Belgas assumem erros e ministros apresentam demissão

Comissário alemão critica falta de coordenação entre as forças de segurança e as autoridades da Bélgica

O presidente da Turquia pôs a nu a falta de coordenação a nível europeu no controlo de radicais ou potenciais terroristas. Recep Tayyp Erdogan disse, na quarta-feira, que as autoridades detiveram em junho do ano passado um dos autores dos atentados de Bruxelas quando este tentava atravessar para a Síria na fronteira de Gazantiep. O governante indicou que os turcos avisaram belgas e holandeses sobre um "combatente estrangeiro", que agora se sabe ser Ibrahim el-Bakraoui, um dos três suicidas que se fizeram explodir no aeroporto de Zaventem na terça-feira. "Apesar dos nossos alertas de que esta pessoa era um combatente terrorista, a Bélgica não foi capaz de estabelecer qualquer relação com o terrorismo", declarou Erdogan.

Os olhares viraram-se agora para as autoridades belgas e ontem dois ministros apresentaram ao primeiro-ministro belga, Charles Michel, a sua demissão. "Ofereci a minha demissão. O ministro Geens também. Foi recusado. Então continuamos, disse ao 'Le Soir' o ministro do Interior belga Jan Jambon. "Houve dois erros: a nível da justiça e a nível do oficial de ligação na Turquia, o que tem impacto nos departamentos do Interior e da Justiça. Mas agora continuamos a trabalhar", prosseguiu Jan Jambon que, ontem citado pela agência Reuters, afirmou: "Em tempo de guerra não se abandona o campo de batalha". Citado pela televisão belga VRT, o ministro da Justiça Koen Geens declarou: "Ambos manifestámos a vontade em demitir-nos".

Igualmente posto em causa com as revelações de Erdogan, o ministro da Justiça da Holanda, país que está na presidência da UE, deu uma conferência de imprensa a apresentar justificações. "Ele [o suicida Ibrahim el-Bakraoui] não estava registado em lado nenhum e as autoridades da Turquia não apresentaram qualquer justificação para o terem deportado", afirmou, em Haia, Ard van der Steu. "A Turquia não seguiu os procedimentos normais... dizer que ele ia ser deportado para a Holanda". El-Bakraoui era um condenado por ataque armado e estava em fuga após violar liberdade condicional. Numa resposta escrita ao Parlamento da Holanda, as autoridades confirmaram que el-Bakraoui chegou a Amesterdão, para onde pediu que o deportassem, no dia 17 de julho de 2015. "Não havia suspeitas contra ele na Holanda. A pessoa em causa não estava registada em nenhum sistema de investigação relevante", diz a resposta escrita. Ontem à noite, segundo duas fontes citadas pela agência Reuters, tanto el-Bakraoui, como o seu irmão Khalid El Bakraoui, que se fez explodir no metro de Maelbeek, constavam de uma lista de suspeitos a vigiar dos EUA.

Apesar de todas as justificações dadas, o certo é que a imagem da Bélgica, país que abriga as principais instituições da UE e a sede da NATO, ficou bastante afetada. E se antes as críticas de falta de coordenação entre as forças de segurança e as autoridades belgas se faziam quase em surdina ou com recurso a declarações anónimas, agora algo parece ter mudado. "Temos que fazer face, de forma clara, às falhas dos serviços de segurança da Bélgica", declarou, ao jornal 'Bild', o alemão Günther Oettinger, comissário europeu da Economia e Sociedade Digital. E acrescentou: "Só em Bruxelas há diferentes corpos de polícia que não cooperam o suficiente entre si", afirmou Oettinger, citado por aquele jornal. O comissário alemão ditou: "Isto assim não pode continuar."

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