Caetano Veloso."Se Bolsonaro vencer brasileiros podem esperar onda de medo e ódio"

Cantor brasileiro escreveu artigo de opinião no New York Times contra o candidato de extrema-direita. Caetano Veloso diz que se Jair Bolsonaro vencer as eleições presidenciais o Brasil será varrido por uma "onda de medo e ódio".

A três dias da segunda volta das eleições presidenciais no Brasil, Caetano Veloso escreve um artigo de opinião no jornal norte-americano New York Times para alertar os brasileiros para o perigo do regresso aos tempos da repressão no Brasil, com a eleição do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro. "Se Bolsonaro vencer a eleição, os brasileiros podem esperar uma onda de medo e ódio", afirma.

"Já vimos sangue", lembra. "No dia 7 de outubro, um partidário de Bolsonaro esfaqueou meu amigo Moa do Katendê, um músico e mestre de capoeira, por causa de um desentendimento político no estado da Bahia. A sua morte deixou a cidade de Salvador em luto e indignação".

O artigo do cantor brasileiro é sobretudo um apelo à memória do tempo da repressão do final da década de 1969 no Brasil, em que muitos artistas e intelectuais foram presos pelas suas crenças políticas. "Eu era um deles", recorda e garante que os "militares estão de volta".

É por isso que escreve: "Como outros países do mundo, o Brasil está a enfrentar uma ameaça da extrema-direita, uma tempestade de conservadorismo populista. Nosso novo fenómeno político, Jair Bolsonaro, que deve vencer a eleição presidencial no domingo, é um ex-capitão do Exército que admira Donald Trump, mas parece-se mais com Rodrigo Duterte, o homem forte das Filipinas. Bolsonaro defende a venda irrestrita de armas de fogo, propõe uma presunção de autodefesa se um polícia matar um "suspeito" e declara que um filho morto é preferível a um homossexual."

Caetano Veloso recua aos anos 80, quando os brasileiros lutavam por eleições livres, após 20 anos de ditadura militar. "Se alguém me tivesse dito então que algum dia elegeríamos para a presidência pessoas como Fernando Henrique Cardoso e depois Luiz Inácio Lula da Silva, teria soado como uma ilusão. Então aconteceu. A eleição de Cardoso em 1994 e, em seguida, a de Lula em 2002 teve um enorme peso simbólico. Eles mostraram que éramos uma democracia e mudaram a forma da nossa sociedade ajudando milhões a escapar da pobreza. A sociedade brasileira ganhou mais amor-próprio".

Mas apesar de todo o progresso e de aparente maturidade do país, o cantor brasileiro diz que o facto de o Brasil ser a quarta maior democracia do mundo não garante que está imune às "forças das trevas". Onde, afirma "ideólogos reacionários" aproveitaram o escândalo de corrupção que colocou na cadeia Lula da Silva para "gerar medo" e desconfiança na sociedade. Os próprios meios de comunicação social, garante Caetano, tenderam a minimizar os perigos da eleição de Bolsonaro.

Critica o modo como os media descreveram a campanha entre os candidatos presidenciais como um confronto entre dois extremos: o Partido dos Trabalhadores, que potencialmente levaria o Brasil a um regime autoritário comunista; e Bolsonaro que lutaria contra a corrupção e tornaria a economia de mercado amiga do país.

"Muitos na imprensa tradicional ignoram o facto de que Lula respeitou as regras democráticas e que Bolsonaro defendeu repetidamente a ditadura militar dos anos 60 e 70. De facto, em agosto de 2016, enquanto votava contra Dilma, Bolsonaro fez uma demonstração pública de dedicar sua ação a Carlos Alberto Brilhante Ustra, que administrou um centro de tortura nos anos 70", escreve o cantor.

Como figura pública do Brasil, Caetano justifica a sua tomada de posição para tentar esclarecer esses factos. E conta a sua própria experiência e de Gilberto Gil na cadeia no final dos anos 60.

"No final dos anos 60, a junta militar prendeu muitos artistas e intelectuais por suas crenças políticas. Eu era um deles, junto com meu amigo e colega Gilberto Gil. Gilberto e eu passamos uma semana numa cela suja. Então, sem nenhuma explicação, fomos transferidos para outra prisão militar por dois meses. Depois disso, quatro meses de prisão domiciliária até, finalmente, o exílio, onde ficámos dois anos e meio. Outros estudantes, escritores e jornalistas foram presos nas celas onde estávamos, mas nenhum foi torturado. Durante a noite, porém, podíamos ouvir os gritos das pessoas. Eram presos políticos que os militares pensavam estar ligados a grupos de resistência armada ou a jovens pobres que foram apanhados em roubos ou na venda de drogas. Esses sons nunca saíram da minha mente."

Caetano remata o seu artigo a desejar que o exílio nunca mais aconteça: "Eu amo o Brasil e acredito que pode trazer novas cores para a civilização; Eu acredito que a maioria dos brasileiros também a ama. Muitas pessoas aqui dizem que estão planeando viver no exterior se o capitão vencer. Eu nunca quis morar em outro país além do Brasil. E eu não quero agora. Fui forçado ao exílio uma vez. Não vai acontecer de novo. Eu quero que minha música, minha presença, seja uma resistência permanente a qualquer característica antidemocrática que venha de um provável governo Bolsonaro."

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