Cartazes, greve e marchas: semana quente na Venezuela

Continuam as ações da oposição contra a Constituinte do próximo domingo. Presidente Nicolás Maduro não desiste

"É preferível morrer de pé, do que viver de joelhos!", "Este centro anula a Constituinte" ou "Maduro ditador e assassino de estudantes". Estes eram alguns dos cartazes colados ontem à porta dos centros de votação para a Assembleia Constituinte, em mais uma ação da oposição venezuelana para tentar impedir o que considera uma "fraude". O "pancartazo", como é conhecido este tipo de protesto, marca o início de uma semana quente planeada para travar os planos do presidente Nicolás Maduro, que inclui dois dias de greve geral e uma marcha antes do "boicote cívico" à eleição.

"A luta deve continuar. O povo venezuelano deve lançar a greve geral, vir a Caracas e preparar o boicote cívico", disse o vice-presidente da Assembleia Nacional, Freddy Guevara, citado pela agência francesa AFP . É um "boicote cívico, sem armas, sem violência, mas com determinação. Que ninguém ache que vamos deixar-nos escravizar sem combate", acrescentou o deputado da opositora Mesa da Unidade Democrática.

A 16 de julho, a oposição fez um referendo simbólico contra a Constituinte, no qual participaram mais de 7,5 milhões de pessoas. Seguiu-se uma greve geral de 24 horas na quarta-feira (que resultou em confrontos e na morte de cinco pessoas), a apresentação de um acordo de governabilidade na quinta e a nomeação de juízes alternativos para o Supremo Tribunal de Justiça na sexta. Esta semana não será mais calma: depois do pancartazo de ontem, seguem-se 48 horas de greve geral (amanhã e quinta-feira) e uma marcha de protesto na sexta.

"Este não é o momento de nos rendermos ou de entrarmos em pânico, estamos nas horas decisivas do futuro do nosso país", explicou Guevara . "Que seja claro para Maduro e para o exército que nós não vamos ceder, que nós não vamos permitir que ele imponha uma fraude constituinte ao povo", concluiu. Os 545 membros da assembleia, que serão eleitos no domingo, poderão reescrever a Constituição de 1999, feita no primeiro mandato do falecido presidente Hugo Chávez.

Face à Constituinte que dará ao governo o "poder total", a oposição "converte-se num kamikaze disposto a fazer tudo para a parar", escreveu Luis Vicente León, presidente da empresa de sondagens Datanálisis no site Prodavinci.com. Lembrando que a oposição está a tentar usar os "instrumentos naturais da sua luta" como o referendo simbólico, a greve, os protestos, Vicente León avisa que "o problema é que se mistura, sem querer, com ações violentas" de "atores que acreditam que não se deve seguir a liderança formal e que se tornam incontornáveis". E questiona: "Qual a diferença entre um governo que obriga um empregado público a votar (mesmo que este não queira) e uma oposição que obriga uma padaria a fechar (mesmo que também não queira)?" Uma estratégia que está a gerar "mais pobreza" e "divisão", alerta, apelando ao diálogo.

"Esta semana que agora se inicia será uma semana muito intensa do ponto de vista político", disse ontem o chefe da diplomacia portuguesa, Augusto Santos Silva, à margem do encontro de professores do ensino português no estrangeiro, em Lisboa. "O que nós esperamos é que todas as partes possam conduzir a sua ação no sentido de se procurar chegar a um acordo político, porque aquilo que a Venezuela precisa é de um acordo político, de uma estabilização do quadro político-institucional e da retoma do calendário eleitoral", defendeu Santos Silva.

A União Europeia já apelou a Maduro para que suspenda o processo da Constituinte e advertiu que "todas as opções", incluindo sanções, estão em cima da mesa. Também os EUA, principal mercado do petróleo venezuelano, ameaçam com o mesmo. "A direita imperial acredita que pode dar ordens à Venezuela. Os únicos que aqui dão ordens são as pessoas", disse o presidente venezuelano no seu programa na televisão "Los domingos con Maduro". Apelando à oposição para que deixe os venezuelanos votarem em paz no dia 30, o presidente explicou que centros eleitorais especiais vão ser preparados para substituir os que sejam bloqueados pelos "fascistas".

Desde sexta-feira que foram destacados militares para os centros de votação - que o governo considerou "zonas de proteção especial" - estando previsto que 230 mil estejam ao serviço no domingo. Ontem, segundo a agência Reuters, membros da Guarda Nacional arrancaram os cartazes de protesto colocados pelos opositores em alguns locais de votação, com alguns opositores a gritarem "assassinos". Desde o início dos protestos, em abril, já morreram mais de cem pessoas nos confrontos com as autoridades.

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