China atingida em cheio pelos Papéis do Panamá

Investigação. Genro do presidente é um dos nomes com ligações a offshores. Censura tentou travar divulgação do escândalo

Pelo menos dez membros da elite política chinesa aparecem implicado no caso Papéis do Panamá, através de familiares que detêm companhias offshore. A rede de ligações chega até ao topo, atingindo mesmo Xi Jinping, o presidente do país.

Além do chefe de Estado, há mais dois nomes do atual Politburo - direção do Partido Comunista Chinês (PCC) - mencionados nos documentos que agora vieram a público. O genro de Zhang Gaoli, vicepresidente do país, foi acionista de três empresas domiciliadas nas Ilhas Virgens Britânicas. E a nora de Liu Yunshan, chefe de propaganda do partido, chegou a ser diretora e acionista de uma companhia localizada no mesmo paraíso fiscal.

No caso do presidente do país, a ligação surge através do cunhado. Deng Jiagui, casado com a irmã mais velha de Xi Jinping e que já tinha sido mencionado em 2014 num outro escândalo fiscal divulgado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, aparece agora ligado a outras três offshore. Ainda que nenhuma delas estivesse no ativo em 2012, quando Xi ascendeu ao cargo de secretário-geral do PCC, esta revelação ensombra a legitimidade do presidente, que tem feito da luta contra a corrupção o cavalo de batalha da sua liderança.

As ligações da elite chinesa aos paraísos fiscais vêm agora à tona pela análise de documentos do escritório de advogados Mossack Fonseca, obtidos pelo jornal germânico Süddeutsche Zeitung.

Apesar de não ser ilegal que os cidadãos chineses detenham companhias offshore - e que nenhum documento permita concluir que os líderes políticos retiraram vantagens pessoais diretas das ações dos seus familiares -, a divulgação dos Papéis do Panamá incomoda e muito a elite dirigente pelo foco que coloca nas suas fortunas. A prova disso é a forma como a censura chinesa, nos últimos dias, tentou travar a divulgação do escândalo. "Alguns órgãos, incluindo a CNN, revelaram que parte dos seus sites foram bloqueados", escreve o The Guardian.

Teenager offshore

Outro dos políticos mencionados na investigação é Jia Qinglin, membro do Politburo entre 2002 e 2012, durante a presidência de Hu Jintao. A sua neta, Jasmine Li, tornou-se, em 2010, a única acionista de duas empresas nas Ilhas Virgens quando ainda era adolescente e tinha acabado de começado a estudar na Universidade de Stanford, nos EUA.

Li Peng, primeiro-ministro chinês aquando do massacre de Tiannamen, é outro dos visados, neste caso devido às atividades da sua filha, Li Xiaolin, cujo nome aparece ligado a várias offshore.

Os Papéis do Panamá vêm acrescentar ainda mais ingredientes ao caso policial protagonizado por Bo Xilai - ex-membro do Politburo e ex-ministro do Comércio - e pela sua mulher, Gu Kailai. Os dois encontram-se atualmente a cumprir prisão perpétua. Ele por corrupção e abuso de poder. Ela pelo envenenamento mortal do britânico Neil Heywood, em 2011, com quem mantinha negócios. Documentos agora tornados públicos mostram ao detalhe os esforços que foram feitos para encobrir a verdadeira proprietária de uma luxuosa moradia em Cannes: Gu Kailai. A propriedade da residência - que se encontrava registada em nome de Heywood - foi secretamente alterada duas semanas depois de o britânico ter sido morto com veneno para ratos num hotel em Chongqing.

Nem o falecido e lendário Mao Tsé-tung, fundador da República Popular da China, escapa aos Papéis do Panamá, graças ao envolvimento do marido de uma das suas netas no escândalo fiscal.

Violoncelista benemérito

Vladimir Putin falou ontem pela primeira vez sobre as suspeitas que recaem sobre si devido ao facto de um amigo seu, Sergei Roldugin, violoncelista, surgir mencionado nos Papéis do Panamá. "Ele não fez nada de errado. Investe o dinheiro que ganha na compra de instrumentos musicais que tem vindo a doar a instituições públicas", afirmou o presidente russo. "Os nossos adversários estão preocupados com a união da nação russa", disse ainda Putin, alegando que as fugas de informação fazem parte de uma tentativa orquestrada para desestabilizar o país.

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