Conviveu com Clinton e Blair mas Putin vai ficar até 2024

Primeiro-ministro, presidente, primeiro-ministro e presidente, Putin deve chegar aos 25 anos no poder. Recorde na Europa, mas longe dos 38 anos de Obiang na Guiné Equatorial.

Quando em agosto de 1999 Boris Ieltsin escolheu o desconhecido Vladimir Putin para primeiro-ministro e seu sucessor na presidência, poucos imaginavam que passados 19 anos o antigo agente do KGB ainda estaria à frente dos destinos da Rússia. E, com a vitória praticamente garantida nas eleições de amanhã, o homem que tem vencido todos os escrutínios a que se apresentou (entre 2008 e 2012, proibido pela Constituição de concorrer a um terceiro mandato como presidente, voltou à chefia do governo) promete ficar no poder pelo menos até 2024. Um recorde de longevidade na Europa, mas ainda longe do recorde mundial, hoje detido por Teodoro Obiang Nguema, à frente da Guiné Equatorial desde 1979.

Nas quase duas décadas da era Putin, o mundo mudou. Basta pensar que, em 1999, Bill Clinton era presidente dos EUA, o Brasil era governado por Fernando Henrique Cardoso e a China por Jiang Zemin, Tony Blair era primeiro-ministro britânico, José María Aznar chefiava o governo espanhol, Jacques Chirac presidia França e em Portugal António Guterres, hoje secretário-geral da ONU, chefiava o executivo.

Também a Rússia está hoje bem diferente do que era em 1999. Depois de uma década e meia de instabilidade entre as reformas dos últimos anos da era soviética e os primeiros anos após a queda da URSS - fim da ideologia, crise económica e o agravar das desigualdades -, Putin tornou-se um verdadeiro pilar para muitos russos. Conseguiu domar os oligarcas, acabou com a guerra na Chechénia e com o domínio do Partido Comunista e afastou os opositores. Mas também encontrou obstáculos, da tragédia do Kursk - 118 marinheiros morreram quando o submarino nuclear afundou-se no mar de Barents - à crise dos reféns na escola de Beslan, passando pelas mortes suspeitas de opositores - da jornalista Anna Politkovskaya até Boris Nemtsov - ou a recente crise com o Reino Unido, devido às acusações de Londres de que Moscovo estará por detrás da tentativa de envenenamento de Sergei Skripal em Salisbury (ver texto ao lado).

Homem-forte do Kremlin, Putin gosta de alimentar essa imagem - seja publicando fotografias a cavalgar em tronco nu ou a desafiar o Ocidente quando contesta o respeito pelos direitos humanos na Rússia. Sob sanções internacionais devido à anexação da Crimeia em 2014 e do alegado apoio aos separatistas pró-russos no Leste da Ucrânia, a Rússia está também envolvida na guerra da Síria, onde apoia as forças leais ao presidente Bashar al-Assad. E a sua alegada ingerência nas eleições americanas de 2016 está a ser investigada.

Neste contexto não faltarão desafios para Putin nos próximos seis anos, com o presidente a ter de deixar o Kremlin em 2024. A ser assim teria passado 25 anos no topo (mesmo assim menos quatro do que Estaline). Na Europa só a chanceler alemã Angela Merkel, no poder desde 2005 e que agora iniciou o quarto mandato, se aproxima da longevidade de Putin. Mas na Ásia Central, Nursultan Nazarbayev, no Cazaquistão, e Emomali Rahmon, no Tajiquistão, estão no cargo há 28 e 25 anos respetivamente. Sem falarmos nos monarcas (em que Isabel II com os seus 66 anos de reinado é recordista absoluta), entre os líderes eleitos, os africanos continuam os mais longevos nos cargos. Mesmo depois da saída em 2017 de José Eduardo dos Santos, após 38 anos no poder em Angola, e do derrube de Robert Mugabe no Zimbabwe, após 37 anos à frente do país, Obiang ainda tem boa companhia. De Denis Sassou Nguesso no Congo (34 anos) a Yoweri Museveni no Uganda (32 anos). Hun Sen, primeiro-ministro do Camboja desde 1985, faz-lhes concorrência na Ásia.

Sobre os longos anos no poder, o próprio Putin já garantiu que se trata do "destino". Ele, que quando chegou à presidência na véspera de Ano Novo de 1999 se apresentou como um mero gestor contratado pelo povo russo por um mandato, parece pouco disposto a sair do poder. Quando por lei teve de deixar a presidência, passou quatro anos pelo cargo de primeiro-ministro antes de regressar. Agora a dúvida, mais do que o resultado nas eleições de amanhã é saber o que pode acontecer dentro de seis anos. Se Putin volta a arranjar um nome leal como foi Dmitri Medvedev para pôr na presidência, mantendo a influência, ou se parte para a reforma aos 71 anos.

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