Cinco anos de prisão para ex-SS "cúmplice" na morte de 170 mil em Auschwitz

Guarda do campo era acusado de responsabilidade em homicídio agravado ainda que sem envolvimento direto em execuções.

A justiça alemã condenou a cinco anos de prisão um ex-SS, que foi guarda no campo de concentração de Auschwitz, considerando-o "cúmplice" na morte de cerca de 170 mil pessoas entre janeiro de 1943 e junho de 1944.

Reinhold Hanning, de 94 anos, prestou serviço no campo desde o início de 1942, sendo o seu processo parte de um grupo de ações iniciadas pela justiça alemã nos últimos cinco anos contra antigos guardas e outros elementos afetados a campos de concentração ou de trabalho forçado durante a Segunda Guerra Mundial.

Estão em curso, no total, 11 inquéritos judiciais, três a outros antigos guardas de Auschwitz, três a guardas do campo de Majdanek e a três elementos da divisão SS Hitlerjugend. Nos restantes dois casos, que abrangem uma antiga telegrafista de Auschwitz, de 92 anos, e um antigo enfermeiro no mesmo campo, hoje com 95 anos, está a ser analisado o estado de saúde de ambos para decidir ou não da continuação dos processos.

A avançada idade de todas as pessoas envolvidas nos 11 levava ontem os media a considerarem que o julgamento de Hanning terá sido a última ocasião em que um criminoso de guerra nazi foi condenado.

Hanning permaneceu em silêncio e imóvel ao longo de todo o julgamento, que decorreu na cidade de Detmold e se iniciou a 11 de fevereiro, a maior parte do tempo de olhos baixos. Numa intervenção em abril pediu perdão às vítimas, dizendo então que tinha "vergonha de ter deixado suceder tantas injustiças, que conhecia perfeitamente, e de nada ter feito para as impedir".

O ex-SS integrou a Juventude Hitleriana antes de combater em França e na Ucrânia, onde foi gravemente ficou ferido e impossibilitado de regressar à frente de combate, sendo então transferido para o serviço do campo. Descrito como um "elemento da engrenagem" pela acusação, Hanning não foi acusado de nenhum crime específico, derivando a responsabilidade que lhe foi imputada da natureza do crime: extermínio em massa ou, na linguagem jurídica, "cumplicidade em homicídio agravado", ainda que sem envolvimento direto. Para a acusação, era claro que o militar "sabia que em Auschwitz eram assassinadas todos os dias pessoas inocentes".

Por seu turno, os advogados das partes civis - judeus que passaram pelo campo - salientaram que, pela primeira vez, a justiça alemã iria punir o papel de um SS nas "diferentes formas" de extermínio: a morte devido às condições de vida dos presos, as câmaras de gás e as execuções sumárias.

Para o presidente do Congresso Judaico Mundial, Ronald S. Lauder, Hanning "teve a sentença merecida" e o seu processo "constituiu um grande passo, ainda que tardio" naquilo que respeita "às mortes em massa sucedida em Auschwitz. A sentença não é, contudo, definitiva. Quer os advogados de Hanning quer a acusação podem recorrer da decisão do tribunal até à próxima sexta-feira.

Até hoje, segundo números oficiais, 106 mil militares foram acusados de crimes de guerra, dos quais 13 mil foram julgados. Destes últimos, cerca de 6500 condenados.

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