Condenação de líderes do Occupy Hong Kong gera críticas

Nove líderes do chamado movimento dos guarda-chuvas amarelos declarados culpados por incitação de distúrbios públicos. Pequim expressou total apoio ao passo que o último governador britânico de Hong Kong disse que decisão judicial acentua fraturas.

Quatro anos e meio após os protestos pró-democracia que ficaram conhecidos como movimento dos guarda-chuvas amarelos, um tribunal de Hong Kong considerou culpados nove dos líderes das manifestações que se estenderam ao longo de quase três meses. Entre eles encontram-se Chan Kin-man, de 59 anos, professor de sociologia, Benny Tai, de 54 anos, professor de Direito, e Chu Yiu-ming, de 74 anos, ministro da Igreja Batista de Chai Wan em Hong Kong.

Os três dirigentes tinham lançado em 2013 o Occupy Hong Kong - que se veio a concretizar no final de setembro de 2014 - como forma de pressionar o governo central chinês a aceitar um sistema de eleição direta do chefe do executivo da antiga colónia britânica através de sufrágio universal numa base aberta e competitiva.

As autoridades em Pequim colocaram em cima da mesa, em 31 de agosto de 2014, uma proposta que limitava a um máximo de três candidato as eleições para líder do governo, que por sua vez teriam que ter a luz verde de um comité de validação composto que na prática seria composto por apoiantes do campo pró-China.

O plano gerou de imediato protestos que evoluíram para grande manifestações que se foram adensando até que a 25 de setembro de 2015 teve início o movimento dos Guarda Chuvas que ao longo de semanas levou à paralisação de partes do centro financeiro da ilha de Hong Kong e da península de Kowloon.

Dirigentes prometem não baixar os braços

Benny Tai, Chan Kin-man e Chu Yiu-ming foram esta terça-feira considerados culpados de conspiração para perturbar a ordem pública, de incitarem ao motim através da obstrução ilegal de lugares públicos, bem como de incitar e mobilizar manifestantes "para alterar a ordem pública". Seis outros ativistas, incluindo os deputados da oposição pró-democracia Tanya Chan e Shiu Ka-chun, foram também declarados culpados de incitação para cometer distúrbios públicos, incorrendo em penas de prisnao até sete anos de prisão. Outros líderes, mais jovens, do movimento foram condenados a penas de prisão nos últimos dois anos.

Após ouvirem a decisão, os nove ativistas tinham à sua espera mais de uma centena de apoiantes que ecoavam palavras de ordem como "desobediência civil sem medo" ou "queremos um verdadeiro sufrágio universal".

À entrada para o tribunal, o professor de direito da Universidade de Hong Kong Benny Tai tinha ditto que independentemente da decisão judicial a luta pela democracia iria continuar e que não iriam desistir.

As críticas de Patten e o apoio de Pequim

Entretanto, multiplicaram-se reações de crítica à condenação por parte de organiações não governamentais como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch. Quem também fez ouvir a sua voz foi Chris Patten, o último governador britânico de Hong Kong até à transferência de soberania para a China em 1997. Para este, agora era o momento para a reconciliação e união e não para uma "decisão claramente fraturante que faz uso de acusações com base em termos anacrónicos da common law numa retaliação face a acontecimentos que tiveram lugar em 2014", afirmou, citado pelo jornal online Hong Kong Free Press. Já o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China declarou "total o apoio às autoridades de Hong Kong na punição dos principais organizadores do movimento ilegal Occupy Central de acordo com a lei"

Para o cientista político Sonny Lo, professor na Universidade de Hong Kong, esta decisão era previsível. "Apesar de os ativistas originalmente terem asseverado que iriam adotar métodos pacíficos de protesto na procura da justiça e democracia, as suas ações foram encaradas como ilegais e numa perspetiva da manutenção da lei e ordem os fins não justificaram os meios". Os olhos estarão agora colocados na sentença que determinará as penas. "Os cidadãos de Hong Kong estiveram muito divididos acerca do movimento Occupy e as opiniões permanecerão muito polarizadas no longo prazo como resultado deste processo", analisa em declarações ao Plataforma Media.

*Jornalista do Plataforma Media

Exclusivos