Como as mulheres derrubaram Omar al-Bashir no Sudão

As mulheres saíram à rua e não desistiram de lutar pela queda Omar al-Bashir. A primeira de muitas lutas num país africano de maioria muçulmana em que são diminuídas pela lei e pela prática da mutilação genital feminina.

Quando o general Omar al-Bashir tomou as rédeas do poder num golpe, em junho de 1989, mais de 60% da atual população de 43 milhões ainda não tinha nascido. Apoiado pela Frente Islâmica Nacional, personificou um regime autoritário e islamista com a introdução de leis que reprimem os direitos dos cidadãos - em especial das mulheres. Na quinta-feira, o militar viu o exército entrar no palácio presidencial e detê-lo.

Foi o fim de um capítulo iniciado em dezembro quando o aumento do preço do pão foi o gatilho para os protestos nas ruas de um país assolado pela inflação, com uma economia estagnada e que perdeu 75% dos recursos petrolíferos com a separação do Sudão do Sul, em 2011. Ao contrário, por exemplo, dos protestos na vizinha Argélia, que se podem atribuir aos estudantes com o apoio da população em geral, a revolta sudanesa tem a particularidade de ter sido liderada pelas mulheres.

Unidas em redes sociais como o grupo privado no Facebook Minbar-Shat (que significa "amor extremo"), em organizações como a No to Women's Oppression Initiative ou a internacional Women Human Rights Defenders from the Middle East and North Africa (WHRDMENA) e ainda através do sindicato Sudanese Professionals Association (SPA), as mulheres tomaram as ruas, organizando as manifestações, dando o sinal com as vocalizações típicas da região (zaghareet ou zaghrouta) a exprimir celebração ou com cânticos.

Segundo algumas estimativas, as mulheres chegaram a representar 70% dos manifestantes, apesar de terem sido reprimidas de forma violenta por parte das forças de segurança e de relatos de tortura e de assédio sexual. Mais de 50 pessoas terão morrido às mãos dos agentes de segurança.

Al-Bashir, acusado de crimes contra a humanidade e genocídio pelo Tribunal Penal Internacional pela campanha levada a cabo na região do Darfur, decidiu decretar o estado de emergência em 22 de fevereiro. Mas a tentativa de repressão virou-se contra o presidente. Na véspera do Dia da Mulher, 7 de março, uma nova e grande manifestação deu novo alento à população. "As pessoas estão muito zangadas com as leis de emergência", disse Nuha Bakheet, a líder do SPA à CBS. "As mulheres no Sudão eram conhecidas como guerreiras, políticas e pioneiras contra o colonialismo", uma referência quer ao passado das rainhas guerreiras que governaram a Núbia há mais de 2000 anos, quer a ativistas como a primeira médica, Khalida Zahir, que em 1946 se manifestou contra o colonialismo britânico, ou a primeira deputada sudanesa, Fatima Ahmed Ibrahim.

Feminista (e comunista) Ibrahim fundou e dirigiu a revista Sawt al-Mara (A Voz das Mulheres). Fatima Ahmed Ibrahim sofreu na pele por defender os seus ideais. Os fundamentalistas religiosos dizem que a voz das mulheres não tem lugar na sociedade, é "imodesta" (sawt al-mara awra). E agora as mulheres respondem nas ruas: "Sawt al-mara thawra" - a voz das mulheres é revolucionária.

Ícone da revolta

Alaa Salah, uma estudante universitária de engenharia e arquitetura de Cartum, tornou-se no ícone da revolta sudanesa devido a uma imagem que se tornou viral.

De dedo brandido a cantar e de vestes tradicionais (toub), em cima de um carro entre a multidão, Alaa Salah ganhou notoriedade global em poucas horas. "As mulheres sudanesas sempre participaram nas revoluções", disse à AFP. "Faz parte da nossa herança."

No Twitter escreveu: "Eu queria subir ao carro e falar com as pessoas... denunciar o racismo e o tribalismo em todas as suas formas, algo que afeta a todos. Queria falar em nome da juventude. Queria expressar-me e dizer que o Sudão é para todos nós. E cada vez que as pessoas respondiam 'revolução!' fiquei ainda mais entusiasmada. Precisamos de apoio internacional, de alertar as pessoas para o que está a acontecer e que compreendam as nossas exigências."

A luta continua

As mulheres e os sudaneses em geral festejaram a queda de al-Bashir, mas não ficaram satisfeitos com a tomada de poder de outros militares, que dizem liderar um período de transição de dois anos. Alaa Salah, também no Twitter, resumiu o sentimento de muitos: "O povo não quer um conselho militar de transição. A mudança não acontecerá com todo o regime de Bashir a enganar os civis sudaneses através de um golpe militar. Queremos um conselho civil que lidere a transição."

Mas se Salah se tornou numa celebridade à escala global que não se importa de ser comparada com as rainhas da antiguidade (as candaces), outras ativistas reagiram mal a essa evocação. Conta a jornalista Zeinab Mohammed Salih, na BBC, que a dado momento dos protestos, no dia 9 de março, o sindicato SPA convocou uma manifestação com o objetivo de limpar as ruas num comunicado dirigido às mulheres. "Quando é o dia da limpeza? É sábado, candace - sim, tu, porque preocupas-te mais com o assunto". No dia seguinte a presidente do SPA teve de pedir desculpas: as mulheres não querem ser vistas como rainhas nem como empregadas de limpeza.

Se a vida não é fácil num país que desde a independência, em 1956, tem vivido de ditadura em ditadura, mais difícil ainda para as mulheres, em especial desde a chegada ao poder de al-Bashir. Ao introduzir a lei islâmica no código penal, o militar que chegou a abrigar Osama bin Laden nos anos 90 fez retroceder ainda mais os direitos das mulheres. Não usar véu ou usar calças é considerado "obsceno" e "pode causar indignação pública", pelo que podem ser presas e castigadas com castigos corporais.

O caso da jornalista Lubna Hussein, em 2009, foi famoso. Presa por usar calças, arriscou receber 40 chicotadas para que o seu caso fosse notícia e se alterasse a lei. Mas passados dez anos nada mudou para melhor. Estima-se que de 40 mil a 50 mil mulheres são detidas e chicoteadas em cada ano devido ao vestuário. As leis restringem também as mulheres de estarem a sós com um homem.

Por fim, mas não menos importante. A mutilação genital feminina é uma chaga de proporções tremendas no Sudão. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, 87% das mulheres entre os 15 e os 49 anos sofreram esta prática criminosa, com a maior parte a ser vítima entre os cinco e os nove anos.

Enquanto fechou os olhos a este horror institucionalizado, Omar al-Bashir manteve dois casamentos e advogou a prática da poligamia como forma de resolver problemas sociais.

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