Apoiantes de Maduro invadem Assembleia e deixam 12 feridos

O presidente condenou a violência no desfile militar de comemoração dos 206 anos da assinatura da Ata da Independência

Homens mascarados, vestidos com as cores dos apoiantes do presidente Nicolás Maduro, invadiram ontem a Assembleia Nacional venezuelana e agrediram os deputados e funcionários. Pelo menos 12 pessoas ficaram feridas, entre elas cinco deputados opositores que participavam numa sessão especial comemorativa do 206.º aniversário da assinatura da Ata da Independência da Venezuela. Algumas testemunhas dizem que chegaram a ser disparados tiros no interior do edifício.

"Há quase cem jovens que morreram por isto, uns golpes na cabeça não são nada", disse o deputado Armando Armas, da Mesa de Unidade Democrática, que publicou no Twitter fotos com o rosto ensanguentando, depois de ter sido agredido. Na declaração referia-se às 91 pessoas que, segundo dados do Ministério Público, foram assassinadas no âmbito de protestos a favor e contra o governo de Maduro. "Vamos defender a Venezuela, foi para isso que fomos eleitos. Custe o que custar, continuaremos, estou orgulhoso de representar o estado Anzoátegui", acrescentou Armas.

Os deputados, funcionários e jornalistas terão sido agredidos com pedras e paus das bandeiras, usadas pelos manifestantes que desde cedo rodeavam a Assembleia. Tinham também, segundo algumas testemunhas, lançado petardos para os jardins, antes de forçar a entrada no edifício. Lá dentro, além das agressões, terão lançado gás lacrimogéneo e, segundo os deputados opositores, disparado vários tiros. Os deputados e seguranças detiveram pelo menos um dos atacantes, que também ficou ferido.

No Twitter, Maduro ignorou o que aconteceu na Assembleia, partilhando vídeos dos desfiles militares por ocasião dos 206 anos da assinatura da Ata da Independência da Venezuela nos quais participava, do outro lado de Caracas. Contudo, no discurso neste evento o presidente condenou a violência na Assembleia e pediu uma investigação. Mas pediu também à oposição que falasse contra a violência dentro das suas próprias fileiras. "Quero paz na Venezuela, não aceito violência de ninguém", afirmou.

Antes do ataque, o vice-presidente Tarek El Aissami esteve na Assembleia para um ato no salão Elíptico, onde está a Ata da Independência. "Estamos nas instalações de um poder do Estado, sequestrado pela mesma oligarquia que traiu [Símon] Bolívar", disse, referindo-se ao herói da independência, lançando um apelo para que o povo fosse até ao Parlamento. O evento foi feito sem dar conhecimento aos líderes da Assembleia, única instituição do país controlada pela oposição, sendo considerado pelos deputados opositores como uma "agressão".

Esta não é a primeira invasão dos apoiantes do governo de Maduro à Assembleia - mas a 23 de outubro não houve violência, tendo apenas sido preciso interromper os trabalhos. Agora, os incidentes surgem num momento em que a sociedade venezuelana está cada vez mais polarizada, após três meses de protestos diários, que já fizeram mais de 90 mortos. A oposição, que tem visto a Assembleia a ser esvaziada de poderes, acusa o governo de se ter convertido numa ditadura. Já o executivo alega ser alvo de uma campanha promovida por atores estrangeiros, para garantir um golpe de Estado. Tudo em plena crise económica, com escassez de bens essenciais e medicamentos, face a uma inflação que, segundo o Fundo Monetário Internacional, será de 720% em 2017.

O diálogo entre governo e oposição, sob a mediação do Vaticano e da União das Nações da América do Sul (Unasul), tem falhado. Maduro lançou entretanto o processo para uma nova Assembleia Constituinte, devendo os venezuelanos escolher no dia 30 de julho quem irá reescrever a Constituição. Já os opositores, que vão boicotar esse processo, convocaram um referendo simbólico para dia 16 de julho.

"Ação de solidariedade" em Lisboa

A capital portuguesa foi palco de uma "ação de solidariedade" com o povo da Venezuela, organizada pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), com o apoio da embaixada venezuelana. Cerca de 200 pessoas estiveram presentes no evento, promovido para "expressar apoio às forças progressistas" venezuelanas, alvo de "um golpe antidemocrático" que visa a "recuperação do domínio dos EUA", "posto em causa com os processos progressistas na América Latina".

No evento, o embaixador Lucas Rincón Romero afirmou "a determinação" dos venezuelanos "na independência" e, sublinhando a "legitimidade constitucional" do presidente Maduro, enalteceu o "apoio constitucional e popular à paz" no seu país. Segundo a agência Lusa, um cartaz onde se lia "Venezuela livre" foi arrancado das mãos de Christian Hohn, presidente da Associação de Venezuelanos em Portugal, Venexos, que tem organizado manifestações contra Maduro.

Na sua intervenção, a presidente do CPPC e candidata comunista à câmara do Porto, Ilda Figueiredo, lamentou a "fase difícil" que a Venezuela atravessa e que "visa paralisar a atividade legítima do governo", vítima de "um golpe fascista" promovida por "grupos reacionários e de extrema-direita" que "tentam lançar o caos no país".

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