Berlim expulsa diplomatas mas aprova gasoduto russo

Moscovo voltou a ameaçar que vai dar uma resposta em proporção. Até ontem, já tinha perdido 152 representantes no estrangeiro

Em pleno conflito diplomático que está a opor Moscovo ao Ocidente, a Alemanha aprovou a construção e operação do gasoduto russo Nord Stream 2, que irá ligar a Rússia à Alemanha. A luz verde foi dada na terça-feira, um dia depois de o governo de Angela Merkel ter anunciado a expulsão de quatro diplomatas russos como resposta ao envenenamento do ex-espião Sergei Skripal no Reino Unido.

A operadora do Nord Stream 2, pertencente à estatal russa Gazprom, disse esperar que os quatro países por onde passa o gasoduto - Rússia, Finlândia, Suécia e Dinamarca - aprovem o projeto nos próximos meses. Quanto à Alemanha, o destino final, o gasoduto terá uma secção de 31 quilómetros, todos eles dentro de água.

Recentemente, tanto Merkel como o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Heiko Mass, defenderam que se trata de um "projeto económico", mas que tem a oposição da maior parte dos países da União Europeia e dos Estados Unidos. Este gasoduto irá concentrar 80% das vendas de gás russas à UE, o que poderá levar o Kremlin a, por exemplo, cortar o fornecimento a determinados países ou minimizar as sanções económicas já impostos pelo bloco.

No plano político, Moscovo voltou ontem a garantir que vai responder na mesma proporção à expulsão em massa de diplomatas russos pelo Ocidente. O que, no início do mês, começou por ser um incidente entre Londres e Moscovo, nesta semana tornou-se uma onda de solidariedade com o Reino Unido que levou a grande maioria dos países da UE e da NATO, entre outros, num total de 28 nações, bem como a Aliança, a anunciarem e expulsão de um total de 152 diplomatas russos (contando com os 23 considerados personae non gratae pelo governo de Theresa May), naquela que é a maior expulsão de diplomatas russos pelo Ocidente. Portugal, Luxemburgo, Bulgária, Eslováquia e Malta optaram por chamar os seus embaixadores em Moscovo para consulta.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE vão discutir a relação do bloco com a Rússia a 16 de abril, uma reunião que já estava marcada antes do caso Skripal. Um responsável comunitário que está a lidar com este processo disse ontem à Reuters que as expulsões já estabelecem uma "linha vermelha" da UE, ou seja, que o bloco não deverá ir além disto para já.

Valentina Matviyenko, a presidente do Conselho da Federação, a câmara alta do Parlamento russo, afirmou ontem que Moscovo irá retaliar, como já havia feito o porta-voz do Kremlin e o ministro dos Negócios Estrangeiros. "Sem dúvida, a Rússia, como é sua prática diplomática, responderá simetricamente e observará a paridade quanto ao número de diplomatas", afirmou esta apoiante de Vladimir Putin, citada pela agência RIA.

O ministro russo da Defesa, Sergei Shoigu, anunciou que um avião militar fez um voo de treino via Polo Norte para a América do Norte, o primeiro desde a Guerra Fria. Não há indicação de que este voo esteja ligado ao clima de tensão com o Ocidente, mas a Marinha dos EUA está a realizar um exercício de cinco semanas no Círculo Ártico.

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