção de se afastar ao final do segundo mandato, dando ao que tudo indica lugar a Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, vice-presidente desde 2013. Será o primeiro “não-Castro” no poder desde 1959 e o primeiro líder da geração que já nasceu depois da revolução.

Os mais críticos acreditam que no final Raúl - que não deixa a liderança do Partido Comunista - atrasará a passagem de poder. Não só pelo novo clima vindo dos EUA, mas também ao travão económico. O governo previa um crescimento de 2% do PIB em 2017, revendo esse número para 1%. Já os organismos internacionais apontam para 0,5%. Números que têm em conta uma queda do apoio petrolífero da Venezuela, mas não os danos do Irma.

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