Brexit leva a clima de guerra civil entre os conservadores

Fonte do governo de David Cameron diz que negociar com os eurocéticos é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico.

A aproximação do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia está a fazer estalar o verniz no seio do Partido Conservador do primeiro-ministro David Cameron. A imprensa britânica fala mesmo em "guerra civil" no seio dos tories.

De acordo com a edição de domingo do jornal Daily Telegraph, que cita uma fonte governamental, Cameron já não cumprimenta os ministros que defendem o brexit e evita mesmo qualquer tipo de contacto visual quando se cruzam nos corredores. Downing Street apressou-se a desmentir esta informação, mas restam poucas dúvidas sobre a existência de um clima de guerrilha entre os conservadores que se situam em lados opostos na questão do referendo.

Num artigo de opinião publicado no Daily Mail, o jornalista Dan Hodges partilha o que lhe foi confidenciado por uma fonte próxima de David Cameron: "Tentar negociar com os eurocéticos é como tentar negociar com o Estado Islâmico. Quando lhes perguntamos "OK, afinal o que é que vocês querem?", a resposta deles é "queremos vê-los mortos"". O peso destas acusações é ainda maior tendo em conta que surgem na mesma semana dos atentados em Bruxelas.

Seja qual for o resultado do referendo do próximo dia 23 de junho é provável que as feridas abertas entre os conservadores demorem bastante tempo a cicatrizar.

Executivo pouco saudável

O serviço nacional de saúde britânico (NHS na sigla em inglês) foi outro dos temas que contribuiu para o extremar de posições nos últimos dias. Num artigo de opinião publicado no sábado no The Observer, Jeremy Hunt, ministro da Saúde do executivo de Cameron, defende que um eventual brexit terá como consequência uma recessão económica e que isso significará menos fundos para os serviços públicos. "Aqueles que querem sair da UE precisam de explicar de que forma serão capazes de proteger o NHS deste choque".

Outra das preocupações de Hunt prende-se com os cerca de 100 mil trabalhadores "altamente qualificados" oriundos de diversos países da União Europeia. "A incerteza nos vistos de trabalho e nas autorizações de residência poderá levar a que muitos regressem aos seus países", escreve o governante.

As reações não se fizeram esperar. A plataforma Vote Leave, que defende o brexit e é liderada por Michael Gove - membro dos conservadores e atual ministro da Justiça - fez sair um comunicado em que acusa os membros do governo que defendem a permanência do Reino Unido na UE de se comportarem como "profetas da desgraça". As acusações vão mais longe: "Durante o consulado de Jeremy Hunt o NHS viu-se mergulhado numa crise financeira. Se votarmos pela saída pelo menos podemos parar de gastar recursos com a Europa e investir o dinheiro em prioridades como o serviço nacional de saúde".

Empresários divididos

Um estudo de opinião realizado pela Seedrs - uma das principais plataformas europeias de crowdfunding para projetos empresariais - veio mostrar que os agentes económicos britânicos estão divididos na questão do brexit. Num universo de 270 questionários, 51% dos investidores e 48% dos empresários responderam que irão votar pela permanência. Este estudo da Seedrs surge na sequência de um relatório da Confederação da Indústria Britânica (CBI na sigla em inglês) que aponta para uma quebra de 5% no PIB até 2020 em caso de saída. Matthew Elliott, do grupo Vote Leave - o mesmo que atacou o ministro da saúde de Cameron -, voltou a não perder tempo na resposta: "A CBI, que é financiada pela UE, está desesperada a tentar instalar o pânico, como fez quando queria que trocássemos a libra pelo euro. Estavam errados nessa altura e estão errados agora".

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