Constituinte toma posse após denúncias de manipulação

Presidente deu posse aos 545 membros da Assembleia Constituinte, apesar de empresa revelar que houve menos um milhão de eleitores do que o referido pelo Conselho Eleitoral

Os 545 membros da Assembleia Constituinte têm previsto marchar hoje até ao Palácio Legislativo, sede da Assembleia Nacional eleita em dezembro de 2015 na qual a oposição tem a maioria. "Chegaremos com os retratos do libertador Simón Bolívar e do comandante [Hugo] Chávez ao Palácio Legislativo, de onde nunca mais vão sair", disse Delcy Rodríguez, a ex-chefe da diplomacia venezuelana que foi uma das eleitas no domingo. Será a guerra das marchas, já que os opositores convocaram um protesto contra a "fraude constituinte". A empresa responsável pelas máquinas de votação denunciou que houve manipulação da participação. "Não nos vamos distrair porque eles vão sempre gritar fraude", reagiu Rodríguez.

A Smartmatic revelou ontem que há uma diferença de cerca de um milhão de eleitores entre os números registados e os anunciados pelo governo - 8,1 milhões de acordo com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), o que seria superior aos 7,6 milhões que votaram no referendo simbólico da oposição contra esta Constituinte. "Uma auditoria permitirá conhecer a quantidade exata de participação. Estimamos que a diferença entre a quantidade anunciada e a que dá o sistema é de pelo menos um milhão de eleitores", indicou o diretor da empresa, o venezuelano Antonio Mugica, em Londres.

A multinacional de origem venezuelana é a responsável pela plataforma tecnológica usada nas eleições na Venezuela desde 2004. Questionado sobre se tinha informado o CNE em relação às suas conclusões, Mugica respondeu que não: "Pensámos que as autoridades não iriam gostar do que tínhamos para dizer." Segundo o diretor, a empresa passou os últimos dois dias a garantir que o que ia dizer era verdade. "Não sentimos que alertar as autoridades do CNE antes de fazer esta declaração fosse o correto."

Ainda antes desta denúncia, a Reuters revelava ter tido acesso a dados internos do CNE que mostravam que, até às 17.30, só tinham votado 3,7 milhões de eleitores, levantando dúvidas sobre os números da participação. De acordo com o governo, esta foi de 8,1 milhões (41,5% dos inscritos). "Apesar de ser possível um impulso tardio no final do dia, e o Partido Socialista Unido da Venezuela tentou fazê-lo no passado, duplicar os votos na última hora e meia seria sem precedentes", disse à agência de notícias a cientista política Jennifer McCoy, que liderou várias missões de observação à Venezuela para o Centro Carter.

A Assembleia Nacional, onde a oposição tem a maioria, já anunciou que vai pedir uma investigação à alegada manipulação. "A Constituinte não só foi uma fraude, como todos os resultados foram fraudulentos", disse o líder da Assembleia Nacional, Júlio Borges. A oposição adiou para hoje o protesto que tinha convocado para ontem, com o objetivo de denunciar a "fraude constituinte". Haverá por isso uma guerra das marchas, já que o governo planeia que os 545 deputados constituintes marchem até ao Palácio Legislativo, a partir da Avenida Libertador, às 09.00 (14.00 em Lisboa). O líder da Comissão Presidencial da Constituinte, Elías Jaua, apelou aos venezuelanos para que os acompanhem.

Os membros da Constituinte prestaram ontem juramento diante de Maduro, numa cerimónia no Poliedro de Caracas. Uma das primeiras decisões esperadas dos membros desta assembleia será a eliminação da imunidade parlamentar dos deputados e obrigá-los a responder pela violência nos protestos contra o governo - desde 1 de abril já morreram 120 pessoas.

Entretanto, a oposição denuncia que Antonio Ledezma está incomunicável. O ex-autarca da Grande Caracas estava em prisão domiciliária e foi levado para a prisão militar de Ramo Verde com Leopoldo López, cuja mulher, Lilian Tintori, estará grávida. O presidente dos EUA, Donald Trump, exigiu a libertação dos dois presos políticos, considerando Maduro "pessoalmente responsável pela saúde e a segurança" de ambos.

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