Candidato libertado quatro dias antes das eleições na Tunísia

Nabil Karoui, investigado por fraude fiscal e branqueamento de capitais, tem agora oportunidade debater com o outro candidato na televisão. Resultados das legislativas deixam Parlamento ainda mais fragmentado.

O candidato à presidência da Tunísia Nabil Karoui foi libertado quatro dias antes da segunda volta, na mesma altura em que os resultados oficiais das eleições legislativas confirmam uma vitória sem maioria dos islamistas.

À saída da prisão de Mornaguia, a 20 quilómetros de Tunes, quarta-feira à noite, Karoui -- que se diz vítima de perseguição política -- foi recebido em festa. Os seus apoiantes carregaram-no em ombros antes de sair sem prestar declarações.

"É uma notícia maravilhosa, tem sido muito difícil sem ele", disse um dos líderes do seu partido, Osama Khelifi. "Ele quer ir ver o povo tunisino, explicar o seu programa, quer participar nestas eleições e ganhar".

Karoui, empresário e magnata dos media, estava detido desde 23 de agosto, dez dias antes do início da campanha para a primeira volta das eleições presidenciais.

Na quarta-feira, um tribunal de segunda instância decidiu libertar o candidato. Porém, as acusações de fraude fiscal e branqueamento de capitais não foram arquivadas. "O mandado de prisão contra Nabil Karoui foi anulado, a investigação está em andamento, mas ele está livre", disse um de seus advogados, Nazih Souei.

Karoui alcançou 15,58% dos votos na primeira volta das eleições presidenciais, atrás do advogado, ex-professor universitário e comentador televisivo Kaïs Saïed, 18,4%.

Na sexta-feira à noite deverá participar num debate televisivo com o "professor Marcelo da Tunísia", favorito à vitória.

Ennahdha perde terreno mas vence

A libertação de Karoui aconteceu na mesma altura em que foram publicados os resultados oficiais das eleições legislativas. A abstenção foi a grande vencedora: 58,7% dos eleitores não se deslocou às assembleias de voto, mais do dobro do que nas eleições de 2014 (31,6%). O partido Ennahdha, de inspiração islâmica, venceu o escrutínio de domingo com 52 lugares em 217.

Apesar de ter perdido 17 lugares ficou ainda assim destacado à frente do partido liberal de Nabil Karoui, Qalb Tounes (Coração da Tunísia), que elegeu 38 deputados. O líder do Ennahdha, Rached Ghannouchi, será chamado a formar governo, uma tarefa que se anuncia complicada dada a fragmentação do Parlamento. De 15 partidos e coligações representados na assembleia passou a haver 19 e até um partido ambientalista se estreia com a eleição de um deputado.

O partido social-democrata Attayar (Corrente Democrática) do ativista dos direitos humanos Mohammed Abbou aumentou o número de lugares na assembleia de três para 22. Em sentido oposto, os vencedores das eleições de 2014, Nidaa Tounes, quase desapareceu do Parlamento. ao dar um tombo de 86 para três lugares.

O novo movimento islamista al-Karama (Coligação pela Dignidade) tem 21 lugares, mais quatro do que o seu opositor, o secularista PDL, fundado por Hamed Karoui, ex-primeiro-ministro de Ben Ali.

Se é verdade que o Ennahdha continua a ser o principal partido no Parlamento, este terá de fazer uma coligação que inclua mais do que um partido para chegar aos 109 lugares. Uma hipótese é a de se aliar ao partido do candidato presidencial libertado, Qalb Tounes, apesar das promessas de não se aliar a este partido. A concretizar-se seria uma nova vida para o anterior governo, apoiado pela coligação Ennahdha e Nidaa Tounes, do qual muitos dirigentes saíram para o Qalb Tounes.

O partido de Nabil Karoui também pode ser tentado a formar uma coligação com os secularistas, os sociais-democratas e outro novo partido, Tahya Tounes (Viva a Tunísia), criado pelo ex-primeiro-ministro Youssef Chahed. Ainda assim, esta aliança não chega para alcançar a maioria dos lugares na assembleia.

Para o diário tunisino La Presse, "a possibilidade de ver todas as tentativas de formar o próximo governo falhar não deve ser descartada".

Esse cenário é do agrado do candidato Kaïs Saïed. É que o comentador televisivo defende uma nova Constituição, na qual os deputados deixam de ser eleitos de forma direta mas através das assembleias locais. "Nos termos da Constituição, se os deputados não depositarem a sua confiança num governo após quatro meses, o presidente pode dissolver a assembleia. Kaïs Saïed vai fazê-lo", estima um apoiante de Saïed ao Liberátion. "Então seremos nós a impor uma mudança de regime. Na rua, se necessário", diz Khalil Abbess.

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