Cinco anos da morte de Bin Laden: selfies, álcool, eleições e Estado Islâmico

Em Abbottabad, o complexo onde se escondia o líder da Al-Qaeda foi demolido, quem lá vai agora tira selfies ou joga críquete

Quando na noite de 1 de maio de 2011 Sohaib Athar começou a tweetar sobre uns estranhos helicópteros a sobrevoar um campo militar de Abbottabad, estava longe de imaginar que seria ele a anunciar ao mundo, já durante a madrugada de dia 2, que o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, tinha sido eliminado. Ultrapassado pela realidade da velocidade da informação nas redes sociais, Athar, um consultor informático oriundo de Lahore a viver em Abbottabad com a família desde 2009, acabou o dia 2 de maio de 2011 a tweetar, por volta do meio-dia: "Bin Laden morreu. Não fui eu que o matei. Agora deixem-me dormir."

No Twitter chegou a ter cem mil seguidores, hoje são 54 mil, contou numa conversa com a CNN. No auge da histeria com a morte do inimigo número um dos EUA, Athar chegou a contabilizar 200 pedidos de entrevistas e exclusivos e foi convidado para palestras sobre jornalismo cidadão no Texas. Afinal, ele tinha noticiado a morte de Bin Laden muito antes dos principais media internacionais. À CNN contou que foi ouvido por juízes, chegou a ser acusado de ser um agente da CIA ou do ISI [serviços secretos militares paquistaneses] ou uma personagem fictícia criada por essas mesmas agências.

Passados cinco anos sobre a morte do líder terrorista, o consultor informático diz que pensa ir viver para Islamabad e que continua a achar que nada fez de especial. Quanto a Abbottabad, Athar conta que a vida voltou ao normal pouco depois da morte de Bin Laden e de o complexo onde este se escondera ao longo de vários anos ter sido alvo de demolição em 2012. "Neste momento é apenas um pedaço de terreno, liso, onde as crianças vão agora jogar críquete", descreve, notando que ainda há alguns admiradores do líder da Al-Qaeda que ali vão para rezar (recorde-se que depois de capturado e abatido pelos Navy Seals da Team 6, Bin Laden foi atirado ao mar Arábico para evitar precisamente a criação de um local de culto). Há também quem vá a Abbottabad e aproveite para tirar algumas selfies. "Até os meus familiares e amigos, cada vez que vêm aqui, nem que seja pela primeira vez, eles vão até lá e tiram selfies para depois partilharem no Facebook", confessa ainda à CNN Sohaib Athar.

Equipa de Seals

Cinco anos depois da morte do homem cuja ideologia inspirou os atentados do 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, do 11 de Março em Espanha e de 7 de julho no Reino Unido, muitos dos membros da equipa dos Seals que participaram na operação em solo paquistanês morreram também. E os que estão vivos decidiram identificar-se e quebrar o sigilo habitual nestas situações. Rob O"Neill disse numa entrevista ao The Washington Post, em 2014, que foi ele o autor do disparo final contra Bin Laden. No início de abril foi detido por conduzir alcoolizado no Montana. Um outro, Matt Bissonnette, contou o que aconteceu em Abbottabad no livro No Easy Day.

Do lado dos dirigentes políticos, Barack Obama está em fase de despedida da Casa Branca, tal como o vice-presidente, Joe Biden. Robert Gates, então secretário da Defesa, teve entretanto vários sucessores: o atual líder do Pentágono é Ashton Carter. Hillary Clinton, que era na altura secretária de Estado dos EUA e surgiu com um ar aterrorizado na fotografia que foi captada na Situation Room, foi substituída no cargo por John Kerry e é agora uma forte candidata à nomeação democrata para as presidenciais norte-americanas de 8 de novembro. Do lado dos republicanos, a também ex-primeira-dama dos EUA poderia ter de enfrentar Donald Trump, que prometeu expulsar os muçulmanos do país e ainda avisou todos potenciais terroristas: "Trarei de volta [técnicas de tortura] muito piores do que o waterboarding [simulação de afogamento]."

Mas a retórica de Trump tem servido de acha para a fogueira e a sua imagem e as suas ameaças aparecem mesmo em vídeos que visam recrutar terroristas. Mais do que os restos da Al-Qaeda e os grupelhos ainda a ela associados, no que toca ao terrorismo a maior dor de cabeça dos EUA e da Europa chama-se agora Estado Islâmico (EI). Herdeiro direto ou metamorfose da rede baseada na ideologia promovida e divulgada por Bin Laden, este grupo controla vastas áreas na Síria e no Iraque e já reivindicou vários atentados em França e um na Bélgica.

O líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, é um dos sucessores de Abu Musa al-Zarqawi, o jordano que liderou a Al-Qaeda no Iraque e acabou morto pelos EUA em 2006. Al-Baghdadi passou cinco anos preso em Camp Bucca, centro de detenção dos EUA no Iraque, onde contactou com outros radicais e acentuou o seu extremismo e desejo de vingança contra tudo o que tivesse que ver com os EUA. Hoje em dia os terroristas do Estado Islâmico pilham, matam, violam, destroem e recrutam militantes, muitos deles europeus, para atacarem o que dizem ser os infiéis, ou seja, EUA, Europa e todos os que diferem da sua ideologia. Quando Bin Laden morreu, Al-Baghdadi prometeu vingar sua morte com cem atentados no Iraque. Hoje já ultrapassou em muito esse objetivo.

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