Brexit é irrevogável? A Supermulher acha que não

Madeleina Kay tem 24 anos e é contra o brexit. Para travá-lo, está disposta a tudo. Até a andar vestida na rua de Supermulher a defender a permanência do Reino Unido na UE. A ousadia resulta: as pessoas param, falam com ela. Os media entrevistam-na. E até já ganhou o Prémio de Jovem Europeu 2018.

Madeleina Kay descreve-se como uma rapariga numa missão: travar o brexit. Desde que o "Sim" venceu o "Não" por menos de 2% (por 51,8% contra 48,11%) no referendo de 26 de junho de 2016, esta inglesa de Sheffield, de 24 anos, decidiu que iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para corrigir o que classifica como um erro. Começou então a fazer campanha contra a saída do Reino Unido da União Europeia, vestindo disfarces de personagens de livros de super-heróis, como a Supermulher.

"Tenho várias personagens que encarno e vários fatos que costumo vestir. Já me vesti de Pirata, Mulher Maravilha, Amazona, etc... Faço isso basicamente para chamar a atenção do público e dos media para a nossa campanha. Quando estou vestida com os disfarces, as pessoas param-me na rua, falam comigo. Eu escrevo e ilustro livros infantis. Embora a Supermulher não seja uma das personagens dos meus livros e eu também não tenha por hábito ler muitos livros de comics, usei a personagem da Supermulher por ser muito conhecida, as pessoas reconhecem-na de imediato. Quando veem a Supermulher a bandeira da UE param, falam, algumas para dizer que odeiam a bandeira da UE. Mas a verdade é que nós todos precisamos de falar", conta ao DN, por telefone, a ativista.

Quando em outubro de 2017 foi expulsa da sala de conferências de imprensa da Comissão Europeia, no edifício Berlaymont, era o fato de Supermulher que tinha vestido. "Eu comecei a escrever um blogue (albawhitewolf) sobre este tema e esse foi o blogue que ganhou o concurso de blogues da Comissão Europeia (EUinmyRegion Blog Contest). Foi por isso que fui a Bruxelas. E tinha passe de imprensa para ir à conferência de imprensa. Como apareci vestida com o fato, eles tiveram medo e expulsaram-me. E depois isso passou a ser uma história que apareceu nas notícias".

Estudante do curso de arquitetura paisagística na universidade de Sheffield, cuja frequência interrompeu para se dedicar à luta contra o brexit, Madeleina Kay diz ter o apoio da família. No caso do pai, que é professor de matemática na universidade, o apoio é de 100%. "Ele é professor de matemática na universidade em Sheffield. Então ele está bastante consciente do dano que o brexit vai fazer às universidades, à investigação. Ele é muito liberal e quer travar o brexit tanto como eu", explica a defensora da permanência do Reino Unido na UE.

Costuma dizer que o brexit não é irrevogável? Porquê? Como tenciona travá-lo? "Temos em aberto vários canais para tentar travar o brexit, que é uma coisa que eu realmente acho que temos que fazer, porque é algo mau para o nosso país. Temos várias campanhas, com várias organizações, em várias sentidos O referendo não era vinculativo e, por isso, tem que ser votado pelos deputados, depois de as negociações terminarem. Uma das formas de travar o brexit é fazendo lobbie junto dos deputados para vetarem o acordo que for conseguido entre Londres e a UE. Temos esperança no Labour, nos liberais-democratas e nos rebeldes dos Tories [Partido Conservador da primeira-ministra Theresa May] para votarem contra o acordo. Os eleitores, nas suas circunscrições, podem fazer lobbie junto dos deputados".

Outra das coisas que está a ser feita, sublinha, é contestar legalmente o processo do brexit. Uma das questões em causa é a denúncia feita por informáticos sobre o recurso a empresas ligadas à extinta Cambridge Analytics para tentar influenciar o resultado do referendo. "A campanha do Vote Leave violou as regras de financiamento, como de resto já constatou a Comissão Eleitoral. Eles dizem que o brexit é o resultado da democracia. Mas como podemos nós ter democracia quando é tudo baseado em mentiras e numa manipulação levada a cabo através das redes sociais e de gigantes da tecnologia? Eu penso que as alegações sobre a Cambrigde Analytics não vão conseguir anular o brexit, mas é preciso lembrar às pessoas que a campanha do Vote Leave foi corrupta e não democrática", assinala.

A maior campanha em que participa neste momento, diz, é a do People's Vote. Foi lançada em abril deste ano com o objetivo de unir todos os grupos anti-brexit e exigir um voto dos cidadãos sobre o acordo final. Não só dos deputados. Mas de todos os britânicos. Sir Patrick Stewart, que fazia de Professor X no X-Men, é também um dos rostos do People's Vote.

Mas e se, como já algumas pessoas começam a falar, mesmo que em surdina, não houver acordo nenhum entre Londres e a UE na hora de sair. Mais propriamente às 23.00 do dia 29 de março de 2019. "Bem... neste momento estamos a trabalhar na base de que há acordo, mas se não houver acordo então o voto será sobre se saímos desordenadamente ou se ficamos na UE. Se houver um acordo, o voto popular seria para responder sobre três opções, pelo menos: aceitamos o acordo, rejeitamos o acordo ou continuamos na UE".

A ousadia de Madeleina Kay, que também faz músicas sobre o brexit no seu canal de Youtube, valeu-lhe este ano o Prémio de Jovem Europeu 2018. A distinção é atribuída anualmente desde 1997 pela Schwarzkopf Foundation com o apoio do Parlamento Europeu. "Atribuíram-me o prémio por causa da criatividade, dedicação - só faço isto - e abordagem alternativa que eu uso para promover a UE. Faço músicas sobre a UE. Ninguém faz isso", afirma, entre risos. E constata: "Sou uma rapariga numa missão".

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