Barragem de Mossul a ponto de colapsar. Bagdade inundava em 77 horas

Estrutura esteve sob controlo do Estado Islâmico e deixou de sofrer reparações necessárias. Caso ceda, cidade de Mossul será atingida por uma onda de 20 metros de altura

A barragem de Mossul, no norte do Iraque, foi terminada ainda durante o regime de Saddam Hussein, em 1986. Construída com os alicerces assentes em pedra de gesso, nunca foi uma estrutura sólida e estável, apesar de conter mais de 11 mil milhões de metros cúbicos de água, exigindo constante manutenção. Porém, conforme assinala o jornal britânico The Guardian, o reforço das estruturas tornou-se raro, sobretudo desde 2014, altura em que o grupo terrorista Estado Islâmico tomou a barragem e se apoderou dos equipamentos necessários para fazer a manutenção. Ainda que os peshmergas, combatentes curdos que lutam contra os 'jihdistas', tenham recuperado o domínio do local cerca de seis semanas depois do primeiro ataque dos terroristas, o ritmo intenso de combates na região tem permitido pouco trabalho na reparação da barreira artificial que impede que a água do rio Tigre, que banha a Mesopotâmia, se espalhe e inunde toda a região.

O colapso da parede de 14 metros da barragem seria, segundo o Guardian, uma catástrofe de enormes proporções: os habitantes da cidade de Mossul, a terceira maior cidade do Iraque, ficariam submersos, atingidos por uma onda com 20 metros de altura. Estima-se que Bagdade, a capital iraquiana, ficasse completamente inundada em cerca de 77 horas depois de a barreira ceder. As duas cidades estão separadas por cerca de 400 quilómetros.

Na semana passada, revela o diário britânico, a embaixada norte-americana em Bagdade emitiu um aviso: o risco de a barragem colapsar é agora "sério e sem precedentes". A corrente de água libertada pelo acidente poderia afogar mais de um milhão de pessoas e obrigar à deslocação de muitos milhões. O conselho da diplomacia dos EUA é que seja evacuada a planície junto ao rio, como forma de prevenir uma catástrofe de maiores dimensões.

"A barragem está numa situação muito perigosa", admite Nasrat Adamo, o antigo engenheiro chefe da estrutura. Em março e abril, o nível de água no reservatório deverá subir, uma vez que derrete a neve do inverno, e a barragem a precisar de reparações poderá "falhar a qualquer momento", indica. "Costumávamos ter 300 pessoas a trabalhar em três turnos diferentes ao longo de 24 horas, mas muito poucos destes funcionários regressaram. Talvez estejam a trabalhar no local cerca de 30 pessoas neste momento", revelou numa entrevista telefónica ao Guardian. Adamo está agora na Suécia, onde trabalha como consultor. "As máquinas para cimentar foram levadas. Não há reservas de cimento. Não podem fazer nada. Está a ir de mal a pior e é urgente", frisou.

Apesar de, até ao momento, ter desvalorizado o provável colapso da barragem de Mossul, o governo iraquiano mostrou uma subtil alteração de posição nos últimos dias: em comunicado, pediu aos habitantes de Mossul - sob controlo do Estado Islâmico desde junho de 2014 - que se afastem pelo menos seis quilómetros da margem do rio.

No início de março, os responsáveis iraquianos anunciaram que foi assinado um contrato com um construtor italiano para reforçar e fazer manutenção da barragem de Mossul durante 18 meses. O acordo foi definido após conversações em Nova Iorque, em que participaram o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Paolo Gentiloni, e responsáveis iraquianos e norte-americanos. A Itália terá planos para enviar 450 militares para o local, para proteção da estrutura, mas não se sabe, para já, quanto tempo será necessário para que seja substituída a maquinaria danificada e reunir a força de trabalho necessária para começar as reparações.

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