Covid-19. Brasil tem muitos problemas e Bolsonaro é um deles

País ultrapassa Alemanha e França em dois dias seguidos e já é o sexto com mais casos, mesmo testando pouco. Ter um presidente a semear a confusão prejudica, avaliam o prefeito de Manaus, a principal revista da área e uma ex-ministra

O Brasil ultrapassou a França em número de infetados pelo novo coronavírus nesta quarta-feira e tornou-se o sexto país do mundo com mais casos, de acordo com levantamento feito pela universidade norte-americana Johns Hopkins. Na terça-feira já tinha superado a Alemanha. À frente do Brasil estão agora apenas EUA, Rússia, Espanha, Reino Unido e Itália, sendo que pelos indicadores disponíveis todos esses países, exceto os EUA, devem ser ultrapassados nos próximos dias pelo gigante sul-americano, em mais um sinal de que o foco da pandemia trocou a Europa pela América.

O total de óbitos até esta quarta-feira era de 12.703. O número de casos de 181.518.

E os números do Brasil, país com mais casos e mortes por Covid-19 na América Latina, devem estar subestimados. Com base em registos da Fundação Oswaldo Cruz e em órgãos regionais, cientistas estimam que o número real de casos de coronavírus no país já estava em 1,6 milhão na semana passada. O crescimento de quase 10 vezes o número de internações e de 1.035% de mortes por síndromes respiratórias são evidências da subnotificação de mortes e casos graves de Covid-19 no país, revela o site G1.

Acresce, nota a The Lancet, revista respeitada da área, que a estimativa da taxa de duplicação do número de mortes é de apenas cinco dias.

O Brasil tem ainda a mais elevada taxa de transmissão, de acordo com um estudo recente do Imperial College de Londres, que analisou a taxa ativa de transmissão em 48 países.

O país realizou até o momento 482.743 exames, dos quais mais de 145 mil ainda aguardam resultado. Como esse número de testes é relativamente baixo e a prioridade é para os pacientes graves, aqueles que precisam ser hospitalizados, o número de subnotificações é elevado.

A maior ameaça

"Neste momento, cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro são os principais focos, mas há sinais de que a infeção se está a deslocar para o interior dos estados, onde estão cidades menores, sem provisões adequadas de leitos com cuidados intensivos e ventiladores", diz The Lancet em editorial.

Para rematar: "Ainda assim, talvez a maior ameaça à resposta à Covid-19 para o Brasil seja o seu presidente, Jair Bolsonaro, que continua semeando confusão e desprezando e desencorajando abertamente as sensatas medidas de distanciamento físico e confinamento introduzidas pelos governadores de estado e pelos prefeitos das cidades".

Arthur Virgílio Neto, prefeito de Manaus, uma das cidades mais atingidas, dá um testemunho sobre essa semente de confusão vinda do Palácio do Planalto, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo: "Há um fenómeno no Brasil que são as constantes pregações do presidente, eu falo o tempo inteiro, mostrando o que é e o que não é, mas muito disso é destruído pelas pregações que o presidente faz a seguir".

Na terça-feira, Bolsonaro determinou que atividades como ginásios, manicures, salões de beleza e barbearias fossem consideradas essenciais. O anúncio surpreendeu governadores, prefeitos - muitos deles resolveram ignorar o decreto - e até o próprio ministro da saúde: Nelson Teich, que já é o segundo no cargo desde o início da pandemia, soube da reabertura daquelas atividades, em direto, durante uma pergunta de um jornalista em conferência de imprensa.

Teich resiste por outro lado a indicar a hidroxicloroquina como o remédio que pode resolver a pandemia, conforme o presidente apregoa, o que o tornou alvo da ala mais radical dos apoiantes de Bolsonaro, os mesmos que se manifestam em aglomerações pelo regresso ao trabalho.

Antes de Teich, caiu em meados de abril Luiz Henrique Mandetta, ministro da saúde que defendia o confinamento, de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde mas em conflito com as ideias de Bolsonaro sobre o tema.

"E daí?"

O presidente, que soltou um já célebre "e daí?", quando questionado com mais um dia de recorde de mortes, disse noutra ocasião que não era "coveiro", anunciou dias antes que o vírus estava "a ir embora" mesmo com a curva de casos em alta galopante, e chamou, no primeiro discurso oficial na pandemia, o novo coronavírus de "gripezinha".

Com os seus governantes a emitirem sinais trocados - a maioria dos governadores e prefeitos e os dois ministros (até agora) da saúde recomendam isolamento enquanto o presidente estimula o regresso ao trabalho - muitos cidadãos afrouxaram os seus próprios comportamentos nas grandes e nas pequenas cidades.

"É uma gripe como outra qualquer", dizia um casal de reformados, a passear, sem máscara na orla de Copacabana à reportagem do canal Globonews, há uma semana.

O maior exemplo de desafio à doença partiu de Gabriela Pugliesi, personal trainer e influenciadora digital. Depois de ter contraído a doença durante o casamento luxuoso da irmã, recomendou pela internet aos seus 4,5 milhões de seguidores nas redes sociais, enquanto tossia, para ficarem em casa e se cuidarem.

Semanas depois, já curada, organizou uma festa, sem máscaras, no seu apartamento em São Paulo, epicentro da doença, e publicou uma foto sob a legenda "f***-se a vida".

Em entrevista ao DN em março, Tereza Campello, ex-ministra de Dilma Rousseff, já classificara a presença de Bolsonaro na presidência numa altura destas como "o pior dos piores cenários".

Genocídio

"Os países todos estão a enfrentar 1918, a crise sanitária da gripe espanhola, 1929, com o crash da Bolsa de Nova Iorque e a respetiva crise produtiva e económica, e 2008, o ano da crise financeira, ao mesmo tempo. O Brasil ainda enfrenta uma crise política - é a tempestade perfeita. Numa altura desta gravidade, o presidente briga com o Senado, com a Câmara dos Deputados e com o Supremo Tribunal Federal, ofende os governadores e os municípios e ainda desautoriza o próprio ministro da saúde, que está a tentar fazer face ao problema. Nem no pior dos piores, dos piores dos cenários se poderia imaginar um presidente assim", dizia.

E alertava também para "o genocídio" que se tornaria a epidemia no Brasil por causas das características do país.

Como, aliás, sublinha também a The Lancet: "Mesmo sem ações políticas a nível federal, o Brasil teria um desafio difícil no combate à Covid-19. Cerca de 13 milhões de brasileiros vivem em favelas, que frequentemente têm casas com mais de três pessoas por divisão e reduzido acesso a água limpa. Recomendações para distanciamento físico e higienização são praticamente impossíveis de seguir nestas condições".

Mesmo assim, assinala, muitas favelas organizaram-se melhor para enfrentar a pandemia do que o governo federal.

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