Corrupção, imigração e violência: os desafios do próximo presidente da Guatemala

Eleitores vão este domingo às urnas para a segunda volta das presidenciais entre a ex-primeira-dama Sandra Torres e o médico e antigo diretor das prisões Alejandro Giammattei.

Os eleitores guatemaltecos elegem este domingo o sucessor do presidente Jimmy Morales e na segunda volta das presidenciais a escolha é entre dois veteranos da política: a ex-primeira-dama de centro-esquerda Sandra Torres, que em 2015 ficou em segundo lugar e tenta à terceira ser eleita presidente; e o médico e antigo diretor das prisões (que já esteve atrás das grades), o conservador Alejandro Giammattei, que vai na quarta candidatura.

Torres, de 63 anos, foi a vencedora da primeira volta, com 22,1% dos votos entre duas dezenas de candidatos. Mas, na segunda volta, no frente a frente, as sondagens dão a vitória a Giammattei, que também tem 63 anos, que só conseguiu 12,1% a 16 de junho. A vantagem do conservador prende-se não tanto por ser considerado o melhor, mas pelos pontos negativos da ex-primeira-dama, que é suspeita de corrupção e de financiamento ilegal na campanha de há quatro anos.

Numa sondagem, feita ainda antes da primeira volta, 49% dos eleitores diziam que nunca seriam capazes de votar nela. O eleitorado de Torres centra-se nas áreas rurais (com muita popularidade negativa nos centros urbanos), onde é lembrada pelos programas sociais implementados durante o governo do ex-marido. Álvaro Colom esteve no poder entre 2008 e 2012, tendo-se divorciado de Torres em 2011 para que ela pudesse ser candidata -- a constituição impede a candidatura de familiares do presidente. Em 2018 foi detido por suspeita de corrupção, ficando em liberdade após o pagamento de uma fiança.

Giammattei também não tem o cadastro limpo, tendo passado quase 11 meses atrás das grades por causa de uma operação policial numa prisão quando era diretor do Sistema Penitenciário da Guatemala, que fez mortos entre os detidos. A justiça acabou por o ilibar de responsabilidades.

A participação na segunda volta das eleições deve ser baixa (na primeira volta foi inferior a 62%). E nenhum dos candidatos, quando for presidente, terá uma tarefa fácil, já que não têm maioria no Congresso. O partido de Torres, Unidade Nacional de Esperança (UNE), é o mais representado, com 52 deputados, mas longe da maioria que é de 81. Já o Vamos, de Giammattei, só elegeu 17.

Além disso, ambos enfrentam três problemas chave: corrupção, imigração e crime.

Corrupção

Há quatro anos, o antigo humorista Jimmy Morales surpreendeu ao ser eleito presidente da Guatemala. A sua promessa era acabar com a corrupção -- o seu lema era "nem corruptos, nem ladrões" -- depois de o então presidente Otto Pérez Molina e da sua vice, Roxana Baldeti, se terem demitido por causa de um escândalo.

Mas quando os holofotes da Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala (Cicig, na sigla em espanhol) se viraram contra Morales, a sua família e aliados, o presidente lançou-se numa guerra aberta contra este organismo das Nações Unidas responsável por investigar e julgar crimes graves no país.

Morales tentou expulsar o Cicig do país, sendo travado pelo Tribunal Constitucional, mas não lhes renovou o mandato, que acaba em setembro de 2019. O novo presidente só toma posse a 14 de janeiro do próximo ano, mas terá ainda que lidar com a questão da corrupção. Pressionados sobre se vão tentar voltar a levar o Cicig para o país, Torres não foi clara (ela própria foi investigada pelo organismo), enquanto Giammattei disse que não é a favor de o fazer.

O próximo presidente terá que lidar com o problema da corrupção, com os analistas a dizer que devia empreender uma reforma do serviço público e das contratações de funcionários públicos. Ambos os candidatos prometeram melhorar a educação e o serviço de saúde, além de investir nas áreas mais pobres (cerca de 60% dos 17,7 milhões de habitantes vivem na pobreza) para desencorajar os cidadãos de ir atrás do "sonho americano".

Imigração

O próximo presidente vai "herdar" de Morales um acordo migratório com o presidente norte-americano, Donald Trump, que visa converter a Guatemala num "terceiro país seguro", qualificado para responder aos pedidos de asilo de muitos migrantes que chegam aos EUA. A ideia é que, se passaram pela Guatemala (e todos à exceção dos mexicanos o fazem), têm que pedir asilo primeiro neste país, podendo ser recambiados já na fronteira norte-americana caso não o tenham feito. O alvo são os hondurenhos e os salvadorenhos.

Ambos os candidatos criticaram o acordo, que o Tribunal Constitucional disse necessitar da autorização do Congresso, mas as ameaças de Trump de sanções económicas (os EUA compram 42% das exportações guatemaltecas), proibições de viajar ou taxar as remessas dos imigrantes (foram de 9,3 mil milhões em 2018 e representam 12% do PIB do país), não deixam grande margem de manobra ao próximo presidente. Segundo uma sondagem, 82% dos guatemaltecos são contra o acordo.

Para combater a pobreza, ambos os candidatos defendem aumentar a dívida pública para financiar projetos de infraestrutura, que possam criar oportunidades de emprego no país, nomeadamente nas zonas rurais -- a Guatemala tem uma das mais baixas taxas de urbanização da América Latina.

O desemprego é oficialmente apenas de 2,8%, mas mais de 70% dos habitantes em idade ativa, têm um emprego informal -- seja como vendedores de rua, trabalhadores nas obras sem contrato, trabalhadores em casas particulares ou camponeses. Nenhum tem acesso a proteção social ou salário mínimo.

A Guatemala prepara-se para ter nos próximos anos um "dividendo demográfico", isto é, quando o número de pessoas em idade laboral é superior ao de pessoas dependentes (crianças e idosos). Mas enfrentará um problema se não conseguir garantir trabalho para os jovens, que podem virar-se para a criminalidade, para o trabalho informal ou optar por imigrar.

Segundo a ONU, estima-se que mais de um milhão de guatemaltecos tenham cruzado a fronteira com o México a caminho dos EUA, nas caravanas de imigrantes que são alvo dos ataques do presidente Donald Trump. Cerca de 117 mil foram apanhados junto à fronteira dos EUA em 2018 (número superior só no México), tendo as autoridades mexicanas deportado mais 44 mil.

Crime

As sondagens indicam que a insegurança é a principal preocupação entre os eleitores, apesar de o número de homicídios ter vindo a cair desde 2009. A violência dos gangues, junto com a pobreza, é um dos problemas que leva muitos guatemaltecos a querer sair do país. A taxa de homicídios é de 22,4 por cem mil pessoas.

É a insegurança que leva também muitos guatemaltecos a rejeitar a ideia de que o seu país possa ser "terceiro país seguro" para os migrantes que tentam chegar aos EUA.

Em matéria de segurança, Torres prometeu voltar a pôr o exército nas ruas, uma medida impopular e pouco eficaz com a qual Morales acabou no ano passado. Já Giammattei promete reestruturar a polícia e aumentar o número de militares (apesar dos receios que isso gera no país, que viveu em guerra civil entre 1960 e 1996).

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