Premium "Colômbia acabou com uma guerra de 50 anos e ninguém devia pôr isso em risco"

María Ángela Holguín. Foi durante oito anos ministra dos Negócios Estrangeiros de Juan Manuel Santos, o presidente colombiano que fez a paz com as FARC e ganhou o Nobel. Falou com o DN em Lisboa, onde participou no VIII Encontro Estratégico América Latina, Europa e África organizado pelo IPDAL.

Hoje, quando olha para a Colômbia, está satisfeita com a evolução do processo de paz com as FARC, com a pacificação da sociedade e com o desenvolvimento do país?
Nós colombianos não vimos a dimensão e a importância do que é desenvolver o acordo de paz e tirar proveito dele. Ainda estamos a discutir se demos de mais ou se devíamos dar menos às FARC e no fundo estamos a perder a floresta, só vemos as árvores. Há toda uma discussão sobre a justiça transicional, sobre a lei que se aprovou no Congresso. O governo quis mudar alguns artigos, mas o Tribunal Constitucional e o Congresso não foram recetivos. O que se passa é que estamos outra vez divididos, uma polarização que não ajuda nada, depois do grande resultado dessa ideia que podia ter realmente unido os colombianos: a paz.

O presidente Iván Duque não assumiu todo o legado de Juan Manuel Santos?
O governo do presidente Duque tem reservas sobre alguns temas do acordo de paz, então continuam sem o implementar da forma que se esperava que o fizessem: a implementação de um acordo assinado que já era uma lei, parte da Constituição, e que sem dúvida era boa para o país.

Há perigo de regresso à luta armada?
Agora, infelizmente, perante a incerteza de implementação do acordo, há mais membros da FARC na dissidência. Saíram dos lugares onde estavam e isso faz que haja um risco de que entremos outra vez num conflito que há dois anos lhe diria que estava completamente resolvido. A incerteza traz riscos e o melhor contra a incerteza é poder implementar o acordo que se levou a cabo e em que o presidente Santos trabalhou por acreditar ser o melhor para a Colômbia.

O prémio Nobel da Paz que o presidente Santos ganhou foi um reconhecimento pela comunidade internacional de que o esforço e o resultado eram positivos no geral?
Sim. Foi de facto o reconhecimento pelo esforço de chegar à paz depois de 50 anos de conflito na Colômbia e depois de todos os presidentes o terem tentado fazer. Não houve um único presidente que não tenha tentado fazer um acordo de paz, que não se tenha sentido tentado a dialogar com a guerrilha e ter o resultado que se teve. Claro que contavam as circunstâncias, porque vínhamos de uma melhoria em matéria de segurança, porque se preparou a comunidade internacional, que deu um apoio muito grande, e que por diferentes razões aconteceu naquele momento.

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