Basta, a palavra que une quase todos na Catalunha

Com o candidato à presidência detido, o Parlament suspendeu a sessão de investidura. Por motivos diferentes, líderes partidários pedem mudança. Puigdemont voltou para Waterloo

"Ja n"hi ha prou!" - que é como quem diz basta, em catalão. Repetiu várias vezes, enfática, a vencedora das eleições, Inés Arrimadas. "A Catalunha disse basta!", notou Sergi Sabrià, dos republicanos de esquerda. "Os cidadãos da Catalunha dizem basta!", declarou Quim Torra, dos Junts per Catalunya. Palavras ditas ontem na sessão plenária do Parlamento catalão, que fora convocado para votar a investidura do candidato do bloco independentista Jordi Turull. Mas também fora do Parlamento e em galego. Basta xa! é o nome do manifesto subscrito ontem por 20 personalidades galegas de apoios aos "presos políticos".

A sessão parlamentar de ontem começou com um pequeno discurso do presidente daquele órgão, Roger Torrent, no qual este reconheceu não haver condições para Turull ser eleito, e deu a palavra aos grupos parlamentares.

A fórmula provocou a ira dos deputados do Partido Popular. Xavier Garcia Albiol pediu o fim da sessão - que tinha sido convocada para votar num candidato e este não se encontrava. Como Torrent não atendeu aos protestos, Albiol e restantes conservadores abandonaram a câmara, para não fazerem parte de "uma fraude".

A líder catalã do Ciudadanos, Inés Arrimadas, preferiu usar a palavra "para defender o fracasso do procés" - e para criticar o discurso parcial do presidente do Parlamento. "Pensavam que estavam a enfrentar Rajoy, mas enfrentavam uma democracia do século XXI. Nem são só vocês a Catalunha, nem só Rajoy é a Espanha", disse, dirigindo-se aos secessionistas. "O processo é um fracasso social, institucional, político e económico", pelo que Arrimadas pediu o "regresso da normalidade, da convivência e da legalidade".

Outros dois partidos mais à esquerda, o socialista PSC e o Catalunya en Comú-Podem (Podemos catalão) também quiseram olhar para o futuro e defenderam a construção de uma alternativa de governo, tendo ao mesmo tempo criticado as medidas do juiz do Supremo Tribunal ao indiciar 16 políticos por rebelião e em enviar cinco deles para a prisão.

O coordenador do Catalunya en Comú-Podem, Xavier Domènech, defendeu a criação de uma frente democrática pela luta de direitos e liberdades, que "deveria ir da CUP até ao PSC, no mínimo". No final da sessão, o presidente do Parlamento pegou na ideia. Torrent dirigiu-se ao auditório e discursou pela criação de uma "frente comum em defesa da democracia".

Perante a situação "absolutamente terrível" que vive a Catalunha, propôs o fim da lógica de "vencedores e de vencidos" e a criação de "maiorias alternativas".

Miquel Iceta, o líder dos socialistas catalães, reconheceu que o cenário não é propício a um governo de uma só fação e que a região está "mais perto de cair num abismo que faça a divisão, a rutura e a fratura irreversíveis", pelo que apelou para o fim dos atuais blocos (independentistas e constitucionalistas) e que se criem novas e "amplas maiorias".

Mas do lado da ERC, Junts per Catalunya e da CUP não se ouviram palavras de pacificação. "Os independentistas estão aqui pela vontade do povo. Só a ele devemos obediência", declarou o deputado Quim Torra, do partido de Puigdemont.

Perante o novo mandado de detenção europeu, o ex-presidente da Generalitat terminou a visita à Finlândia mais cedo e regressou à Bélgica, onde o quadro penal relativo ao crime de rebelião é mais suave.

25 arguidos

Os "exilados"
> Além de Carles Puigdemont, sob o qual pende novamente um mandado de detenção internacional, e que se estabeleceu em Waterloo (a 30 quilómetros de Bruxelas), os companheiros de governo Toni Comín, Meritxell Serret e Lluís Puig partilham a mesma situação e localização. Face à prisão preventiva, na passada sexta-feira, a secretária-geral da ERC, Marta Rovira, foi para a Suíça. Nesse país já estava Anna Gabriel, dirigente da CUP. A deputada do partido anticapitalista está acusada do crime de desobediência, enquanto Rovira responde por rebelião. Fora de Espanha está ainda Clara Ponsatí. A ex-conselheira da Educação é agora professora universitária na Escócia.

Os detidos
> Por ordem do juiz do Supremo Tribunal Pablo Llarena, regressaram à prisão Jordi Turull (o candidato designado pelo bloco independentista a presidente da Generalitat), Josep Rull, Raül Romeva, Dolors Bassa e Carme Forcadell. Estas seguiram para Alcalá Meco, aqueles para Estremera. Ambas as prisões situam-se na província de Madrid.

Já estavam presos
> O líder da ERC, Oriol Junqueras e o ex-conselheiro do Interior Joaquim Forn estão também em Estremera, em prisão preventiva. Tal como os ativistas das associações Òmnium Cultural e ANC, Jordi Cuixart e Jordi Sànchez, estes em Soto del Real, a chamada prisão VIP, também em Madrid.

Em liberdade
> Respondem pelos delitos de desobediência Carles Mundó, Santi Vila, Meritxell Borràs, Lluís Maria Corominas, Lluís Guinó, Anna Simó, Ramona Barrufet, Joan Josep Nuet e Mireia Boya. Como a moldura penal é mais leve (inibição de cargos públicos), aguardam o julgamento em liberdade.

Casos Arquivados
> Artur Mas, ex-presidente da Generalitat, Marta Pascal, coordenadora do PDeCAT, partido que integra a aliança Junts per Catalunya, e Neus Lloveras, presidente da Associação de Municípios pela Independência, viram o juiz arquivar os seus casos. Mas e Lloveras renunciaram aos cargos de dirigentes que detinham.

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