Cartoonista despedido de jornal por gozar com Trump

Rob Rogers foi despedido do jornal onde trabalhava há 25 anos depois de, nos últimos meses, ter visto várias das suas propostas recusadas.

"Após 25 anos como cartoonista editorial do The Pittsburgh Post - Gazette, na quinta-feira fui despedido. Culpo Donald Trump", escreveu Rob Rogers num artigo de opinião publicado ontem no jornal The The New York Times.

A culpa não será diretamente de Trump, diz, mas Rob Rogers acredita que foi despedido porque muito do seu trabalho critica a política do presidente e a sua posição política é divergente da da administração do jornal. No seu texto, conta como, há alguns meses, foi almoçar com o seu novo editor que o informou que, na sua visão, a visão do cartoonista editorial deveria refletir a filosofia do jornal. "Essa era uma novidade para mim", diz. "Fui formado numa tradição em que os cartoonistas editoriais são redes vivas das publicações (...). A nossa função é provocar os leitores de uma forma que as palavras sozinhas não conseguem. Os cartoonistas não são ilustradores das ideias políticas dos editores."

Quando foi contratado pelo The Post - Gazette, em 1993, este era um jornal liberal mas era também um "fórum para uma série de ideias divergentes". A mudança terá começado em 2011, com o apoio ao candidato republicano ao cargo de governador da Pensilvânia - uma posição que, segundo Rogers, chocou a maioria dos leitores. Em 2015, o então editor da secção de opinião, Tom Waseleski, manifestou a sua oposição a um eventual apoio do jornal à candidatura de Trump à presidência. Na sequência desse confronto, tirou uma licença e por fim pediu a reforma, após 33 anos a trabalhar na publicação, 12 dos quais como editor das páginas de opinião.

Em março, Keith Burris foi nomeado editor das páginas de opinião do Post-Gazette e do seu jornal associado, The Toledo Blade. "As coisas mudaram realmente para mim em março, quando a administração decidiu que os meus cartoons sobre o presidente eram 'demasiado zangados' e disse que eu estava 'obcecado com Trump'. Isto a propósito de um presidente que declarou a imprensa livre como uma das grandes ameaças ao país."

"Nem todas as minhas ideias funcionam. Todos os anos, alguns dos meus cartoons são recusados. Mas, de repente, num período de três meses, 19 propostas de cartoons foram rejeitadas." Numa única semana, Rogers teve seis cartoons recusados, todos criticando Trump ou as suas políticas. Entre 24 de maio e 5 de junho, o jornal publicou apenas um dos sete cartoons apresentados por Rogers. Na quarta-feira, o cartoonista anunciou através da sua conta de Twitter que iria tirar férias, contando que os problemas estivessem resolvidos quando regressasse. No dia seguinte, foi despedido.

Um comunicado do "Conselho Editorial" do jornal, lançado na sexta-feira, explica que "nunca houve intenção de silenciar ou reprimir Rogers. Nunca lhe pediríamos que violasse os princípios da sua consciência. Em vez disso, tentámos realizar as necessárias práticas jornalistícas de edição, gatekeeping e colaboração." O problema é que editar um cartoon pode ser muito mais difícil do que editar um texto, uma vez que são trabalhos mais artísticos e que recorrem ao humor, muito mais subjetivos, tornando mais complicada a argumentação sobre a sua qualidade.

"Nós discutimos com os nossos editores a toda hora", comentou Pat Bagley, presidente da American Association for Editorial Cartoonists. No entanto, em mais de 40 anos de atividade, Bagley nunca tinha visto uma situação como esta.

Rob Rogers é um cartoonista premiado e finalista dos Prémios Pulitzer. No texto que publicou no The New York Times deixou uma promessa: "O jornal pode ter apagado os meus cartoons. Mas eu tenciono continuar à minha secretária todos os dias durante o mandato deste presidente."

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