As expressões, os gestos, a postura: o que mudou nos debates

Hillary Clinton perdeu o sorriso, mas manteve a expressividade. Donald Trump não fugiu muito àquilo que é, peca pela forma como gesticula

Basta ver a entrada em cena dos dois candidatos à Casa Branca em cada um dos debates para perceber que algo mudou entre o primeiro, realizado a 26 de setembro, e o terceiro, que aconteceu ontem à noite. Hillary Clinton surge sempre mais sorridente. Donald Trump evidencia alguma tensão. Estas primeiras impressões são visíveis a qualquer um, mas Rui Mergulhão Mendes, especialista na análise da linguagem corporal, microexpressões e deteção da mentira, vai aos pequenos detalhes e concluiu que a candidata democrata fez muitas mais correções ao nível da forma de estar do que o adversário republicano, que beneficiou do formato deste último debate, que não teve interação com público.

"No primeiro debate, Hillary Clinton entra com um sorriso algo dominante e não tem problemas em ir à zona de Trump para o cumprimentar, o que indica que não tem medo e provoca nele algum desconforto", repara Rui Mergulhão Mendes, salientando ainda os factos de a candidata olhar para a plateia e apontar e sorrir para algumas pessoas em concreto e de agradecer os aplausos, como se estes fossem para ela. "Isto não é inconsciente, é treino e ela colhe vantagem naquele momento", analisa o especialista.

No segundo debate, em que os adversários às presidenciais norte-americanas de dia 8 de novembro já só se cumprimentaram com um "olá", Clinton voltou a dominar na entrada, considera Rui Mergulhão Mendes. Além do sorriso - "uma cara sorridente cria sempre mais empatia que uma cara fechada" -, a candidata faz uma ligeira travagem junto ao centro do plateau, obrigando o adversário, que chegou com uma expressão que denota alguma ansiedade, a reagir dando alguns passos hesitantes. De seguida Trump desloca-se para trás da cadeira onde se deveria sentar, o que "é um sinal de defesa", já que esta funciona como uma espécie de barreira entre os dois.

Finalmente, no debate da noite passada, Clinton e Trump já nem sequer dizem olá um ao outro e, repara Rui Mergulhão Mendes, dirigem-se diretamente aos respetivos púlpitos. Ela a sorrir, mas menos; ele, sério, e com alguma apreensão estampada no rosto.

Do primeiro para o último debate, Hillary Clinton passou a ter "uma postura muito mais fechada". E isso está patente, não só no sorriso, mas também nos gestos e na postura. "Está muito mais recatada, está balizada pelo próprio púlpito", analisa o perito, que considera que este modelo de debate, sem interação com o público, é-lhe menos favorável. "É melhor para ele. Se estiver numa espécie de colete de forças", neste caso o púlpito, "não faz tanto disparate"

E dá o exemplo de um momento do segundo debate, em que os candidatos respondem a uma questão de alguém do público. Primeiro Hillary Clinton:

Hillary Clinton aproxima-se da pessoa, "criando um laço, não só com ela, mas com todos os que veem". "Dá a ideia que se preocupa e é aqui que ela ganha pontos", considera Rui Mergulhão Mendes, realçando que a candidata "nunca deixa de responder diretamente a alguém". Além disso, nota, quando Hillary diz que quer o voto de todos faz um movimento de braço que abrange toda a plateia. "Há uma congruência entre o que diz e o gesto", analisa o especialista.

A seguir, Trump responde à mesma pessoa:

Rui Mergulhão Mendes repara em vários detalhes: Trump limita-se a levantar-se, sem se aproximar da pessoa, "sem power na comunicação". Além disso, "faz ruídos na respiração, o que a ser uma questão nervosa e não de saúde, deveria ser corrigido", pois não ajuda no processo de comunicação.

Finalmente, a expressão facial, que, na opinião do especialista, é praticamente nula. Por um lado, o rosto de Trump não tem definição, pois cor do cabelo e tom de pele são praticamente iguais. "Ele fecha muito os olhos e fá-lo de forma demorada. Quando o faz não há contraste", diz. "Já ela, tem um ar expressivo, os olhos muito abertos".

Para Rui Mergulhão Mendes, Hillary Clinton "cresceu do ponto de vista da comunicação", mas a diferença de sorriso do primeiro para o terceiro debate foi exagerada. "Foi uma tentativa de passar uma imagem de maior seriedade, mas deveria ter ficado num meio-termo entre o segundo e o terceiro", defende, salientando que, muitas vezes, o sorriso é indício de desconforto. "O sorriso estabelece por norma laços mais empático do que uma face mais fechada, mas se usado indiscriminadamente pode ter um efeito contrário. Serve em muitos casos para mascarar emoções negativas como o medo, a ansiedade, a raiva...", realça.

A "dança" de Donald Trump por trás de Hillary Clinton enquanto esta respondia a uma questão foi um dos pontos mais comentados do segundo debate. Para Rui Mergulhão Mendes há ali uma "tentativa de intimidação", nomeadamente quando ele se coloca mesmo por trás dela. Além de que aquela "movimentação é tensão, mostra ansiedade".

E antes, quando ele responde à questão sobre terrorismo, fica evidente o seu "problema em controlar as mãos", nomeadamente o facto de levantar o dedo em riste em direção à adversária. Por isso, defende o perito em linguagem corporal, o candidato deveria segurar o microfone com a mão direita, uma vez que, enquanto destro, tem mais tendência para gesticular com essa mão e assim conseguiria controlar melhor esses gestos, que por vezes são prejudiciais à comunicação.

Finalmente, Trump acaba de responder e põe a mão no bolso. Um movimento que deveria evitar, uma vez que "denota insegurança". Como se não bastasse, coloca-se atrás da cadeira, como uma defesa.

No último debate, segundo Rui Mergulhão Mendes, Hillary Clinton "não expôs tanto a zona da carótida", o que indicia que não estava tanto à vontade. "Quando se mostra é sinal de tranquilidade, de segurança", analisa. "Donald Trump esteve mais solto e ao ataque".

O momento em que se fala de Vladimir Putin e em que Hillary remata sugerindo que Trump é um "fantoche", é um exemplo:

"Ele fala com as duas mãos", quase como se estivesse a disparar. Da parte de Hillary quase não há reação, praticamente não olha para ele. "Ela teria rido nos outros debates. Aqui está mais fechada e centrada no que iria dizer", considera o especialista. "Ele está a ser ele".

Quando é acusado de ser um fantoche, Trump faz uma expressão facial de aversão, entende Rui Mergulhão Mendes.

No final do debate, a atitude física de cada um dos candidatos também é completamente diferente.

Hillary, a sorrir, vai cumprimentar o moderador do debate, dirige-se ao público, volta a apontar para alguém em particular com uma expressão quase de surpresa, a qual, na opinião do especialista, é falsa. "E aquela transição para a poker face foi rápida de mais", analisa.

Trump, por seu lado, surge "mais controlado, menos gesticulador".

Rui Mergulhão Mendes explica que "todas estas questões da comunicação têm um impacto tremendo" e que nos Estados Unidos há uma preocupação muito grande por parte dos políticos não só com o que dizem mas também com o que dizem de forma não verbal, através de expressões, gestos e posturas.

Fundador da Emotional Business Academy, conta que em Portugal a análise da linguagem corporal ainda se faz de forma "muito ténue", embora já tenha trabalhado com políticos nacionais e feito trabalhos com algum relevo para aparelhos partidários.

Nos estados Unidos, a análise da linguagem corporal já se faz desde a década de 1960. O ponto de partida foi o debate entre Nixon e Kennedy, o primeiro transmitido pela televisão. Enquanto o primeiro, que estava a recuperar de uma hospitalização, parecia cansado, sobretudo porque recusou maquilhar-se, o segundo tinha uma aparência tranquila. Resultado: quem viu o debate na TV preferiu Kennedy; quem o ouviu na rádio preferiu Nixon.

A partir daí percebe-se o impacto da comunicação não verbal.

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