Cuba celebra a revolução pela primeira vez sem Fidel

Líder histórico morreu a 25 de novembro. Raúl Castro, que já disse que não procurará a reeleição em 2018, tem um ano complicado pela frente

"Esta será uma comemoração diferente, Fidel Castro não estará connosco fisicamente para celebrar outro aniversário dessa Revolução que liderou e que deixou nas nossas mãos continuar a levar para a frente", disse o jornalista Randy Alonso Falcón, no programa Mesa Redonda, da rádio e televisão cubana. O histórico líder morreu a 25 de novembro, aos 90 anos, e este é o primeiro aniversário da revolução sem ele. Mas Fidel não será esquecido nos festejos no início de um ano que será decisivo para a ilha.

A 1 de janeiro de 1959, após a fuga do ditador Fulgencio Batista, os cubanos festejaram a vitória da revolução que tinha tido o seu primeiro episódio com o falhado assalto ao quartel Moncada, a 26 de julho de 1953, e fora relançada no desembarque do iate Granma, a 2 de dezembro de 1956. Fidel entraria triunfante em Havana a 9 de janeiro, depois de percorrer a ilha. Nos dias que antecederam o seu funeral, em Santiago de Cuba, as suas cinzas fizeram o percurso inverso ao da caravana da vitória.

Amanhã, na Praça da Revolução, em Havana, está prevista a realização da Revista Militar e da marcha do povo combatente (adiada após a morte de Fidel) para assinalar o 60.º aniversário da criação das Forças Armadas, o desembarque do Granma, e o triunfo da Revolução, e para prestar homenagem ao comandante-chefe e à juventude cubana.

"Fidel, esse coração palpitante que nos conduz sempre à superação dos obstáculos, a enfrentar os desafios e alcançar novos feitos, é também uma razão para celebrar com júbilo e otimismo a obra imensa que criámos todos juntos", escreveu o Granma, o jornal oficial, num editorial onde dizia haver "milhares de razões" para celebrar "58 anos de vitórias". Mas o ano que hoje se inicia será complicado para a ilha, que apesar de todas as mudanças económicas e abertura (houve um aumento de 15% no número de turistas, por exemplo) terminou 2016 com uma contração de 0,9% do PIB, entrando pela primeira vez em recessão em duas décadas.

Na última sessão da Assembleia Nacional, o presidente Raúl Castro alertou para os desafios económicos que o país vai enfrentar em 2017, prevendo ainda assim uma subida do PIB de 2% neste ano. Para o conseguir, defendeu que a ilha deve assegurar as exportações, bem como a sua cobrança atempada, aumentar a produção local para substituir as importações, reduzir os gastos e usar de forma racional e eficiente os recursos. E pediu o fim da "mentalidade ultrapassada e intolerante" contra o capital estrangeiro, apelando ao investimento.

Raúl, que devido à doença de Fidel assumiu o poder em 2006 e foi eleito em 2008, já anunciou que não é candidato à reeleição em 2018. O seu sucessor deverá ser o atual vice-presidente, Miguel Díaz-Canel, que nasceu após a vitória da revolução. Mas, até lá, e após ter negociado a normalização das relações com os EUA do presidente Barack Obama, terá de lidar com o sucessor. Donald Trump prometeu voltar atrás com a política de abertura caso Cuba não faça novas concessões em matéria de direitos humanos, mesmo se os analistas acreditam ser impossível travar a abertura. Com um Congresso dominado pelos republicanos, não deverá ser nos próximos anos que o embargo é levantado.

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