Brasil entre ciclos e periodos, ensaio de Jonuel Gonçalves

As eleições de 2018 fecham o interregno iniciado em 2016 com a derrubada de Dilma Roussef. Jair Bolsonoro, um dos mais ferozes adversários de Dilma (chegou a elogiar o coronel que a interrogou na ditadura) vence com cerca de 55 % dos votos válidos. Haddad fez cerca de 44 % também válidos

A única grande região onde JB não ganha é no Nordeste, baluarte do PT, mas vence no Norte com certo equilíbrio e arrasa no Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Ultrapassa 57 milhões de votos. Dilma não consegue eleger-se senadora pelo seu Estado natal, Minas Gerais.

O candidato do PT recuou 17% em relação às eleições de Lula e 8% à de Dilma em 2014. Não há termo de comparação para o vencedor pois nunca houve candidatura com o seu perfil em eleições diretas. Mais significativo é, à escala mundial, nenhuma formação dessa faixa da direita ter conquistado tantos votos como no Brasil.

As afinidades Trump-Bolsonaro são evidentes e muito úteis a ambos, nas criticas à China, à ONU, ao acordo climático de Paris, no tipo de apoio religioso recebido, na recusa da imigração e de vários capítulos da globalização. A chegada do Brasil a este campo causa júbilo em Manila, Taipé, Singapura, Budapeste, Bogotá, em setores influentes de Nova Delhi, Copenhaga, etc, podendo esperar-se seguidores africanos que já manifestaram admiração por Trump, tudo configurando um novo bloco incontornável.

Outro indicador de afinidade é a projeção do economista-chefe da campanha de Bolsonaro, Paulo Guedes, bem-sucedido promotor de investimentos e antigo aluno da "escola de Chicago", agradando bastante aos círculos financeiros e empresariais, embora se diga que os militares da reserva, apoiantes do Presidente eleito, pretendem travar ímpetos de privatização em áreas consideradas como estratégicas. Seria o caso da Petrobrás. Ao mesmo tempo passou a falar-se no nome do deputado gaúcho Onyx Lorenzony, dos Democratas, formação conservadora tradicional, para futuro ministro Chefe da Casa Civil - posição chave no executivo federal - como garantia de respeito institucional.

As campanhas da segunda volta decorreram entre um candidato defensor do legado de governos anteriores e o outro massacrando esse legado. Ambos se comprometeram com a democracia, embora atacassem órgãos de comunicação ou judiciais e revelassem simpatias por ditaduras, uma que existiu aqui e duas existentes aqui perto.

Há poucos meses, Bolsonaro era extrema-direita que seria rapidamente absorvido pela direita tradicional. Rapidamente aconteceu o contrário e, na segunda volta, conseguiu mesmo milhões de votos centristas. Aliás, fez esforço para se posicionar o mais possível ao centro e limpar a imagem de defensor total da antiga ditadura e até da tortura. Tais defesas foram depois inseridas na preocupação com a segurança pública, tema central na vida quotidiana de qualquer brasileiro, sobretudo nas favelas e proximidades. Com números em alta desde há décadas, o Brasil chegou agora a sessenta mil assassinatos por ano, ou seja, perto do numero de mortes anuais na guerra da Síria.

A correlação de forças dentro do novo esquema governativo e a parte dos discursos que vai valer, começarão a definir-se no período transitório até à posse do Presidente eleito. Porém, podem desde já apontar-se fatores que o propulsaram para o Palácio do Planalto, surgindo em primeiro lugar o forte sentimento popular antipetista, muito mais forte do que imaginavam mesmo grandes críticos do PT. Haddad fez o possível para evitar esmagamento. Substituiu Lula que, segundo os seus partidários, faria muito melhor resultado. Talvez, mas não o suficiente para vencer Bolsonaro. O cenário mais otimista para Lula na primeira volta dar-lhe-ia 39% dos votos, mais 10% que os então obtidos por Haddad e menos 7% dos alcançados por Bolsonaro.

A grande rejeição do petismo

O antipetismo tornou-se elemento de tal envergadura entre os eleitores que a candidatura PT à Presidência era obviamente desaconselhável, mas a liderança deste partido inviabilizou o apoio a Ciro Gomes (centro esquerda, designação também reivindicada agora pelo PT). O novo Presidente do Brasil pode ter vencido aí a eleição. A frente democrática, proposta pelo PT em desespero na segunda volta, só funcionaria se fosse criada antes da primeira, quando tinha chances de captar a larga maioria do voto centrista e parte da direita liberal. A insistência do PT em manter candidatura presidencial, vista como arrogância e busca do poder, reforçou o antipetismo.

Ao mesmo tempo, outras candidaturas opostas a Bolsonaro, como de Geraldo Alkimin (PSDB, ex governador de São Paulo), Marina da Silva (ambientalista, ex ministra), Álvaro Dias (Podemos, ex governador do Paraná) e outros menores, também se mantiveram apesar da evidência de maus ou péssimos resultados. Agiram igual ao PT. Do centro-direita ao centro-esquerda foram seis candidaturas dispersas. Somadas poderiam colocar um candidato na segunda volta.

Para Bolsonaro o melhor adversário era - como foi - o candidato do PT.

No fim do interregno, os votos em Bolsonaro revelam apoio popular ao impeachment da ex-presidente, sobretudo se acrescentarmos a eleição de Janaína Pachoal - a jurista que elaborou a base legal daquele processo - para o legislativo estadual de São Paulo com mais de dois milhões de votos, recorde histórico a este nível. Parece, assim, inapropriado colocar o impeachment na categoria dos golpes de Estado. Como apontaram setores de pensamento independente, na verdade foi resultado duma luta feroz por cargos e pelo comando da aliança vencedora nas eleições de 2014, dentro da elite que governava o país.

A entrada do PT na elite governante é anterior à eleição de Lula, tendo-se acentuado de forma proporcional ao aumento das suas bancadas parlamentares (federal e estaduais) e, sobretudo, conquista de Prefeituras (municípios) importantes, tanto em população como em grandes empreendimentos económico-financeiros. Para alcançar a Presidência, em 2002, alinhou-se no Plano Real (concebido nos anos 90 como condutor macro, através de estabilidade monetária, livre circulação de capitais, liberalização de importações e muitas privatizações) e fez várias alianças ao centro e à direita. Então, o petismo agradou mesmo a largos setores empresariais, devido à possibilidade de Lula controlar os ímpetos sindicais e reduzir os riscos de forte agitação social, notada desde fim do mandato de Fernando Henrique Cardoso.

A conjuntura internacional era extremamente favorável, tanto nos preços dos bens primários ou semi-transformados, como no fluxo de capitais para os chamados "emergentes". Assim, durante cerca de dez anos, o nível de vida da população melhorou tirando milhões de pessoas da pobreza e projetando mundialmente o país. O PT e seus aliados do MDB, PC do B, PP (ex Arena, dos tempos da ditadura), etc., depressa proclamaram a passagem do Brasil a "país de classe média", não obstante trabalhos questionadores publicados sobre o assunto. Até que eclodiu o famoso "mensalão", gigantesca compra de votos parlamentares com dinheiro público e perfil sistémico. A imagem petista sofreu um primeiro duro abalo.

A partir de meados do primeiro mandato de Dilma Roussef as condições mundiais mudaram e internamente o mercado permaneceu estreito para desenvolvimento industrial durável. Uma das causas era o alto numero de empregos criados com salários baixos, suficientes para os bens mais essenciais, mas insuficientes em poder de compra às grandes indústrias. Sem considerar isso, a administração Dilma cortou impostos acreditando estimular o consumo e os investimentos, prática arriscada, pois em situação difícil os consumidores e investidores usam a redução fiscal para guardar liquidez e o governo passa a contar com menos receitas.

Os efeitos foram devastadores, começando despedimentos e falências. Em pouco mais de dois anos, as conquistas sociais dos anos precedentes caíram com estrondo, gerando quebras de status, deceções, destruição de planos de vida e, claro, descontentamento que confluiu para protestos de rua em 2013. Hoje, a população não lembra as realizações dos anos Lula, pois vive a sua posterior anulação. Pode mesmo questionar-se se o Brasil atingiu o estágio de economia emergente ou se teve apenas mais um dos seus ciclos de crescimento. Neste caso, o fim do ciclo desembocou em recessão, mantida de 2014 a 2017 e talvez dê lugar a pequena taxa positiva este ano.

Meses antes das eleições de 2014, o desemprego atingia cerca de dez milhões de pessoas (subiu até 13 milhões e hoje pode estar um pouco acima de 12). A atualização do salário mínimo era superior à inflação, mas ficava sempre abaixo das necessidades familiares, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconómicos (DIEESE).

Semanas depois da reeleição de Dilma toda esta realidade emergiu em simultâneo com os referidos antagonismos internos e mais um escândalo, desta vez "petrolão", no qual ficou patente a forma de financiamento do PT, através da cobrança de comissões (o famoso "pichuleco") na atribuição de grandes contratos, desvios de dinheiro, obtenção de benesses. Corrupção e recessão produz uma soma à qual nenhuma imagem partidária resiste, seja qual for o discurso ou história. Além do PT outros partidos tradicionais estavam envolvidos, gerando um sentimento na sociedade de ser vítima duma grande impostura e dum grande vazio de alternativas. As eleições municipais de 2016 foram prova disso, com derrotas dos partidos integrantes da anterior aliança governamental, elevado grau de abstenção, de votos nulos e brancos. A partir delas, o movimento em torno de Bolsonaro ganhou dimensão, em larga medida assente nos movimentos de rua que lutaram pelo impeachment de Dilma e sem muitas dificuldades para chegar a campeão do antipetismo, na medida em que outros partidos (como o PSDB e MDB) eram vistos como coniventes ou "frouxos". O curioso é esses partidos não terem percebido isso.

As vitórias durante anos na "guerra de narrativas", pela elite governante nesse período, esgotaram-se por desaparição duma possibilidade essencial em qualquer guerra: a camuflagem. Estava tudo a descoberto.

O peso dos evangélicos e das tradições autoritárias

Os vencedores de batalhas nessa guerra começaram a ser outros, para isso contribuindo a mudança de lado da maior parte dos evangélicos que, desde a eleição de José Alencar como vice-presidente de Lula, permaneceram na anterior aliança até ao processo de Dilma e tiraram grandes vantagens, como captação de recursos financeiros, atividades empresariais e difusão dum discurso levado até agressões contra crenças afro, insultos contra católicos, condenação do Carnaval, dos biquínis reduzidos, fobias sexuais de vários sentidos e épocas, apresentação de líderes políticos como escolhas divinas.

Tática muito inteligente e mudança de lado muito oportuna, facilitada pelas práticas da Igreja Católica, mais preocupada em combater a "teologia da libertação" que evitar a massiva fuga de fiéis. Há dez anos, os evangélicos tiveram a Vice Presidência da República, agora têm a Presidência.

A História também contribuiu para a mudança. O Brasil vive em ciclos económicos, longos ou curtos e períodos políticos de uma a duas décadas, mais ou menos, ambos bastante determinados do exterior. No primeiro caso, consoante os preços no mercado mundial desde a escravatura. No segundo caso, oscilando com as pressões mais liberalizantes ou autoritárias nos grandes centros mundiais. Isto não quer dizer que o externalismo ou a dependência sejam fatores únicos. Na verdade, são os sentimentos e movimentos da sociedade brasileira que fornecem espaços a tais fatores, desde a Independência, proclamada pelo representante máximo da potência colonial.

No século XX, a grande figura nacional foi Getúlio Vargas, cujo primeiro período correspondeu a uma ditadura sangrenta, não impedindo o seu regresso democrático ao poder, marcado pelo contexto de pós segunda guerra mundial. Uma década após o suicídio de Vargas, o golpe de Estado de 1964 afirmou-se como parte da estratégia ocidental da guerra fria e acabou quando acabaram os grandes sucessos económicos e a diplomacia dos direitos humanos de Jimmy Carter pressionou todos os autoritarismos latino-americanos. Tanto Vargas como os governantes pós 1964 tiveram apoio popular nos seus momentos áureos.

Outro tema histórico "ignorado" pelas elites é a persistência do racismo, num país onde mais de 50% da população é afro-descendente. Após ter acreditado no discurso reformador, essa população viu-se na mesma situação de sempre: a mais atingida pela pobreza, por muito menos oportunidades e uma representação insignificante nas instituições políticas ou nas executivas empresariais.

Há agora um componente muito citado como decisivo nestas eleições e no período prévio, as chamadas fake news, que os franceses começam a chamar de infox (mistura de informação e intoxicação). A versão francesa é mais útil pois permite ir além da noticia falsa, inclui o bullying político-cultural, o evento propagandístico disfarçado em colóquio, o uso de pretextos para deformar e difamar, etc. Não é exatamente componente novo, pois sempre existiu sob o nome de propaganda e ação psicológica para desqualificar adversários. Mas há, de facto, maior alcance nesses dois sentidos. É a mesma guerra de narrativas acompanhada de novos recursos técnicos na guerra de imagens. Sem imagens nada existe hoje. Tal como a velha propaganda, a primeira fase é de lançar dúvidas e tumultuar mentes; depois, até sob disfarce de movimentos sociais, apresentação de mensagens salvadoras ou condenatórias, assédio moral e exclusão das vozes discordantes.

Num dado momento até o meu blog foi atacado por ter publicado fotos de semi-nu, fosse como arte (usual em reputados museus, galerias e revistas) ou parte de campanha contra a repressão e ameaças de que são vítimas mulheres, sobretudo do Sahel. Um recurso em imagens, semelhante a posteriores demonstrações feministas chilenas em público. A tentativa de censura, seguida de velados insultos xenófobos, falhou, pois o blog resistiu e segue na mesma linha, porém, assustou muitos professores.

Uma das características atuais da intolerância no Brasil é o clima de agressão aos professores, física inclusive. É muito perigoso resistir a grupos de pressão, reprovar alunos, dar notas baixas ou até realizar provas de exame com bom nível de exigência e, muitos docentes sem proteção nem experiência de defesa, deixam-se intimidar. Mas outros há, cujos critérios de aprovação (ou recrutamento de novos docentes) dependem de simpatias ideológicas, de esquerda nuns casos, de direita noutros. A intimidação e a dominante ideológica são motivos poderosos para a persistente queda das universidades brasileiras nos rankings mundiais e prenunciam agora confrontos de consequências imprevisíveis.

Na outra extremidade do leque social brasileiro, a infox orienta-se para as "comunidades" (leia-se favelas), áreas consagradas de confronto onde vivem cerca de onze milhões de brasileiros (dependendo dos limites com bairros degradados podem ser mais). Por exemplo, uma ONG prestes a publicar pesquisa sobre direitos humanos na comunidade, causa receios em "alguém" que lança um site anónimo para atacá-la como instrumento demoníaco ou do adversário (aliás, para sites destes é a mesma coisa). Ataques pausados a fim de durarem. Verifica-se, depois, que a ONG em questão não se desequilibra para nenhum lado e o site atacante pede desculpa e desaparece. Aqui a lógica é outra: o alcance do desmentido é sempre inferior à noticia inicial, chegada aos ouvidos de muita gente que nunca leu, nem vai ler, qualquer dos dois textos. Ao site fechado sucede-se outro - feito pelas mesmas pessoas não identificadas - acusando a ONG de ter comprado o desmentido. É a tática de lançar lama, na certeza de pelo menos alguns salpicos ficarem. Velha como Maquiavel.

São dois exemplos entre centenas e coisas deste calibre foram classificadas (na primeira volta destas eleições) por Fernando Henrique Cardoso como "reacionarismo cultural" e por Ciro Gomes como "fiscais dos costumes". Se for preciso atingir pessoas ou entidades de pensamento independente, tais ataques vão se repetir a qualquer momento. Já as montagens de texto, som, imagem e rumor contra políticos, ficam mais reservadas a períodos eleitorais ou momentos de grandes nomeações.

Impossível saber quem usou mais infox nesta campanha e nas anteriores próximas, seja via mensagens falsas, seja com frases e propostas ditas e desditas ou imagens intercaladas de sorrisos e ameaças. No entanto, é muito improvável uma eleição ou ação politica importante ser decida só nas fake news, facilmente contrariadas, na maioria simplesmente ignorando-as. Nos casos de chegarem a viral há meios de as desfazer com contundência. Quem ainda não sabe tem de aprender. Em vez dos apocalípticos anúncios de guerra atómica a guerra real é essa, está em andamento e vai aumentar. Sobre ideias, perfis, vida privada, conjuntura económico-financeira e...resultados de futebol.

A guerra de narrativa não se ganha em contradição flagrante com a realidade. Pelo contrário, nesta guerra avança quem impedir o adversário de deformá-la. É guerra prolongada onde táticas e estratégias exigem muita persistência e conhecimento do terreno.

A eleição de Bolsonaro vai produzir realinhamentos no panorama político brasileiro, sendo provável a desaparição de várias "legendas", esses precários agrupamentos de políticos com o objetivo de garantir candidaturas, financiamentos, bancadas e tempos de antena. Apesar de se auto-designarem "partidos", as "legendas" são muito diferentes deles. O clássico "centrão" está na perspetiva de implodir. Em torno do PSL vai aglutinar-se a direita (tradicional ou nova) e boa parte do centro-direita. O anunciado "manifesto de democratas progressistas" pode suscitar uma faixa política equidistante das duas forças presentes nesta segunda volta...se os egos pessoais não forem mais fortes. O PT e aliados completam o espaço político organizado e reforçado por uma estrutura sindical muito presente. Os não organizados - abstencionistas, votantes de nulos e brancos - continuam a ser cerca de 30%, acima de 40 milhões. Não válidos.

Neste momento, a maioria do eleitorado está eufórica e confiante, como estava em 2002 quando Lula foi eleito e pelas mesmas razões. Quanto tempo vai durar este período?

*Doutor em Ciências pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Em Portugal tem 3 livros publicados e é analista da RDP África.

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