Cottarelli põe governo em pausa à espera de acordo entre M5E e Liga

Primeiro-ministro proposto pelo presidente Mattarella diz que ainda há hipótese para formar um executivo político e não tecnocrata, como seria o seu. Di Maio aceitaria dar Economia a outro que não Savona, mas Salvini parece mais reticente

Carlo Cottarelli voltou a sair ontem do Palácio do Quirinal sem apresentar os nomes dos ministros do seu governo tecnocrata. Em vez disso, o primeiro-ministro designado pelo presidente Sergio Mattarella terá concordado em não "forçar o calendário". Tudo porque Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas (M5E, antissistema), e Matteo Salvini, da Liga Norte (extrema-direita), parecem ter voltado à mesa de negociações para formar governo. Um que pode não incluir o polémico Paolo Savona na Economia, numa proposta que Mattarella está a estudar "muito cuidadosamente".

Segundo revelaram fontes presidenciais à agência italiana ANSA, Cottarelli e Mattarella concordaram não "forçar o calendário" para a formação de um governo. O ex-dirigente do Fundo Monetário Internacional, que representa a austeridade que tanto o M5E como a Liga rejeitam, estará a aguardar eventuais desenvolvimentos na formação de um executivo político, antes de retomar os esforços para liderar um governo tecnocrata.

"Durante o seu trabalho como primeiro-ministro designado para a formação de um novo executivo, surgiram novas possibilidades para a criação de um governo político", indicaram outras fontes da ANSA, desta vez ligadas a Cottarelli.

Compromisso noutro nome?

Foi o veto de Mattarella à nomeação do eurocético Paolo Savona para ministro da Economia que pôs fim à tentativa de os dois partidos formarem governo, liderado por Giuseppe Conte, com o presidente a optar então por nomear Cottarelli para primeiro-ministro.

O M5E estará disposto a pôr Savona noutro cargo no governo, procurando outro nome para a Economia. "Vamos encontrar uma pessoa do mesmo calibre do excelente professor Savona" e "ele vai ficar na equipa de governo noutra posição", disse ontem o líder do M5E, Luigi Di Maio, depois de se encontrar informalmente com o presidente.

Mattarella disse estar a pensar "muito cuidadosamente" nessa proposta. Mas, aparentemente, a Liga insiste no nome de Savona para a Economia. Salvini quer "a mesma equipa", lembrando que Di Maio tinha concordado que Savona era o melhor nome para representar a posição económica do governo em Bruxelas. Reiterando que nenhum dos partidos "concebeu a hipótese de deixar o euro", Salvini continuou nas analogias futebolísticas: "Se alguém é um guarda-redes, tem que jogar a guarda-redes. Se alguém é um ponta-de-lança, tem que jogar a ponta-de-lança."

Salvini não vai boicotar solução

O líder da Liga Norte tinha dito mais cedo que não iria boicotar uma solução para fazer face à atual emergência política em Itália, defendendo um governo político ou a realização de eleições o mais rapidamente possível - mas não no final de julho, como chegou a ser referido. Essa data privaria, na sua opinião, demasiados italianos do direito de votar, por calhar em plenas férias.

Questionado sobre a hipótese de reabrir as negociações para um executivo entre a Liga e o M5E, Salvini disse "não estamos no mercado". E falou numa "questão de dignidade" e do facto de lhes terem negado a formação do executivo. No final deixou claro: "Não vamos vender a Itália", exigindo a Mattarella que marque novas eleições.

Mercados mais calmos

Na terça-feira, a hipótese de um rápido regresso às urnas por o eventual governo de Cottarelli não ser aprovada no parlamento, levou o euro a negociar face ao dólar ao pior nível desde julho passado (assim como ao aumento dos juros da dívida).

Tudo porque novas eleições são vistas como um referendo à permanência na zona euro, com os dois partidos eurocéticos a surgir nas sondagens com grande vantagem. A Liga melhoraria os 17% alcançados a 4 de março, para cerca de 23%, enquanto o M5E continuaria nos 32%.

Um acordo entre Mattarella, Di Maio e Salvini iria acalmar a incerteza, mas ainda existem receios visto o programa de acordo de governo prever o aumento da despesa e alterações às regras fiscais da zona euro. Apesar disso, a situação económica melhorou.

Os mercados relaxaram com as notícias e a bolsa de Milão fechou a subir 1%, ao passo que os juros da dívida pública desceram. A Itália conseguiu captar no mercado 5,6 mil milhões de euros com a emissão de dívida com prazos de vencimento diferentes, apesar de os juros terem sido mais elevados, num mercado muito volátil.

"Ainda não estamos no ponto em que os investidores recusam emprestar dinheiro à Itália", disse à Reuters Roberto Coronado, da PineBridge Investments. Já o ministro das Finanças alemão, Olaf Scholz, desvalorizou os riscos de a crise italiana atingir a zona euro. "Podemos dizer que a Europa está melhor preparada para as situações difíceis do que antes. Mais, estou convencida que a maioria dos italianos têm uma posição muito pro-europeia. É uma nação europeia", indicou à mesma agência de notícias.

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