"Crimes do estalinismo foram relativizados durante muito tempo", diz historiador

O historiador Richard Bovery afirma que a União Soviética era tida como "um modelo de progresso e paz"

O historiador britânico Richard Bovery, autor do livro "Os Ditadores", defendeu hoje que os crimes do estalinismo, na ex-União Soviética, foram "relativizados" durante muitas décadas na Europa Ocidental.

"Ao contrário dos crimes da extrema-direita, os crimes do estalinismo foram relativizados durante muito tempo porque a União Soviética era encarada como um modelo de progresso e paz. Mesmo quando a verdadeira natureza do regime era exposta, as pessoas passavam por cima e viam as questões do regime como consequências de uma modernização rápida", disse à Lusa o historiador Richard Bovery, autor do livro "Os Ditadores", sobre as lideranças de Hitler e Estaline.

Para Bovery, o conhecimento pormenorizado sobre o estalinismo ainda está "limitado à elite da comunidade académica", enquanto a visão sobre o Holocausto está totalmente integrada na "história pública".

Richard Bovery, 69 anos, professor de História Moderna na Universidade de Cambridge e Exeter, Reino Unido, é especialista em temas relacionados com a Segunda Guerra Mundial e autor, entre outros, do livro "Os Ditadores", recentemente traduzido para o português.

O livro é uma análise profunda sobre as duas ditaduras, nazi e comunista, lideradas por Hitler (1889-1945), na Alemanha, e Estaline (1878-1953), na União Soviética.

A obra de Bovery sobre os dois líderes que marcaram o século XX não se limita ao período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e analisa as raízes do totalitarismo nazi e comunista, além de traçar um longo perfil político e pessoal dos dois ditadores.

"A opinião pública identifica Hitler com os horrores e o genocídio da guerra global. O conceito de crime contra a humanidade está ligado ao nazismo. Por outro lado, Estaline deixou uma marca diferente. A ditadura estalinista ainda não é uma referência no que diz respeito aos crimes contra a humanidade e, na Rússia, a reputação de Estaline é ainda de um líder poderoso, na tradição do czar Pedro o Grande", acrescentou o historiador.

Richard Bovery disse ainda à Lusa que, além de alguns arquivos classificados em Moscovo, já há poucas fontes disponíveis para o estudo da União Soviética durante o período da Segunda Guerra Mundial.

"Os historiadores já exploraram quase todos os ângulos sobre as duas ditaduras. Atualmente a tendência é o estudo sobre as experiências das populações que viveram debaixo das próprias ditaduras. Há ainda material muito interessante registado em diários, correspondência e testemunhos orais usados para a construção de imagem geral sobre o quotidiano dos povos submetidos a essas terríveis ditaduras", acrescentou Bovery.

"Os Ditadores -- A Alemanha de Hitler e a Rússia de Estaline" de Richard Bovery (Bertrand Editora, 949 páginas -- tradução de Victor Antunes), incluiu mapas e fotografias e foi editado na semana passada em Portugal.

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