Criado pelos pais e estudante em Oxford. Quem é o imperador Naruhito?

O reinado de Naruhito tem início nesta quarta-feira, depois de o imperador japonês Akihito ter sido o primeiro a abdicar do trono em 200 anos, para dar lugar ao filho. À frente da era de Reiwa (Bela Harmonia) está um homem que valoriza a família e se interessa por causas sociais e ambientais.

Aos 59 anos, Kōtaishi Naruhito Shinnō, conhecido como o príncipe herdeiro Naruhito, assume o trono do Japão, naquela que é a monarquia reinante mais antiga do mundo. Nascido a 23 de fevereiro de 1960, em Tóquio, é o primeiro imperador nascido após a II Guerra Mundial e tornar-se-á o 126.º a subir ao Trono do Crisântemo. Nas mãos, Naruhito tem a delicada tarefa de equilibrar a tradição com os seus valores modernos, cabendo-lhe ajudar o Japão a avançar para a modernização da monarquia.

Naruhito é o filho mais velho do imperador japonês Akihito, que nesta terça-feira se tornou o primeiro a abdicar do trono em 200 anos, e da imperatriz Michiko. Teve uma educação pouco convencional face ao que era a regra entre os príncipes herdeiros do país, já que foi o primeiro a crescer debaixo do mesmo teto dos pais e dos irmãos. Foi criado pela mãe, Michiko, e não pelo pessoal do Palácio Imperial. Teve, por isso, uma ligação mais próxima à família do que era habitual até então.

Segundo o Japan Times, a mãe, preocupada com as relações sociais de Naru - como era apelidado na infância -, que podiam ficar fragilizadas devido ao seu estatuto, convidava os seus colegas da escola primária, em pequenos grupos, para visitarem o palácio. E quando o filho lhe pediu "noodles instantâneos", Michiko acedeu de imediato ao pedido, vendo-o a devorar com satisfação o prato.

Naruhito licenciou-se em História na Universidade Gakushuin, em Tóquio, tendo depois estudado no estrangeiro, em vez de ficar nos estabelecimentos de ensino japoneses, como fazia parte da tradição. Entre 1983 e 1985, estudou na Universidade de Oxford, em Inglaterra, onde fez uma tese sobre os transportes de água no rio Tamisa. Num livro publicado em 1993, descreveu esse período como "o mais feliz" da sua vida.

Na Grã-Bretanha, o atual imperador viu-se longe das imposições da vida real japonesa, o que lhe permitiu alguma liberdade para conviver com outros estudantes, bem como com a família real britânica, o que terá marcado o seu percurso. Em 1989, quando da morte do avô, tornou-se príncipe herdeiro.

À semelhança do pai, Akihito, que se casou com uma mulher que irritou a realeza, a imperatriz Michiko, que conheceu a praticar ténis, Naruhito não se casou com uma mulher dita convencional para um príncipe. Nascida em Tóquio, em 1963, Masako Owada é filha de um diplomata, formou-se em Economia em Harvard e estudou Direito na Universidade de Tóquio. Segundo o Le Figaro, aprendeu russo, inglês, francês e alemão. Era uma aluna brilhante com um futuro promissor à sua frente.

Aos 29 anos, Masako Owada deixou o Ministério dos Negócios Estrangeiros para se casar com o príncipe herdeiro, vários anos depois do primeiro encontro entre ambos, durante a visita da infanta Elena ao Palácio Imperial. Após vários pedidos de casamento recusados, Masako disse "sim" e Naruhito prometeu protegê-la durante "a vida inteira". Para se adaptar às novas regras, desistiu da carreira, o que terá levado ao seu progressivo isolamento.

A pressão para ter um filho homem (o único que pode aceder ao trono) fez que a condição de Masako - popularmente conhecida como a "princesa triste" - se agravasse. Seis anos depois do casamento, surgiu o anúncio de uma gravidez, mas Masako perdeu o bebé. Dois anos mais tarde, em 2001, a princesa engravidou novamente e deu à luz uma menina, Aiko, agora com 17 anos. No entanto, o problema mantinha-se: continuava a faltar um herdeiro.

Em 2004, soube-se que a princesa sofria de uma doença do foro psiquiátrico devido ao stress a que tinha sido sujeita desde o início do casamento. Em declarações feitas publicamente, Naruhito revelou que a mulher estava "esgotada" por "todos os esforços feitos" nos últimos dez anos "para se adaptar à vida da realeza". Numa ação sem precedentes, disse que houve uma tentativa de apagar a carreira que tinha anteriormente. De uma maneira subtil, acusou a Agência da Família Imperial do Japão de provocar a doença da mulher. Acabou por pedir desculpa pelas declarações, mas não deixou de apelar a uma modernização das regras da família real.

Durante quase uma década, a princesa manteve-se longe da ribalta, tendo aparecido publicamente em 2014 na coroação de Guilherme e Máxima como reis da Holanda. Já em 2018, a atual imperatriz do Japão fez uma declaração, manifestando-se "insegura" relativamente às suas novas funções, mas prometendo esforçar-se "para dedicar felicidade às pessoas".

Do pai, Naruhito herdou o gosto pelas viagens. Quem lida consigo de perto descreve-o como "sincero e atencioso" com quem o rodeia e muito interessado nas causas sociais e ambientais. Ativista pelo acesso à água e pela sua preservação, foi presidente honorário do grupo de conselheiros do secretário-geral da ONU para a Água e o Saneamento entre 2007 e 2015. Como hobbies, gosta de tocar viola e de praticar alpinismo.

Com a abdicação do imperador Akihito, após 30 anos de reinado, é o fim da era de "Heisei" (conclusão da paz) e o início daquela que é conhecida como "Reiwa": "rei", que significa "comando e ordem", e "Wa", que simboliza "harmonia e paz" - criando a palavra que significa "Bela Harmonia".

Nesta quarta-feira, Naruhito sobe oficialmente ao trono, sendo esperado que adote uma postura de maior proximidade com o povo, à semelhança do que foi feito pelo pai. Desde que foi nomeado, em 1989, este recusou a figura "divina" de imperador e tentou humanizar o cargo que ocupou, aproximando-se da população, o que o tornou bastante popular.

Para já, a sucessão do trono é incerta, mas, como as mulheres estão interditas, segundo a linha de sucessão, o lugar seria de Akishino, o irmão mais novo de Naruhito, e o seu filho, Hisahito, de 12 anos. A poucos dias da abdicação do imperador foram encontradas duas facas de cozinha na sua secretária, na escola, tendo a presença de um homem suspeito sido detetada por câmaras de segurança.

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.